Poema

Comboiopoema

(em construção)

Se pudesse dizê-lo de outra forma certamente que o faria

 

1.

Anos passaram por mim

comboio apressado

incerto rumo no tempo

estação

desajustada

em meio à árida planície

plana

imensa

com lábios em chama

que queimam

e me afastam da chama

atraindo um beijo desencontrado

que arde sem fogo

na luz

que me aproxima do fogo.

 

E mesmo se gela lá fora

não tem importância aqui

entre tanto cheiro de aço

que se desprende dos carris.

 

2.

O calor derrete o polo norte

o mesmo calor que gelou

tanta indecisão

este calor gelado que ainda poderia existir em mim

derretido

de coração aberto a ti

dentro de mim

glacial

vulcânico

servido à mesa pelas engenheiras

da central elétrica

que um dia

fizeram bater artificialmente este meu coração.

 

Agora e Aqui

sempre presente e distante

porque o sol está hoje como o sol é

porque as palavras são só palavras

só palavras nuas de destino

e a música que escuto

que por mais linda e

culturalmente

corretamente aceitável

não é nada

comparada

com a melodia que quero ouvir

numa exigência de vida

desde os inúmeros anos que passaram

em que parti

desligado de mim

para encontrar o caminho para a estação do comboio noturno onde

os sonhos se confundem com mulheres…

 

Nestes anos todos em que parti e em que

sozinho

no meio do nada

escrevi

um poema de mim:

um COMBOIOPOEMA (em construção)!

 

3.

Olhando para trás na história do mundo hoje onde vivi

sorrateiro e confuso de esperança

sinónimo saudades feitas

de lenços brancos

na torre dos soluços

frente à estação central em Amesterdão

pior ainda que o fado em soluços

canções do Jordão

em Amesterdão

cantam em pranto

silencioso

o outro fado esquecido

dos marinheiros.

 

Passeando-me

no desacerto das ruas

ainda hoje lá estás presente e curvado

sem abrigo

na memória do tempo que se não desamemora

uma bala espetada no teu rosto em Amesterdão

sentado no chão encostado ao muro deserto

no bairro mais psicadélico da cidade

constante presente no agora

um tiro na testa e um polícia meio sorridente

apontando-nos o outro lado do passeio

como se a vida passasse ao nosso lado.

 

São forças que nos ameaçam

nos roubam a esperança

fazem despertar a noite

arrebatam a luz do sol

num fim de ciclo que só pode ter fim

dando à luz novas existências

nas estações chegada-partida

de uma primavera repleta

de linhas abandonadas e ferrugentas

que têm tudo

menos ser primavera

e nos dizem

que é urgente a luz.

 

Mas hoje

dou um beijo que vai daqui ao céu

perdoando-me todos os pecados do mundo

abraçando-me

neste fim do mundo

que começa na estação de partida

onde todos os comboios têm a sua origem

à esquina do conhecido café do bairro

onde o jazz à segunda feira não faz sentido.

 

Digam-me então

quem viu por aí o comboiopoema (em construção)

sozinho perdido no meio do nada

numa espécie de beijo…

desencontrado no tempo…

 

A mala de despedida luxuosamente aviada

perdoando-me todos os pecados

tu assim em mim

num sussurro de vida

escuridão

túnel

transe

entre o despertar da aurora

hoje celebrando o fim do mundo

no dia em que foi escrito o apocalipse pelos desacreditados da terra

no livro vazio dos eruditos

escritos no tinteiro que

romanticamente

escrevemos

e reescrevemos

com a tinta que faz rasgar as nuvens e faz descer sobre nós

romântica e pateticamente

a nuvem descolorida do arco íris

descobrindo-me entre as penumbras de mim no comboio vazio

na estação à espera.

 

Todos os poetas têm isso dentro de si que já não há anos séculos no pó dos tempos

na pretensão de escrever o poema como se fosse o único que vale a pena ser vivido e ser descrito com a tinta barroca das nossas lágrimas descobrindo-se nas penumbras onde são dados os escassos beijos onde a terra sôfrega abre os braços para acolher o ciclo da vida e da morte de orquídeas que não estão em estado de dar à luz e de repente surgidos das mais profundas brumas dos pesadelos memórias infância sonhos desfeitos em suores gritando gritando:

QUEM ÉS TU?

 

4.

