José Figueira

Há algo mais substancial que as regras que copiámos ou inventámos e que determinam a nossa vida? 

Sobre o meu espanto de infância

Vou falar de espanto. Algo que já vem da minha infância. Eu tinha a sensação de vir de outro planeta. Sempre me espantei de como as pessoas acreditam no que dizem e no que pensam e de como muitas vezes se mostram tão convictas no papel social que desempenham…

Perguntava-me: – Como é possível levarem-se tanto a sério?

Numas situações mais que outras, claro, mas grande parte do mundo à minha volta, soava-me a falso.

Sou só eu que sinto isto? Sou eu que sou anormal ou há algo esquisito com o mundo? Esta sensação enchia-me de confusão.

Este espanto original tem-me acompanhado toda a minha vida.

Procurando a Verdade

E se o que vejo, ouço e sinto à minha volta for mesmo falso, onde está então a Verdade? Desde que me lembro acho que fiz sempre a mim mesmo esta pergunta.

Li há tempos a história da loja da verdade. Numa terra de província um senhor pára em frente de uma pequena loja onde na montra se pode ler: “Loja da Verdade”. Entra e confirmam-lhe que vendem a verdade: O que deseja? A verdade parcial, a verdade relativa, a estatística, a social correta, a verdade religiosa, a verdade completa? Ele quer a Verdade toda pois está farto de mentiras. Mas quer mesmo? O preço é alto, mas não importa, está disposto a pagar o necessário. Mesmo que olhe para a perda de tempo que foi todo o seu passado? – perguntam-lhe. Então, pensando bem, disse que iria ponderar o caso e que voltaria… talvez mais tarde.

Como eu não sabia que existia uma “Loja da Verdade”, levei grande parte da minha vida a andar por aí à procura da verdade… Procurei paz e sabedoria no yoga, meditação, tai-chi, filosofia, psicoterapias breves, arte, tabaco e álcool e em todos os livros que ia encontrando pelo caminho na minha vida.

Na verdade, senti sempre que havia dentro de mim uma “verdade”. Fora desta verdade, mesmo sendo subjetiva e por isso pessoal, existia o social correto, o institucionalizado, as pessoas sérias e muito adultas. Perseguia-me a sensação de um enorme “teatro” à minha volta e ao mesmo tempo uma grande sensação de instabilidade emocional: – Eu não pertenço a este mundo!

Um livro fora da caixa

Há vinte e tal anos atrás encontrei Emile que escreveu um livro diferente e que foi o meu primeiro contacto com a Programação NeuroLinguística. Segundo ele, a PNL é uma metodologia que estuda a estrutura da comunicação e nos oferece ferramentas para nos sentirmos melhor e obtermos melhores resultados na vida.

Li nesse livro coisas como estas:

Se quer sair do marasmo, do tradicionalmente conhecido, da zona de conforto, da repetição das mesmas regras que se impôs na vida, das mesmas verdades socialmente corretas, do institucionalizado, então, faça de outra maneira!!! Não jogue o mesmo jogo. Faça diferente. Não se leve a si nem ao mundo muito a sério!

Por exemplo: mude de opinião constantemente; se é certinho cometa um pecado e se é desleixado vista-se elegantemente; se é vegetariano coma um bife e se é carnívoro torne-se vegetariano; se não tem bigode deixe-o crescer; apanhe o primeiro comboio que partir sem conhecer o destino; tome um caminho diferente para o trabalho; vá saltar de paraquedas ou vá brincar com um papagaio de papel ou passe o dia a rir-se de tudo; deixe que na fila toda a gente lhe passe à frente; dirija o seu coração para cada desconhecido; compre algo que acha que é dinheiro mal empregue; chegue ao trabalho meia hora mais cedo; passe uma noite sem ver televisão… E, sobretudo, não se leve muito a sério! Não faça o jogo dos outros!

Esta era a grande mensagem e que precisamente se enquadrava com uma das grandes interrogações da minha vida: como é possível que este mundo todo à minha volta se leve tão a sério com os papéis sociais que anda a desempenhar e as ideias de si e do mundo que tem na cabeça?

Este livro ajudou-me. Agora tinha justificação para experimentar e fazer diferente do resto do mundo. Havia pelo menos uma alma gémea que explicitamente escrevia algo que eu há muito sentia em mim.

Era o momento de me libertar. Tudo é possível. Qualquer “maluquice” que fizesse tinha agora todo o sentido. Podia finalmente ultrapassar os meus sentimentos de culpa ao sentir-me diferente.

Mas não resultou a longo prazo. Não me deu muita paz interior. Sentia como se houvesse um juiz, regras que me levantavam o dedo. Contradições internas experimentadas subjetivamente como conflitos entre Eu e o Mundo. Não percebia bem, não sabia como lidar com isso. Repetiam-se emoções incontroláveis e mantinham-se muitos dos conflitos internos.

