José Figueira

Uma empresa, qualquer organização, um país, mas também uma família, todos necessitam de ter bons líderes.
No meu entender é impossível liderar sem os elementos básicos de liderança: ter uma visão sobre um futuro mundo de que as habitantes se orgulhem de pertencer; realizar a sua missão influenciando-se e influenciando os outros na direção de um objetivo ecológico e atraente que contribua para o bem comum; encorajar o funcionamento cooperativo, inspirador e inovador de equipas; e, finalmente, ser um exemplo para aquilo que se apregoa e estar empenhado num processo de auto conhecimento e auto desenvolvimento contínuo.
Numa sociedade cada vez mais rápida e em transformação constante e muitas vezes caótica e injusta, qualquer um de nós tem também uma necessidade crescente de auto liderança pessoal para poder dar os passos adequados na boa direção para realizar o propósito da sua vida.

A metáfora do ganso

Para definir o trabalho do líder já tenho encontrado diversas vezes, na literatura profissional à volta do assunto, a metáfora do ganso.
É uma metáfora excelente para definir também os perigos do seguimento cego da autoridade. Para este caso introdutório serve:

O ganso caminha à frente da sua ninhada. É o primeiro do grupo e como primeiro que é, corre mais riscos. Os outros seguem-no inspirados.
Possui três características essenciais:
– Tem uma visão, ele avança como uma flecha para o seu objetivo;
– Influencia, é o primeiro e é determinante para a direção do resto do grupo;
– Serve de exemplo definindo o ritmo da marcha.

Escusado será falar aqui do seu grau de responsabilidade social, quer dizer, a sua responsabilidade em relação ao futuro do mundo dos novos gansos.

Serviço ao cliente

Uma metáfora que me impressionou muito tem a ver com o conceito “serviço”, familiar ao conceito de liderança.
Uma jovem trabalhava numa loja de roupas onde certo dia entrou uma senhora bastante obesa.
– Não temos nada que lhe sirva, pensou imediatamente.
A senhora aproximou-se da jovem. Trazia um ar entristecido e desiludido, não sabemos se pela dificuldade em encontrar roupa que lhe servisse, se pelo seu aspeto físico.
– Não têm nada para mim, é pena!
A jovem, que até aquele momento não sabia o que fazer, abriu os braços de uma ponta à outra e respondeu-lhe sorrindo:
– Quem disse que não temos? É claro que temos! Olhe o tamanho deste abraço!
E, num impulso, abraçou a senhora com carinho.
As outras pessoas na loja pararam observando o insólito daquela cena.
A senhora surpreendida entregou-se àquele abraço acolhedor e uma lágrima deslizou-lhe pelo rosto.
– Há quanto tempo ninguém me dava um abraço assim… Não encontrei o que queria, mas recebi o que precisava. Muito obrigada!

Os princípios de “O Líder Servidor

Robert K. Greenleaf (1904 –1990) foi o fundador do Greenleaf Center for Servant Leadership. Foi quem, no século passado, deu forma a antigas teorias do líder como servidor.
O Líder Servidor, segundo Greenleaf, desenvolve a capacidade de sonhar grandes sonhos, cultiva sem descanso a mente intuitiva para pensar a construção do futuro, mobiliza de forma confiante para a realização do bem da sociedade, assume um compromisso inalienável com o crescimento pessoal, profissional e espiritual de cada pessoa na organização, acredita no valor superlativo das pessoas, é um empreendedor social.
O líder distingue-se pela sua qualidade comunicacional, escuta intensamente o outro e esforça-se continuamente por ouvir a sua voz interior procurando sempre aceitar e reconhecer o que há de específico e único no outro. Tem o grande potencial de curar-se a si e ao outro na procura da integridade e do todo, o que é um força enorme de transformação e de integração.
Não tem sossego na sua busca interior que leva à auto consciência das fraquezas e das suas fragilidades pessoais. A consciência da sua “pequenez” torna-o ainda mais atento ao outro. Não exerce autoridade. Ele sobretudo persuade e inspira.