 

Sou eu então o que faço há anos

e abro os braços

e ponho na boca a flauta que não tem som.

 

Fazendo o que não fazia há anos

Adormecido

escritor

à procura do que não foi escrito em transe

porque é hora de escrever o único poema vida

na hora onde se descobrem as estações

e onde os comboios adormecem

à sombra da ferrugem

esperando o novo chefe de estação.

 

Vinda das brumas num eco de silêncios

bocas desdentadas no dantesco

das ruínas

do ferro deixado ali ao sabor do tempo apocalíptico

na estação de Viana caída em desuso

de onde antes se saía de carroça

e o chicote soava batendo a mula

sob o sol tórrido

na planície alentejana.

 

Descalço-me então entre o cheiro das peúgas

e ponho no chão a toalha onde se vêm ainda as marcas do sangue

de cravos regados no meu corpo.

 

E debaixo do sobreiro no incêndio do branco das casas

vemos todos a revelação de uma sombra e eu pergunto-me

se és tu

a princesa inexistente saída das brumas

da memória infância onde no meu sangue

foi gravado o escaravelho que (ainda hoje) me acompanha na vida

possivelmente princesa de todos os sorrisos

fada de todas as crianças

desejo escondido da terra

cúmplice e causadora de ciclos repetidos

que desencadeias guerras

e acordas cada criança

criando um dilema de paz e ódio e queixume e perdão e desalento esperança

causando inquietude

segredo oculto deixado para trás no silêncio da estação vazia

e emergindo agora de repente

para acender o fascínio

das questões não respondidas

no segredo por trás de todas as igrejas

a manter o mito em que o mito tem como única razão ser mito

para fazer suar os ceifeiros e as ceifeiras

que inexplicavelmente procuram que a terra se milagre

e os sedentos ficam à espera

que nasça uma flor espontânea num caminho

terra batida terra cruel terra mãe terra abençoada

onde afinal a única coisa ouvida

era o chicotear da mula.

 

Nunca tinha sentido este desejo tão intenso

de escrever uma declaração de amor

apesar de ter já encontrado o comboio

em diversos apeadeiros.

E já agora:

Quem viu por aí o comboiopoema sozinho perdido no meio do nada?

Em construção.

 

 

5.

Sê livre então pega num martelo e quebra as janelas que ainda restam inteiras no teu comboio! Afasta os fantasmas! Dorme possesso dos meus espíritos. Que toque a banda e seja celebrado o ritual com uma galinha branca. Que se erga a bandeira. Que se fume o espírito saído das pedras que por aí se espalham. Enterra a tua mão transparente e fria no meu peito e arranca de mim o coração cego das planícies desertas no desalentejo árido. Que se faça finalmente dia. Que se possa respirar e celebrar o vento e as estrelas em cada célula das tuas folhas. Envolvidos no vulcão dos séculos continentes desaparecidos e mil crianças acabadas de nascer.

 

Porque é tempo de montar os cavalos selvagens que cantei na minha infância

e vejo agora iluminando as pupilas no teu rosto estátua arte preconcebida no

começo qual começo agarrando agora no meu punho fechado

libertando o pássaro no punho fechado

para podermos finalmente sorrir juntos

o sorriso das infinitas madrugadas no eterno céu

diabolicamente estrelado

contando-nos histórias para nos adormecer no tempo           o segredo de uma eternidade

conceptual e azul

azul sem mais nada

sem significado ou

tendo como único significado ser azul e mais nada

deixada ali

esquecida

na estação de comboios mais esquecida do mundo

reduzida a ferro lata aço derretido na planície árida

no deserto das civilizações

que povoam os nossos peitos desumanizados

pelo anticristo.

Mas sempre esperando o olhar

que reconheça

a sua verdadeira natureza humana

pois o diabo pode tomar conta da terra

mas não toma conta do meu coração.

 

Pode dizer-me, se faz favor: a que horas passa o comboio que já passou?

Porque quero não quero ser teu por quantos dias

na certeza incerta dos amanhãs que se repetiram

sem tempo

nos armários vazios

à porta dos diversos eus

assombrados

possuídos

libertos

levando nas mãos a chama que inevitavelmente

se apagará um dia

como os comboios de lata na caixa de brinquedos

no caixote do lixo

junto à boneca mimada desfigurada

sem olhos

descosida

jazendo sem se importar que os comboios passem ou não

e a maré seja alta ou baixa

ou galgue a muralha

para descarrilar os carris já fora do sítio

esperançados

na mão divina indiferente às lágrimas que se derramam por entre as rochas e as árvores e a lama…

nestes anos que passaram por mim

num comboio apressado

rumo à estação abandonada

quente desajustada

naquela planície de que já te não lembras

e

onde os tigres se riem às gargalhadas.