Não são verdades, são só convicções

Quando decidi estudar mais profundamente PNL, Programação NeuroLinguística, comecei a entender o que se passava.

Um termo tornou-se esclarecedor: Convicções (convicções significava até aqui para mim seguir uma religião e ter ou não ter fé.)

Convicções são regras de conduta, opiniões, modelos que inventámos sobre nós, sobre o mundo e sobre os outros. São construções mentais determinadas pelo acaso (que espécie de pais, que locais, época, que país, que acontecimentos ocasionais…) Tudo aquilo em que acreditamos foi por acaso.

As convicções são resultado da imitação dos outros ou são inventadas à nossa maneira com base num ou noutro acontecimento ou noutra convicção de que tiramos conclusões que são novas convicções. São tudo convicções… Não são verdades.

São processos mentais feitos de distorção, omissão e generalização da informação. (Cada um faz isso à sua maneira como resultado da sua história pessoal).

Tudo aquilo em que acreditamos são invenções, mas determinam tudo o que sentimos e fazemos na vida.

Quando se acredita a convicção funciona

As pessoas inconscientemente agarram-se às suas próprias invenções mentais! Matam-se uns aos outros para as defender. Fogem, atacam, paralisam baseados nas próprias convicções que inventaram…

Aquilo em que acreditam passa a ser a única realidade quando afinal tudo são regras que nos impingimos no decorrer da vida – a diferença está em que podem ser ecológicas ou não, limitadoras ou ilimitadas, e isso faz a diferença. Podem ser funcionais, podem não ser funcionais. Mas sempre determinantes.

A PNL tradicional resolve facilmente esta questão das convicções: são funcionais ou não. Se a convicção não é funcional, a questão é substituir convicções limitadoras por convicções ilimitadas… Trata-se de neutralizar intencionalmente convicções que nos possam limitar.

Olhar para convicções desta forma funcional ajudou-me. Tornou-se até uma brincadeira e a desbloquear um pouco a minha vida e alargar novos horizontes.

Neutralizar e transformar convicções limitadoras

Em princípio aprende-se em qualquer curso de PNL a modificar uma convicção que nos não ajude. Há diversas formas.

A mais tradicional consiste em considerar a convicção como uma representação “material” no nosso espaço mental virtual e deslocar adequadamente a sua localização. Esta deslocação pode fazer-se também cinestesicamente utilizando âncoras espaciais.

Pode-se investigar a origem da convicção para determinar a emoção que está na sua origem e através da linha do tempo visual, aprender da situação e neutralizar assim a emoção levando à desacreditação da convicção limitadora.

Pode-se abalar a convicção através das perguntas pertinentes do primeiro modelo da PNL, o chamado Modelo Meta da Linguagem.

Também se pode encarar a convicção como sendo da responsabilidade de uma “parte” de nós e encontrar novas convicções para satisfazer a intenção positiva da convicção antiga.

Ou pura e simplesmente “desconvencer” o eu-jovem da convicção limitadora e prepará-lo para no futuro lidar com as situações problemáticas que evitem a adoção de tais convicções.

Verdade ou, pelo menos um ponto de orientação

Em vez de nos levarmos tanto a sério podemos brincar com as ideias limitadoras a que nos agarrámos. É bom para nós e pode ser útil para muita gente. Assim acalmaram um pouco as minhas preocupações de infância, mas não ficaram resolvidas: Todo o mundo é feito então de regras arbitrárias que as pessoas se imaginaram no decorrer da vida? É tudo imaginação: o que nós achamos dos outros, do mundo, de nós mesmos? Não haverá uma Verdade? Um ponto de orientação? Uma verdade que embora subjetiva dê significado à minha vida sem ser uma verdade inventada pela minha família de origem, pelos meus professores, por qualquer guru seja ele filósofo, político, missionário, religioso? Ou inventada por mim com base nas omissões, generalizações e distorções das minhas vivências? Como evitar qualquer má interpretação com base na minha história pessoal, com base em outras convicções, em memórias obsoletas?

Onde está a Verdade? Como posso saber se estou no bom caminho? Se as minhas regras / convicções estão corretas? – Esta é a mulher para mim? – Este é o trabalho que me dá significado? Este é o meu verdadeiro caminho? Este tipo de relações? Estas coisas que faço?

Foi então que apareceu o Gato em cena

Foi então que apareceu o GATO em cena! Pelo menos, o momento em que tive plena consciência dele.

O gato sempre lá esteve, mas só então compreendi o seu pleno significado. A inteligência somática, o cérebro entérico é o critério da verdade. 10 milhões de neurónios. Temos no nosso estômago e intestinos o número de neurónios equivalente ao cérebro de um gato.