Quem é C. Otto Scharmer?

No campo das teorias da liderança joga neste momento no mundo um papel importante e visionário a figura de C. Otto Scharmer. É autor do livro “Leading from the Emerging Future; From Ego-System to Eco-System Economies”.
Segundo Otto Scharmer, criador da já mundialmente famosa teoria de liderança U (pelo que sei desconhecida ainda em Portugal) vivemos em um tempo de fracasso institucional generalizado. Criamos coletivamente resultados que nenhum de nós deseja. As tentativas de lidar com os desafios do nosso tempo fracassam frequentemente.
Otto Scharmer acredita que a causa deste nosso fracasso coletivo reside no fato de sermos cegos para dimensões mais profundas de liderança e mudança transformacional. Temos um “ponto cego” que existe não somente em nossa liderança coletiva mas também em nossas interações sociais diárias.
Segundo ele, estamos tão voltados para o que se pode ver no exterior que somos cegos para a dimensão que é a fonte a partir da qual a liderança eficaz e a ação social se originam. É neste “ponto cego” que reside a fonte suprema de toda a grande liderança. Este ponto tem a ver com auto consciência e auto conhecimento.

O falhanço da liderança atual

Todo o arsenal de conhecimentos à volta de liderança são baseados no conhecimento do passado e o passado não está em estado de fazer frente às necessidades do presente. Einstein é muito citado, tanto aqui nestas questões de liderança como em PNL quando se fala de temas à volta de aprendizagem e transformação:
– Não podemos resolver um problema com as mesmas ferramentas que o causaram.
Segundo a teoria U, a primeira condição para uma liderança efetiva é a decisão de parar o “download”, quer dizer, parar de fazer o download de padrões rotineiros de pensamento e ação, libertar-se do conjunto completo de teorias de aprendizagem e metodologias, todas baseadas no mesmo modelo subjacente: aprender a partir das experiências do passado.
A alternativa é conectar-se a uma fonte mais profunda de aprendizagem dentro de si com um sentido de uma possibilidade futura que inspira a pensar e agir de novas maneiras ou, citando o autor da nova teoria:
– “O que os líderes necessitam é um conjunto de ferramentas que os auxilie a aprender do futuro à medida que este emerge no agora”.

Presenciar o futuro que emerge

Basicamente o processo U consiste em três grandes movimentos:
1. Descer o U (parar o dowloading, desacelerar, observar, observar de novo e, mais uma vez, observar);
2. Conectar-se com a fonte (aquietar-se) e
3. Subir o outro lado do U (esclarecendo a intenção, “prototipando”, quer dizer, desenhando e desempenhando o novo).
Exige uma mente aberta, um coração aberto e uma vontade aberta. Como Otto Scharmer define:
– “Soltar o antigo e deixar vir, receber o seu próprio Eu futuro que emerge” e que resulta numa conexão subtil com uma possibilidade futura que deseja emergir.
O segredo reside no conceito “presença”.
Presenciar” significa conectar-se à fonte de inspiração interior para deixar emergir o conhecimento interior, o que possivelmente é o maior desafio nestes tempos que vivemos no planeta: exige libertar-se de tudo o que não é essencial à volta do “eu pessoal” e criar um estado de silêncio para assim poder escutar, no fundo de nós mesmos, o futuro potencial.
Tudo o que possa surgir a partir daí não tem em geral nada de semelhante com o que já foi. O líder torna-se então o veículo de um futuro que sente querer tornar-se real, tal como grandes compositores muitas vezes diziam que eles puramente eram um veículo pelo qual a Música tomava forma.