 

Mas

Por entre toda a mentira e corrupção

haverá sempre uma voz que se levanta e diz

que a vida é luz.

 

Estando aqui

sendo teu

não sei por quantos dias

nesta viagem incansável

no comboio parado da madrugada

fazendo contas às horas

que a incerteza

nos traz

quando nos beijamos

numa noite ao acaso

mãos nas mãos presas num sorriso

sendo teu

sem sequer isso ter importância

nas inúmeras horas

que leva a escrever um rio.

 

Num dia sem conceitos

nem prejuízos.

 

Num dia assim sem mais nada

sem ganhos nem perdas

e sem pedidos de desculpa.

Sem certezas

sem indecisões

sem perguntas que nunca poderiam ser respondidas

porque é assim quando um comboio passa

descarrile ele ou não.

 

Porque hoje

nem tu sequer tens a importância

da importância que te dou.

Solitário

no único dia da sinceridade

não sei por quantas feiras de sábado à segunda da semana que vem.

Sem conceitos.

Sem ontem nem amanhã

debaixo do sobreiro

ouvindo ao longe

o mesmo chicotear na diligência

e as rodas madeira e ferro no eco da planície vermelha.

 

Afinal somos hoje a comunhão anunciada

pelos meus cavalos selvagens da adolescência

quando à porta da taberna

presenciava o mundo

sem pôr o pé de fora

observando a tia Alice dos caracóis

na taberna do outro lado da rua das escolas gerais à porta de Alfama.

 

Digam-me entretanto:

Quem viu por aí o comboiopoema sozinho perdido no meio do nada?

O comboio que nos leva à cidade

que todos procuram.

 

6.

 

As andorinhas trazem-nos as boas novas

e abraçam-nos

enquanto damos o beijo que deu origem à vida

fazendo nascer no universo

sussurros no mundo

nações a crescer debaixo da dor horrível da trovoada

onde há ouvidos por descobrir

e esboços de imagens projetadas no mar das sensações

que dão sentido à vida.

 

É o caleidoscópio

onde está tudo em aberto e não há chão

onde tudo é possível

na virgindade do cosmos.

 

7.

 

Sinto a confusão no teu ventre gritos vindos da mãe universal

onde raças se cruzam há séculos

e há candelabros mortos dando luz afinal

no meio das estradas onde a sede

se desprende das lanternas mágicas produzindo sombras

nas paredes nuas da voracidade dos homens

seguidores de raciocínios

doa que querem salvar o mundo com seus conceitos analíticos.

 

É como se nascesse eterna e repetidamente o mesmo dia por nascer

surgido e bebido sôfrego silencioso

pelo bebé inocente

no dia nascido

eternamente por nascer

repetido ontem como amanhã

como se a vida fosse simplesmente

uma repetição do mesmo

e o comboio andasse como no meu sótão de infância

num círculo

eternamente à volta de si mesmo…

 

Lendo os jornais sobre a guerra do dia em que nasci.

 

E repetindo eternamente

o mesmo beijo

feito de fascínio.

 

Segundo a segundo

repetindo o repetido movimento

das estrelas

perpetuamente

independente

das decisões

dos homens

comprovadas

laboratorialmente

como tomada de consciência

do que já tinha inúmeras vezes

repetidamente

sido decidido

segundo a segundo

perpetuamente

na magia dos processos inconscientes

que determinam a amargura

a paixão incontrolada

deste desejo escondido de nascer

como a semente

desraciocinada

que teima em crescer

para desabrochar

na beira da estrada

ao lado do caixote do lixo dando cheiro à terra

onde a magia foi descaradamente posta a descoberto

no dia em que me senti

apedrejado

pela violação da minha inocência

decidi cantar o comboiopoema (em construção)

chegar à estação e com a flauta mágica

dar de beber às cerejas.

 

Para mim já não há tempo de verbo.

O que existe nunca foi.