O critério de verdade é o nosso estômago: o gato ronrona ou assanha-se? A maior parte das pessoas com que tenho falado reconhecem isto. O estômago e os intestinos apontam-nos constantemente se estamos no bom caminho. Para além deste, o outro centro que nos revela a verdade é o coração. São 40 mil neurónios. Aperta-se? Contrai-se? Abre-se, abraça-nos e abraça a existência?

Onde posso encontrar a resposta para o meu significado de vida, a minha verdade? Cheguei a uma conclusão: A cabeça pensa, e o estômago e o coração dizem-nos sobre o significado desses pensamentos e do que andamos a fazer da nossa vida.

As três mentes

Temos uma mente cognitiva que compara, analisa, controla, argumenta. Temos uma mente somática, o corpo, onde reside o sentimento, a força vital, a alegria, o amor, a compaixão, a empatia, a alma.

Temos um corpo com a capacidade de nos ensinar: “não vás por aí, é por aqui”. Temos um corpo que nos chama para realizarmos o nosso dom, o nosso “apelo” único no mundo. Este apelo está sempre lá. Podemos aceitá-lo ou recusá-lo.

O “apelo” avisa-nos e aponta-nos o que andamos cá a fazer, o nosso significado de vida.

Quando conectamos a nossa mente cognitiva com a mente somática (a cabeça, o coração e a barriga) não há convicção limitadora ou qualquer regra que nos aprisione e que tome conta de nós. Na PNL da chamada 3ª geração, falamos ainda (para além da inteligência cognitiva e da inteligência somática que é a inteligência do corpo), falamos de uma inteligência relacional (a nossa experiência subjetiva que nos liga à comunidade e ao universo, a sensação de pertencer a algo que vai para além de nós e dá significado ao que fazemos).

Estar congruente na vida começa por unificar as 3 inteligências, os 3 centros dentro de nós, a cabeça, o coração e a barriga.

A unificação das três inteligências

Desde que estas três inteligências se encontrem desalinhadas, e elas encontram-se desalinhadas na maioria de nós, abrimos o caminho para o estado de CRASH (Contraction, Reaction, Analysis, Separation, Hurt). O alinhamento leva-nos ao estado de COACH (Centered, Open, Attending, Connected, Holding).

A barriga liga-nos à terra, às nossas raízes, aos nossos fundamentos. O coração permite-nos a abertura ao mundo. A cabeça permite-nos sair do transe coletivo social correto e estar acordado, alerta, vivo e desperto. O estado de COACH é o estado de conexão, não só dos centros dentro de mim, mas conectados ao campo relacional fora de nós e que se estende pelo universo. Este estado de COACH permite-nos então ser uma espécie de alquimistas que transformam pó em ouro, preparados para acolher, transformar, humanizar, tudo o que possa surgir no nosso caminho, tanto dentro como fora de mim”.

Importante a ter em conta é que não falamos aqui de teoria, falamos de experiências atingíveis com novas ferramentas da PNL que utilizamos explicitamente em alguns dos nossos cursos.

O que podemos ganhar com isto

Este alinhamento destas três inteligências (cognitiva, somática e relacional) por si só é suficiente para nos ajudar na vida a enfrentar situações difíceis, a ultrapassar limites, a nos levar a novas possibilidades criativas e inovadoras.

Com base na experiência, adquiri nos últimos anos uma convicção muito forte à volta desta centragem alinhada. Penso que todos os problemas e todo o teatro da humanidade são o resultado de um desalinhamento: temos cabeça e não temos coração ou somos um coração sem cabeça, ou uma cabeça sem estômago ou um estômago sem cabeça e sem coração. A maioria das mentes na nossa sociedade ocidental são mentes “desencarnadas”.

Só com o alinhamento das 3 inteligências podemos, cada um de nós, chegar à “verdade”. Eu acredito que, como estamos a fazer na PNL atualmente, ao alinharmos os nossos três centros, deixamos para trás os limites da nossa história e das nossas crenças limitadoras e abrimo-nos à empatia planetária trabalhando juntos para um mundo melhor de que as gerações futuras se orgulharão de nós.

O vendedor da Loja da Verdade preveniu-nos para o que podíamos perder, não nos mostrou o que individualmente e a comunidade poderia ganhar se deitássemos fora muitas das mentiras sociais corretas e convicções que em nada nos ajudam e abraçássemos a “verdade”: que somos seres totais, cabeça e corpo e relação universal; somos em essência O.K. e o nosso caminho é crescer em humanidade criando um mundo justo digno de ser vivido por todos os seres na terra.

É fazer com que o nosso gato, no nosso estômago, só tenha razões para ronronar de prazer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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