As fases do modelo U de transformação

  1. Parar o “downloading”, desacelerar e escutar. Em PNL diríamos: despir-se de filtros (entrar num estado de uptime). Sem isso repete-se e confirma-se o que se já sabe. Exige níveis refinados de Escuta Generativa, quer dizer estar aqui, estar em estado de se conectar com o “campo emergente de possibilidade futura”. Exige também que se modifique a qualidade da atenção individual e coletiva das pessoas para que nos possamos verdadeiramente comunicar uns com os outros – percorrer um processo que leva da comunicação defensiva e reativa para a dialógica e de colaboração generativa. (Num próximo artigo concentrar-me-ei na “colaboração generativa”, a única forma de trabalho de equipa que pode levar a respostas adequadas aos problemas organizacionais no mundo atual, tanto a nível micro como macro).
    2. O grande fator limitador em liderança tradicional é a incapacidade de “sentir”. Sentir é tornar-se consciente do potencial coletivo, o que em PNL de terceira geração designamos como tornar-se consciente do “campo”, entrar na quarta posição percetiva designado como a sensibilidade para ver, ouvir, perceber e, sobretudo, sentir o “nós”. É observar mais profundamente, com mais precisão e coletivamente, uma maneira mais desenvolvida de enxergar as coisas. Exige desacelerar para poder observar. Empregando aqui uma citação de Goethe no seguimento do discurso de Otto Scharmer:
    – “Todo objeto bem contemplado abre dentro de nós um novo órgão de perceção”.
    3. “Aquietar-se” significa aqui conectar-se com a fonte do conhecimento interior e permitir que ele emerja, o que é a raiz de toda a liderança. Trata-se do poder de conectar-se com uma fonte mais profunda de potencial e possibilidades pessoais. Este sentido mais profundo de propósito conecta-nos com a essência do que realmente somos – ou mais precisamente em quem nos estamos tornando à medida que evoluímos como seres humanos, individual e coletivamente.

A vantagem da PNL é que nos oferece as ferramentas para realizar este propósito. Em PNL chamamos-lhe técnicas modernas de “centragem” e fazem parte essencial do nosso programa exclusivo de três dias à volta da exploração da “Comunicação Carismática”.

Um crescente número de líderes atuais, segundo Otto Scharmer, quer contribuir de forma ativa para uma mudança positiva no mundo e anseiam genuinamente por um ambiente no qual a reflexão pessoal profunda, quietude, paz interior, contemplação e conexão com sua fonte interior de conhecimento sejam possíveis.
Já Margaret Mead dizia: “Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos sérios e comprometidos pode mudar o mundo. Seguramente, é a única coisa que sempre o fez’”. A conexão de um líder ou de uma equipa com a sua “visão e intenção” é o fundamento da motivação, da criatividade e da transformação. Só assim se podem assumir compromissos e só assim se abrem perspetivas para um novo mundo.
4. Liderança poderia e deve ser um sinónimo de inovação. Os líderes receberam para isso, segundo o autor do modelo U, uma formação universitária não adequada.
Quando se trata de inovação, todos nós recebemos a educação errada, segundo Otto Scharmer. Em todo o nosso processo educacional e de treinamento, faltava uma habilidade importante: a arte e prática de fazer protótipos. O design e a construção em liderança é, no método convencional, altamente frustrado pela análise. Prototipar exige que nos esvaziemos do tradicional que nos conduziu ao estado crítico e desesperado em que o mundo se encontra, para encontrar soluções criativas para as necessidades reais do novo mundo emergente.