E o que foi é repetido em silêncio ressoando verdade desafiando a terra dos insinceros.

 

Resumindo a perpetuidade do encontro

repetido encontro

jamais encontrado num beijo sem lábios

sabiamente escondido dos filósofos

para propositadamente enganar

a compreensão dos aparentemente sábios.

 

Num campo em que tudo está presente

sem mim nem ti

com os egos e as almas presentes

num tudo sem eu nem ti

de mãos dadas acarinhando os catos à beira das encruzilhadas

onde os lobos atentos

te mostram os dentes atrativo dos seus desejos

e nós misticamente fluímos juntos entre os intervalos da chuva.

 

8.

 

De mãos dadas

finalmente

bebendo dos rios

à beira do oceano da vida

saboreando a exuberância

de mãos dadas

agradecidos pela existência do pecado.

 

Todos os comboios podem içar hoje

as suas bandeiras

como todos os homens podem gritar hoje os seus horrores

ou derreterem-se no mel

da contemplação

mas todos todos sem exceção

gritarão

indiscutivelmente agitados e testemunhando gratidão e

sem a complacência das ovelhas tresmalhadas ou não

gritarão

gritarão

que o pecado é a razão da vida!

É que sem pecado

nenhum poema teria sido escrito

e a vida seria uma desilusão.

 

É que sem pecado nem sol nem lua

inóspito

inabitável

nem crente nem descrente

só insipidez

talvez um poema socialmente correto

digno de louvor pelo ministério

com direito a prémio

e citado pelo presidente da república dos coelhos

aplaudido pelas raposas na assembleia

acusando as flores que crescem espontaneamente aos lados por toda a parte no centro dos caminhos transformando inóspitos desertos em palpites

desconcertantes palavras de amor num mundo atónito

em que os abraços passaram a razão de ser

tiradas despoetizadas de Camões e acusando

a oportunidade

desperdiçada

dos capitães

fazerem calar

de uma vez para sempre

aquela história desgostosa dos canhões contra os canhões

para construir um novo país

digno de um novo hino nacional.

 

9.

 

Agradeçamos à deusa então

a ordem de amar

a criação

do pecado

num beijo

sem limitações

na praça pública

transformando a inóspita paisagem do reclame

em ponto de encontro

cantando o hino dos hinos

que o novo comboio traz na hora exata da chegada à estação da ressurreição

debaixo do olhar atento

dos planetas que espreitam

aconchegados na almofada

debaixo do céu que nos canta o novo hino

que finalmente fez calar o bélico heróis do mar

e a chamada às armas

sob o olhar embasbacado

do presidente.

 

De mãos dadas nas escadas dos patamares observando o ódio das catedrais-inferno feitas de testemunhos falsos vergonhosamente moribundas e em coma a fazerem-se de vivas.

 

E ainda por cima

E ainda por cima

 

Apelidando-se nas enciclopédias o título de civilização!

 

 

10.

 

Admirem-se admirem-se admirem-se admirem-se:

– no mais escondido dos hotéis soa estrondosamente o grito da “guerrilha”.

 

É cantado o novo hino das infernais catedrais agora transformadas

cercados pelas tais flores que misteriosamente brotavam nos passeios

por onde passávamos fugitivos de amor à primeira vista

num bar de hotel barato e de mãos dadas

onde pisamos o chão com nossos pés inocentes

no dia em que o pecado é virtude

e onde os anjos nos apontam o caminho

rebelando as regras e cantando a vida que nos foi dada para viver pelo aparente Satanás

das paixões arrebatadas

calor de fornos que nos adormecem transe paraíso enquanto as cataratas se espalham no rio

abraçando o nosso desejo de plenitude

diferentemente expostos de peitos abertos

saudando o novo chefe da estação.

 

Sempre presente anunciando a liberdade

onde cada metáfora revela o desejo das veias

passeando nos contornos das ruelas onde a glicerina das velas deixa um cheiro de saudade

e onde à meia-noite do ano 2000 e tal

naquela noite

saía da taberna um fado ébrio.

 

Toma o comboio sem saber que vai a parte nenhuma

sê livre sê livre sê livre agora

das palavras que sempre te ensinaram

enquanto estavas amarrada amordaçada violada no banco da escola

atira fora da janela

os livros que te fizeram engolir

a mentira da história

e as lições da tabuada que te açoitaram nas tuas mãos em sangue de palmoadas

à vista das masmorras sem pudor

acurraladas aos cofres acumulados

sem vergonha

pelos senhores diretores do mundo uns tantos e tal

em cima dos seus cavalos amaldiçoando os biliões de escravos

dia a dia violados.