A teoria U e a PNL

Parece-me fora de dúvida que muito do que tem sido desenvolvido por Robert Dilts, uma das figuras que mais tem contribuído para o desenvolvimento da PNL e que tem trabalhado de forma inovadora com grandes empresas mundiais à volta do tema da liderança, tem sido inspirado pela teoria U. Estamos aqui também, no meu entender, muito próximos da engenharia imaginativa tal como foi modelada de Walt Disney na conhecida “estratégia da criatividade”: A adaptação e o ajustamento de um projeto inovador segue-se à fase criativa e não a um processo de análise exaustiva que destruiria à nascença todo o processo criativo. Para além disso é de salientar a deslocação da atenção em liderança para o processo interno do líder, para o papel que é dado em PNL ao “inconsciente” para trabalhar as inúmeras variáveis no processo sistémico tendo como elementos impulsionadores os níveis neurológicos que são a “missão” e a “visão” – tudo isso é familiar para os conhecedores da Programação NeuroLinguística: a qualidade do “estado interior” é a grande imprescindível em coaching, liderança, negócios, desporto, ensino ou qualquer outra atividade.
Existe uma ótima citação em um dos livros de Robert Dilts sobre liderança onde um CEO de uma empresa diz: “A coisa mais importante para mim é a qualidade do meu estado quando eu vou fazer uma reunião de negócios, esse é o fator mais importante. Sim, claro, eu faço o meu dever de casa, eu sei o que está acontecendo na empresa, mas se eu estiver num estado ruim e entrar em uma reunião, não importa a preparação feita”.
Liderar é algo que flui desde que se esteja em contacto connosco, nos encontremos no estado emocional adequado, em harmonia connosco, com a nossa missão no mundo, realizando os objetivos que se enquadram com a nossa visão de uma sociedade melhor. Então não há necessidade de pensar muito e novas ideias surgirão que irão “inflamar” os colaboradores.

A espiral dinâmica

Alguns podem perguntar-se como é possível para um líder orientar-se no meio desta miscelânea de “mundos” e de “visões e expectativas” que são caraterísticas do nosso planeta e das organizações com as suas múltiplas dimensões e mapas mentais? Este tema foi pela primeira vez abordado por Clare W. Graves, nos anos 60, tendo sido posteriormente desenvolvido por Don Edward Beck e Christopher C. Cowan e adotado por Ken Wilber como base da sua “Theory of Everything”.
Beck e Cowan desenvolveram o já conhecido conceito de vMEME e definiram-no como um princípio organizador da existência humana que atua nas nossas mentes através de crenças, estilos de vida, tendências de linguagem, normas culturais, formas de arte, expressões religiosas, modelos económicos, etc. Os vMEME codificam instruções para as nossas perspetivas do mundo e fundamentam as decisões que tomamos. Atuam a três níveis distintos: individual, nas organizações determinando o nosso sucesso ou o nosso fracasso no mercado competitivo e nas sociedades locais ou nacionais.
Este modelo, representado como movimento em espiral, mostra-nos um processo de evolução do indivíduo, das organizações, das nações e da comunidade planetária e, tem sido comprovado na sua eficiência tanto individualmente como em empresas e países (como foi o caso na sua aplicação durante a transição social e política na África do Sul).

O processo geral da evolução humana

Conforme a predominância dos vários vMEMES, são nove os níveis de evolução humana propostos por Ken Wilber com base no modelo inicial de Graves. A consciência do grau de evolução em que se encontra um individuo, organização ou país, permite ao líder fazer a consultoria e o coaching da passagem para o próximo nível de desenvolvimento.
No nível 1 prevalece o instinto de sobrevivência onde a prioridade é dada aos alimentos, ao calor, ao sexo e à segurança. É uma situação observável em todos os bebés recém-nascidos, nos sem-abrigo, nas massas de população faminta e observável ainda em regiões inóspitas.
No nível 2 predomina o pensamento animista. Ainda vivem neste estádio, segundo Wilber, cerca de 10% da população mundial e pode ser encontrado nos gangs, nas “tribos” corporativas, nas populações devotadas a rituais mágicos, pactos de sangue, crenças e superstições étnicas de caráter mágico.
O nível 3 é representativo da mentalidade feudal. Ainda hoje se encontram neste nível cerca de 20% da população adulta mundial e 5% do poder está nas suas mãos. Exemplos são os reinos feudais da Ásia muçulmana, líderes de gangs, juventude rebelde, crianças entre os 2 e os 3 anos de idade e as mentalidades de fronteira que lutam sobretudo pela posse de territórios.
O nível 4 caracteriza-se pela mentalidade conservadora e corporativa e que abrange 40% da população adulta mundial e detêm 30% do poder. São exemplos, sempre segundo Wilber, a América puritana, a antiga China confucionista, o judaísmo hassídico, o fundamentalismo religioso cristão e islâmico, grupos como o Exército da Salvação, os escoteiros tradicionais e ideias como o patriotismo, organizações corporativas, ordens como a Malta e a Maçonaria, etc).
O nível 5 abrange a mentalidade racional materialista. Encontra-se em 30% da população que detêm 50% do poder atual no mundo. É constituído por indivíduos e sociedades altamente orientadas para os resultados: Wall Street, classes médias emergentes no mundo ocidentalizado, colonialismo, indústria da moda, etc.
O nível 6 de desenvolvimento é ecológico e comunitário. Neste nível vivem cerca de 10% da população que detêm 15% do poder. São pessoas e organizações, empresariais ou não, sensíveis ao equilíbrio ecológico. Manifestam-se contra as hierarquias estabelecidas. As pessoas que estão neste estádio são fortemente pluralistas, defendem o multiculturalismo e a igualdade. Encontram-se nos movimentos ecologistas, nos representantes do idealismo holandês, nas organizações não-governamentais tais como os Médicos Sem Fronteiras, nos partidos “verdes” da Europa, etc.
O nível 7 na espiral do desenvolvimento das pessoas, da humanidade e das organizações é chamado o escalão de desenvolvimento “integrador”. Um por cento da população mundial vive neste estado com 5% de poder. Defendem um mundo sem fronteiras, igualitário, transcendente e solidário. A flexibilidade, a espontaneidade e a funcionalidade têm prioridade máxima. Exemplos disso são, segundo Wilber, a Teoria do Caos, a “nova física” de Fred Allan Wolf e os ensinamentos de Deepak Chopra.
O nível 8 é o holístico caracterizado por uma visão global, sistémica, a nível planetário. Apenas 0,1% da população está já neste estádio e detêm 1% do poder. A sua crença principal é que o mundo é um único organismo dinâmico, com a sua própria mente coletiva. Alguns exemplos são o conceito de “aldeia global” de McLuhan, as ideias de Gandhi de harmonia pluralista, os ensinamentos do próprio filósofo Ken Wilber, a “hipótese Gaia” de James Lavelock e a “noosfera” de Pierre Teilhard de Chardin. Considerado por muitos como sendo o mais brilhante filósofo da atualidade, o próprio Ken Wilber, enquadra-se a este nível do desenvolvimento humano. Os seus ensinamentos são um exemplo do nível 8 e defende um próximo estádio de evolução, o 9º estádio que caracteriza a evolução planetária.
O nível 9 de evolução é integral e holónico (o holon combina harmonicamente o todo e a parte). Estará lentamente a emergir em alguns (poucos) núcleos segundo Wilber em “A Theory of Everything”. Ele defende novas organizações e uma nova humanidade que altere radicalmente velhos paradigmas e conflitos despertando nos indivíduos o aproveitamento integral das potencialidades humanas. O núcleo central deste “movimento para cima” situa-se no “Instituto Integral nos Estados Unidos” fundado pelo próprio Ken Wilber e tem atraído personalidades e investigadores de distintas disciplinas tais como David Chalmers, Howard Gardner (teorizador das Inteligências Múltiplas), John Searle (conhecido estudioso do fenómeno da consciência), o físico Ervin Lasszlo, Francisco Varela (entretanto falecido), Larry Dossey, etc.