 

Sê livre agora e parte para nenhuma parte não há parte alguma

e mesmo que fiques aqui vendo o comboio sem destino

sei que ergues a bandeira

e que sob o escárnio geral

o teu coração é LIVRE agora.

 

Porque eles acreditam na mentira.

Não vás na conversa

sê livre meu amor.

 

E quem viu por aí o comboio poema sozinho perdido no meio do nada?

Em construção!

Espalhem por toda a parte: chegámos aqui agora.

 

Obrigado Paul Eluard: La nuit n’est jamais complète

 

“La nuit n’est jamais complète

 Il y a toujours puisque je le dis

 Puisque je l’affirme

 Au bout du chagrin une fenêtre ouverte

 Une fenêtre éclairée

 Il y a toujours un rêve qui veille

 Désir à combler faim à satisfaire

 Un cœur généreux

 Une main tendue une main ouverte

 Des yeux attentifs

 Une vie: la vie à se partager.”

 

 

11.

 

Sobre aquelas coisas que nos dizem disseram

foram ditas e gravadas

se repetem

trapalhices fato elegante gravata

nem me quero lembrar

o lenço em triângulo no bolsinho direito ou esquerdo? do fatinho chique

que me não quero lembrar lenço branco lenço banco

diz adeus ao mar

esquece os que seriamente apregoam as mesmas causas efeitos e princípios

todas aquelas coisas que nos dizem disseram

sobre o amor e sobre a realidade

partidária e

nós infelizmente acreditámos nela ó mãe justiça

que nunca nada fez pelos injustiçados

e nós nesta senda dos monumentos onde é pregada a balança da mentira

lobos e astutos nos servis da cumplicidade

wall street à descarada

e ficar assim reduzidos à nossa identidade

feita construída unificada edificada

sobre os pilares da mentira na aldeia global.

 

 

Se há uma mentira acredita só na tua.

Impostora dá-me então a tua mentira

juntando os teus lábios aos meus lábios

sorrindo da crença socialmente correta

escarnecendo o princípio correto de vida

que me foi ensinado pelos acionistas

na bolsa dos investimentos desnecessários

elevando agora

a nossa bandeira

e levando

na carruagem da frente do nosso comboio

o grito embandeirado do nosso único terrorismo

rebelião intensa

desejo de significado amor encontro

não manipulado e livre

o grande bastião contra o fundamentalismo

contra a exploração

contra o controlo

contra o extermínio

contra a exploração faminta…

contra a guerra e ao abandono…

 

E elevando em júbilo a minha voz

orgulhando para que se orgulhem

todos aqueles que voltaram as costas às eleições

e decidiram que as votações feitas de propaganda escárnio e manipulação e desrespeito

por muito chamados democratas

são um atentado à violação dos direitos humanos.

 

É que todos mais uma vez querem conquistar o teu voto minha querida para depois da eleição mais uma vez entenderes no âmago da tua alma que mais uma vez te deixaram sozinha esfomeada na desolação de significados contribuindo para a egoidolatria

cabeça em diarreia assembleias da publicidade sem povo sem dignidade

sem história

 

onde está o ser humano vivo livre universal o canto do rouxinol?

 

Todos querem conquistar o teu voto e a consequência é que

estás sozinha meu amor e quanto mais apoiares e votares

mais sozinha estarás meu amor

ao sabor dos lobos que se aproveitam dos teus cêntimos e da tua dignidade humana.

 

É esta a Terra esperando o calor da tua dimensão

É esta a Terra esperando a tua palavra sorriso canto de esperança

espalhando a bandeira da empatia

transformando o deserto num oásis

feito de coração e bondade e respeito e paz e ternura.

 

 

13.

 

Há aparentes palavras de liberdade que nos roubaram

Que nunca corresponderão às palavras que pronunciámos

como não há lábios iguais aos teus lábios

nem seios que se deixem acariciar

com a doçura de mãos aconchegadas ao teu calor.