A contribuição da PNL no mundo atual

A grande vantagem da PNL em relação a muitas teorias no mercado, hoje universalmente generalizado e grandemente influenciado pelo neoliberalismo (o neoliberalismo é aqui entendido como modelo americano de uma doutrina económica que defende a absoluta liberdade do mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia tal como se tem manifestado nos últimos anos na Europa e especificamente em Portugal sob o poder da Troika), a grande vantagem da PNL, como dizia, é o seu pragmatismo, funcionalidade e consciência sistémica.
Fala-se nesta fase da evolução planetária em primores humanistas como serviço, escuta generativa, presença, inovação e criatividade, aceder à consciência profunda do futuro emergente, cerne, aqui e agora, etc.. E a pergunta premente que atravessa a epistemologia, metodologia e a tecnologia da PNL foi e continua a ser sempre a mesma: – Como se faz?
Se nos primeiros tempos do seu desenvolvimento a PNL se concentrou nas competências à volta da influência direta no comportamento do outro que tem levado a muitas críticas sobre o seu caráter manipulativo, hoje em dia e nas sessões que oferecemos, o aspeto ecológico e a contribuição para um mundo de que as gerações futuras se orgulhem de viver é uma das nossas preocupações básicas. Ocupamo-nos essencialmente em reencontrar o contacto connosco e, agindo a partir do nosso “centro”, desprovidos o mais possível de filtros à volta do socialmente aceitável e correto, encontrar a criatividade emergente que possa contribuir a nível micro, meso e macro, como orientação para as nossa ações audazes, inovadoras, harmoniosas e construtivas, tanto na família como no trabalho e na comunidade de forma que todos possam usufruir da realização plena dos seus talentos e significados de vida.

Liderança começa por auto liderança

Sem auto liderança não há liderança verdadeira. Sem auto liderança somos marionetes: serão outros que lideram através de nós. E nalguns casos poderá ser isso mesmo a tradução exata do que se diz como “vender a alma ao diabo”.
Auto liderança é, em primeiro lugar, no meu entender, o contrário da destabilização pelo mundo exterior – o contrário a deixar-se levar por rumores externos, julgamentos, pressões. Auto liderança é escutar a voz interior por detrás da internalização dos valores e crenças socialmente corretos que nos foram socialmente impostos e integrámos no nosso processo de socialização e que correspondem à crise e injustiça da sociedade mundial atual.
Só quando atingirmos o nível adulto de crescimento em que atuemos a partir do que sentimos subjetivamente como a nossa “alma” (centro, conexão à comunidade e ao cosmos, verdade, eu superior, ou que nome lhe queiram dar, e o que é o contrário à auto ambição do ego) com coragem e apesar dos nossos medos, e estivermos em estado de assumir a vulnerabilidade a que estamos expostos quando somos verdadeiros, sem medos e seguindo o nosso próprio caminho humanizado e socialmente universalizado e desejável, só então poderemos manifestar a nossa Luz como líderes, tal como pronunciou Nelson Mandela no seu discurso inaugural citando Marianne Williamson.

A diferença entre gestão e liderança

Os níveis neurológicos de comunicação em PNL dão-nos uma compreensão e orientação precisa para o trabalho à volta da gestão e liderança em empresas.
Uma empresa que seja totalmente destituída de visão comunitária e planetária é egocêntrica. Ajoelhada, ela contempla o seu próprio umbigo. Está concentrada no seu próprio benefício e ambição e o seu único foco é o controlo. Não tem como objetivo o direcionamento a clientes mas sim a satisfação dos seus acionistas. Está virada sobre si mesma e ao papel a jogar neste quadro (identidade), voltada para o que é ou não permitido (arreigada a valores e crenças), movida por estratégias intelectuais (capacidades), Reage de forma automatizada (comportamento) e vê o mundo como ameaças e perigos (meio ambiente). É uma empresa em estado de Crash com todas as condições para criar stress nos seus colaboradores e que, no seu anseio de repetir estratégias bem-sucedidas no passado, não está em estado de enfrentar os desafios do futuro. É uma empresa dominada por managers burocráticos incapaz de responder à constante transformação generativa da situação planetária. Inevitavelmente está destinada ao fracasso embora possa, durante ainda alguns tempos, encher os bolsos dos acionistas.
Por outro lado, a empresa que está conectada a um sistema comunitário e planetário sente-se como prestando um serviço à humanidade, contribuindo para um mundo melhor. É uma empresa que consideramos, em termos de PNL de 3ª geração, uma empresa “acordada” e ao serviço dos seus clientes. Possui uma visão (espiritualidade), tem uma missão (identidade), tem altos motivos (valores e crenças), age com energia e inteligência emocional (capacidades). É proativa (comportamento) e vê o mundo à sua volta como um campo de oportunidades (mundo exterior). Nestas empresas há necessidade de uma liderança carismática, quer dizer, “generativa”, visionária e empreendedora.