 

Sê então livre dos poemas

venenosos

escritos no mundo

em nome do amor

onde mulheres são apedrejadas

quando ousam entregar a sua alma

fora dos círculos poderosos dos machistas descendente de um deus

que construiu uma Eva feita de pedaços de homem

e por isso é submissa leal escrava servidora

embora tenham para isso

nos tribunais

uma assinatura do profeta.

 

 

14.

Por favor senhor chefe de estação:

o ar aqui está saturado!

Faça, por favor, o comboio partir!

embora não saibamos

nenhum de nós qual é a estação de destino!

 

 

15.

 

De repente o comboio fantasma disparou e no mesmo momento chegou à estação de partida onde o esperava a rainha do mundo

mulher mãe e sacerdotisa

querendo fazer arder a chama nos seus filhos

para iluminar o túnel de modo a que o comboio possa ver o caminho

pois só ela está em estado de fazer isso

pois só ela tem a capacidade de ser mãe

ser mulher

e empunhar o cetro que os patriarcas durante milénios empunharam nas suas mãos

gritando sê livre sê livre para que nos amemos na tua liberdade

venerando o ventre da vida e

observando o nascer e o pôr do sol nas tuas luas

influenciando as marés e abraçando os poetas

livre e eterna sempre tu eterna e cósmica procriando primaveras

no teu lugar presente central na tribuna do mundo

 

E ISTO

enquanto o teu marido declara a guerra a fome e a insegurança às crianças já pálidas

 

enquanto tu te recrias para espelhares as estrelas nos teus cabelos

enquanto nas bermas nos passeios nas estradas de um outro mundo

o comboio entra de novo nos carris

espalhando a sensação inebriante do calor do sangue que corre nas tuas veias do SIGNIFICADO

sensação inebriante acompanhando o eco dos teus passos

poetisa de todos os poemas que terão de ser escritos

naquele dia em que me ofereceste o escaravelho

entre a canção das bruxas que se juntaram na encruzilhada para cantarem o dom que pertence ao primogénito

entre os países do mundo que percorri

no comboio fantasma agarrando a sombra do fumo saído das caldeiras

fugazmente trocando olhares

nas ruelas que tu bem conheceste

quando atiraste a corda para que as crianças pálidas se agarrassem e

subissem as paredes do poço

rumo à liberdade enriquecendo os terrenos áridos das almas e

fazendo crescer no teu colo

(empregando aqui um poema banal:)

– as novas flores da vida!

sem que tu mesma te tenhas apercebido da tua força natural

independente e livre de tudo o que os bisavós contaram aos teus avós e que os teus pais repetiram de parecido com aquelas coisas que nos dizem

e por vezes ferem

e nos abrem afinal o apetite de  oxigénio.

 

Obrigado às sombras e

 

obrigado por teres dado autorização para semear nestes jardins a primavera

abraçando a noite estrelada e fazendo diluir-se no ácido

aquela literatura mais clássica

que fizeram engolir aos sapos naquela noite sem escolhas

naquele escondido recôndito em que proteges

a tua sublimidade.

 

 

 

16.

 

 

Quando se apagaram as trevas do mundo amanhã

há um batuque mágico no meu coração despedranizado

com um sorriso à espreita na encruzilhada por onde o comboio não passa

 

 

dando continuidade à vida

 

numa encruzilhada como se não visse

 

 

o teu sorriso de mãe arquétipa à espreita

 

esperando contribuindo em conexão

que se apaguem as trevas do mundo

 

enquanto oiço na minha escuta dentro de mim

o batuque mágico do teu coração

 

enchendo de empatia nos meus dedos

o beijo incógnito das estrelas

como se agora de repente aqui

houvesse finalmente

o encontro definitivo dos sóis

para os quais vivi

universos nascentes

preenchidos

com células de vida

que só serão compreendidas

nas profundezas do encontro

na estação insegura

na encruzilhada dos teus cabelos entrançados

 

enquanto o inspetor confirma

a legalidade da nossa autorização de existir

estamos aqui

sentindo o frio do vazio do mundo

 

 

ao mesmo tempo que os esquilos nos veem acompanhar na celebração

dos amanheceres

nas auroras de infâncias

perpetuamente

rejuvenescidas.

 

 

 

Por isso gosto adoro as flores selvagens que crescem anarquicamente nos meus teus jardins sem vergonha

preenchendo de espanto os meus olhos sequiosos dos teus seios onde os pássaros fazem os ninhos das repetidas melodias da mesma primavera eterna.