A viagem do herói

O verdadeiro líder está empenhado em dar sentido ao que faz e a realizar um significado ainda maior que se enquadre num propósito comunitário de que todos, sem exceção, possam usufruir. É esse o significado do mito arquétipo chamado “A Viagem do Herói” descrito através de todas as culturas e que nós utilizamos em alguns dos nossos programas à volta da comunicação generativa, humana, motivacional e inovadora.
O ponto de partida é a nossa “aldeia” interior, a zona de conforto. Todos nós, mais tarde ou mais cedo, sentimos um apelo interior que nos interroga sobre o valor do que andamos a fazer na vida e nos chama para novas aventuras, o que significa o confronto com o desconhecido: – Sair das teias de aranha da nossa aldeia mental.

Podemos aceitar ou, na maioria dos casos, recusar o apelo, o que nos condena a vivermos o resto da vida, apesar de todas as compensações que a sociedade de consumo possa oferecer, a viver, como dizia, acompanhados por uma sensação de vazio e mentira.

Se escutarmos o apelo e o seguirmos, engajamo-nos num processo de inovação o que significa um trajeto desconhecido e nada fácil, povoado de medos, dúvidas, situações desconfortáveis, mas ao mesmo tempo sentindo-nos mais verdadeiros e embrenhados numa aventura de possibilidades infinitas.
É este trajeto que fundamenta todos os cursos de PNL que dou e que, no meu entender, nos levará a descobrir e realizar o nosso papel de líderes no mundo e marcará a diferença para as gerações futuras. Então, possivelmente, deixaremos atrás filhos, netos e bisnetos, que se orgulharão de nós e continuarão o trajeto de edificação em que todos os habitantes da terra, de mãos dadas, possam edificar um monumento universal em que todos, mas todos sem exceção, poderão sentir dentro de si a melodia cósmica da paz e da plenitude interior.
É que, penso eu, só há dois caminhos tanto individualmente, como para as empresas e outras organizações, como para o país ou comunidade global:
– Ou “crasch”, ou “plenitude”.

As características do novo líder

A liderança, no fundo, resume-se a 4 competências básicas muito simples e que, precisamente devido à dificuldade da sua simplicidade, se desenvolveram diversos cursos universitários brilhantes que resultam em obscurecer precisamente aquilo de que se trata.
1. Realizar a sua missão que é a expressão da sua visão sobre a comunidade global;
2. Inspirar os outros para realizar, dentro desse quadro e adaptado às condições particulares da organização, resultados de excelência;
3. Encorajar e criar uma equipa altamente cooperativa e capaz de gerir inovação:
4. Ela própria, a liderança, ser um exemplo, tal como Ghandi dizia: devemos ser o exemplo daquilo que queremos ver realizado no mundo.
Ter uma visão não significa conhecer o detalhe, mas sim mergulhar dentro de si e conhecer intuitivamente a direção tal como Steve Job ou Walt Dysney não conheciam o resultado em pormenor. É mais uma intuição experimentada dentro do nosso ser profundo, liberta de teorias passadas e obsoletas. A visão do futuro, apoiada pela motivação de contribuição a um novo mundo a que todos se orgulhem de pertencer, deve ser vista, sentida e compreendida no sentido de uma metáfora que ativa a dimensão emocional e gera uma energia capaz de transformar as forças mais conservadoras.
É esta visão que me parece que o líder terá de partilhar e estar em estado de saber engajar os colaboradores à sua volta para o acompanharem na missão de realização, fazendo despertar neles a energia, a inspiração e a motivação para a realização do futuro da organização ou do país e com um pleno sentido de responsabilidade ecológica pois esta energia tem sido grandemente explorada por figuras com egos descomunais que sacrificaram milhares de vidas para satisfazer as suas ambições “egóicas”, empregando aqui um conceito utilizado por Eckhart Tolle.
O líder agrega a equipa, unifica-a e inspira-a tendo para isso de dominar competências comunicacionais que facilitem a cooperação generativa, uma cooperação capaz de criatividade, inovação e realização do inédito. Ele está consciente e atento ao facto que um mais um não são dois mas que, em cooperação generativa, um mais um são três tal como a água é mais que a combinação de oxigénio e hidrogénio.
No fundo, o mais importante, nem sequer são as competências. O importante não é o que se “tem” à nossa disposição e que todos podem adquirir no mercado. O importante é o estado de “Ser”. Não é importante o “Ter” conhecimento e as habilidades daquilo que se já sabe (que é geralmente manifesto em diplomas e certificados como expressão do velho e dogmático e que corresponde a 20 valores nas universidades caracterizada pela velhice e pelo seu desespero e necessidade de sobrevivência). Isso é geralmente o desatualizado e que vemos à nossa volta e que contribuiu para o estado paralisado, caótico e desumanizado do mundo que vivemos e é visivelmente personificado por muitos líderes à frente da maioria das empresas e pela maioria dos nossos governantes. O importante é encontrar a ligação com o que se experimenta subjetivamente como sendo verdadeiramente nós, o nosso coração, a nossa intuição. Um grande inspirador em PNL foi Milton Erickson que, em todas as suas terapias, ajudava os seus clientes a libertarem-se do espírito cognitivo lógico que criou toda a espécie de problemas, para se relacionarem com o seu inconsciente criativo e verdadeiro a fim de realizarem um novo futuro de possibilidades infinitas em que se pudessem sentir verdadeiramente eles mesmos.

Resumindo e como Dilts formula e repete nos seus cursos:
– Um verdadeiro líder deve aprender primeiramente a gerir o seu estado interno para aceder aos seus recursos mais criativos, inovadores e relevantes para a comunidade. Para isso necessita primordialmente de grande coragem pois isso vai exigir um estado de “não saber mais nada” do que aprendeu e conectar-se a algo que vai para além do seu ego e dos seus próprios medos.
O maior medo e o mais profundo de todos os medos é o medo de sermos verdadeiros. Ser verdadeiro é mostrar a nossa “Luz”, a nossa potencialidade, o nosso dom único, o significado pelo qual estamos no mundo. Muitos têm pago com a própria vida pela coragem que tiveram em ser verdadeiros.
A PNL ensinou-me originalmente que não existe Verdade mas que só existem unicamente interpretações do mundo que, por sua vez, determinam subjetivamente o que para um é a Verdade. É uma crença útil para nos apoiar numa comunicação funcional e relativizarmos as nossas teias de aranha mentais.
Mas o que me faz estar aqui e entregar-me por 100º nas minhas formações é a sensação profunda que tenho em mim do que é, para mim, a Verdade. E somente espero que a Verdade de cada um esteja ao serviço da humanidade sem descriminação de alguém, seja cultura ou raça em particular.

E só me resta um voto:
Seja um verdadeiro líder!

Bem hajam na contribuição para a construção de um mundo a que os nossos netos, bisnetos… se orgulhem de pertencer!

José Figueira, Abril de 2014

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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