 

 

Eh por onde parará agora por esta hora o combóiopoema?

 

 

17.

 

 

Estou aqui perante o teu riso mistério

aquele riso intenso

o riso que as polícias e os exércitos temem

o riso que simplesmente fará sorrir os mais sisudos

e daí a minha esperança!!!

 

Gosto da terra

pronunciada pelos teus lábios

leva-me contigo na tua área

sobretudo para ir ao encontro

das loucuras imprevisíveis do inesperado

onde o espanto é rei supremo

e em que

por instantes

sou príncipe encantado

no teu meu palácio mais fechado…

 

saboreando

o fruto amadurecido

dos milhares de arco íris agora coloridos

que as deusas construíram

para dar ainda mais significado ao amor.

 

Deixa-me ir a passear contigo

nas gôndolas do silêncio

às portas do paraíso

onde cada beijo é sempre o primeiro

como se o mundo fosse unicamente feito de inocência…

 

 

 

Deixa que o comboio siga o seu caminho

para que o poema se prolongue

nas ruas do infinito meu teu destino…

 

Porque te pertenço

porque me nunca te pertenci

redescobrindo a vida

nas tuas minhas indecisões

que são afinal o rascunho de mim.

 

 

 

18.

 

 

Sabes porque sou teu dono de mim pertencendo-te?

Porque

porque descubro e redescubro a indecisão

que são rascunhos de mim e

rascunhos de ti

na sebenta que há muito deixei para trás

nos bancos da necessária escola das imperfeições

redescobrindo os sonhos que me construí um dia

simultaneamente quando me diziam:

– que eram simplesmente ilusões!

 

E quando me afirmei

naquele dia em que se despenharam sobre mim os arranha-céus

na ânsia inquietante manipulativa transcendente feita de generais

lendo-me o livro das ilusões

como sendo o significado da vida com sede em Wall Street

e com todos aqueles escombros sobre as minhas costas enfraquecidas

de repente

senti falta de ar

e só mais tarde descobri que era ar a mais o ar que o presidente nunca poderia entender enquanto não despisse a sua armadura de presidente:

gritei não gritei pus-me a um canto observando de olhos fechados o descalabro a que a coisa chegou

a miséria a exploração a pobreza a fome a perversão

desde então fugindo da polícia e dos generais e dos presidentes

até que eles passaram ao meu lado como história do martírio universal

ao mesmo tempo que me empenhei

no empenho de redescobrir a vida

nas camadas mais profundas de mim

em que o Ser se perde nas fronteiras e se encontra

no Segredo da História                                                          e então

no fundo da esquina

num beco de Alfama

a canção da Rosa o fado a saudade revelando

que não há um eu sem tu

que não há um tu sem eu

e que a resposta só pode ser encontrada na desgarrada

ao fim da noite de fados

na encruzilhada da história mal descrita

dos opressores

e, infelizmente, enfrentando a coragem e um  desrespeito saudável!

 

Obrigado, obrigado, não aceito as vossas palmas

porque foram os teus olhos infinitos

que me ajudaram a chegar aqui.

 

Não há um mim sem ti

não há um cerne de mim que seja apagado pelas tuas loucuras e tonturas do desperdício e crime climático que irá fazer sôfregos os meus trinetos mesmo que para isso construas sobre mim as teias dos aparentes progressistas da terra destruída nem tu poderás no fim de contas continuar nas tuas transgressões esquecido das palavras que por mim foram pronunciadas um dia em que se falou de ecologia

porque eu não sou só eu

eu sou tu

sou o mundo

sou o passado

sou as energias arquétipas que me trouxeram aqui

sou a consciência em mim e a consciência de ti

sou a consciência que foi atraiçoada.

 

Levo isso comigo com o eu e a minha alma

no comboiopoema

na carruagem dos sinceros

espalhando pétalas

e palavras profundas de afeição

levo toda a história

fim do mundo

começo do mundo

primeira e última estação

canal aberto

túnel desimpedido

bandeirola levantada

um chefe de estação com esperança

um relógio que assinala uma hora esperada

um apito que diz:

– é por aqui

embora saiba

que nunca venha a conhecer o ponto de chegada.

 

 

 

 

(este poema, por agora, ainda não tem fim e, como na vida, está continuamente a ser reescrito)

J.F.

Share This