José Figueira

A Programação NeuroLinguística, uma disciplina ocupada com comunicação, gira à volta do auto conhecimento e, sobretudo, caracteriza-se pelo emprego de ferramentas direcionadas a soluções. Por isso não é de estranhar que qualquer ação tenha como base a formulação de objetivos, o chamado “estado desejado”.

Não se dá, às vezes, atenção suficiente à qualidade dos objetivos. No decorrer do seu desenvolvimento, a PNL voltou-se mais para as crenças e valores dando-se assim maior atenção a aspetos ecológicos, ao bem-estar da pessoa como sistema e à sua relação com um sistema mais abrangente. Mas é só na terceira geração, segundo a própria denominação de Dilts, que nos concentramos plenamente nos aspetos da identidade e na relação com o “campo” que nos ultrapassa e do qual  fazemos parte. A qualidade de um objetivo pode assim ser medida na vivência subjetiva da conexão do indivíduo (ou da organização) com um nível de informação superior que orienta e dá sentido à vida.

Dois tipos de objetivos
Esta ótica leva-me a construir um modelo para distinguir duas espécies de objetivos: objetivos carismáticos e objetivos socialmente corretos.
– “Objetivos carismáticos” seriam aqueles que manifestam um “dom”, uma graça, eletrizam, possuem um magnetismo especial. Sentimos neles integridade, verdade, algo pleno de significado. Motivam, entusiasmam, estão conectados a algo superior e contribuem para um mundo melhor de que todos poderão usufruir.
– “Objetivos socialmente corretos” são direcionados à sobrevivência numa sociedade competitiva em que o interesse pessoal é, na maioria das vezes, realizado à custa de outros. Sentimo-los geralmente como não estando ao serviço da nossa realização pessoal, o que não impede de serem, muitas vezes, objetivos “certinhos”, formulados dentro do quadro da PNL em termos SMART (específicos, mensuráveis, atingíveis, realistas, temporizados…)

O Café dos Porquês
John, o personagem da metáfora “O Café dos Porquês”, de John Strelecky, é um americano de sucesso. Trabalha 12 horas por dia e está prestes a ser promovido, o que significa que passará a trabalhar 15 horas e a ter cada vez menos tempo para si. Necessitando de ar puro e sossego tomou uns dias de férias e, depois de se ter metido por uma estrada secundária, viu-se numa encruzilhada igual àquela em que se encontrava na vida, sem saber a direção. Completamente perdido avistou inesperadamente uma luz ao longe, era um café no meio do nada. Mais espantado ficou quando descobriu bastante gente no café em grupos e conversa animada. De onde vem esta gente num sítio em que era impossível imaginar vivalma? Mas a grande surpresa ainda estava para vir. Ao desfolhar a ementa deparou com um texto:
Enquanto espera pense nestas perguntas:
– Porque está aqui?
– Tem receio da morte?
– Sente-se realizado?

O que vai expor no seu museu?
Se depois de morrer fosse incumbido com uma tarefa para a eternidade, ser guia do seu próprio museu, um museu onde ficarão eternamente expostas as suas obras na terra, o que mostraria com orgulho?
E ainda aquela conhecida história de Jorge Buckay? Do senhor que ocasionalmente desemboca numa vila do interior e passa por um cemitério cuidadosamente arranjado, e no imenso espaço verde, há lápides e mais lápides… e qual o seu espanto quando se põe a averiguar o texto de cada lápide em que se lia por baixo do nome da pessoa falecida:
– Um mês, duas horas, três dias, duas semanas, um ano…

O que andamos cá a fazer?
Não é raro encontrar pessoas que têm, ao cair da tarde, a experiência de objetivos realizados com mais ou menos sucesso depois de muito esforço e desgaste, sem energia para usufruir o resto do dia ou mesmo o resto da sua vida. E muitas que, mais tarde ou mais cedo, observando o caminho percorrido, perguntam a si mesmas o que andaram cá a fazer.
Para evitar desilusões e desperdícios, a nossa grande pergunta poderia ser então:
– Como viver uma vida significativa, de forma mais fácil encontrar o nosso caminho de modo a que possamos sentir que valeu mesmo a pena, que fizemos o que pensamos que deveríamos ter feito? Como podemos chegar ao fim com um sentimento de realização, experimentando uma sensação de serenidade e contentamento?
A pergunta chave é, se calhar, mesmo esta:
– Quem sou eu verdadeiramente? Qual é o sentido da minha vida? O que ando cá a fazer?

Consciência da experiência subjetiva
Trabalhamos em PNL com dois modelos básicos que pretendem abrir maiores possibilidades ao conhecimento da nossa subjetividade. Um é o conhecido Modelo de Comunicação que nos fornece um mapa de nós. Mostra-nos como criamos a nossa resposta ao mundo como resultado da interpretação baseada na nossa história que é, ela mesma, uma interpretação pessoal de tudo o que encontrámos no nosso caminho pela vida. Poderíamos dizer que o Modelo de Comunicação da PNL nos ajuda a compreender as nossas “máscaras” de sobrevivência, os nossos “filtros” como são formulados oficialmente no modelo. Se há, no meu entender, algo de genial neste modelo, é isto:
– O que podemos ir conhecendo do mundo e de nós são as nossas próprias criações! É imaginação.
Uma limitação enorme seria então associarmo-nos ao que pensamos e sentimos sobre nós. “O mapa não é o território”, é o pressuposto talvez mais essencial da PNL. O que percebemos do mundo é apenas um mapa sempre falsificado, mas também qualquer ideia que tenhamos sobre nós é uma falsificação.
A questão é que este conhecimento, se é um grande passo no caminho de uma maior auto consciência de nós, ainda não nos ajuda em nada no que diz respeito a encontrar os objetivos carismáticos que possam dar sentido profundo à nossa vida.

Comportamento e significado
Por outro lado, os Níveis Neurológicos de comunicação, este segundo modelo, trazido para a PNL por Dilts, inspirado no trabalho de Bateson, oferece-nos a possibilidade de encontrar a ligação entre a ação e o significado.
Este modelo expressa essencialmente as leis sistémicas. Os diversos componentes de um sistema influenciam-se uns aos outros, têm objetivos particulares e há um objetivo geral, e um sistema integra-se num sistema maior. Neste caso é importante a premissa de que, num sistema, um nível de informação superior orienta e organiza um nível inferior enquanto um nível inferior é o suporte do nível superior.
Concretamente:
– “o quê?”, definido no modelo como “comportamento” (que se move dentro de um sistema contextual entre ameaças e oportunidades) só pode ser exercido desde que haja um “como?”, quer dizer, “competências”. Em linguagem simples: para fazer seja o que for é preciso saber como o fazer.
– O “quê?” e o “como?” são determinados pelo “porquê?”. Este “porquê?”, em termos de PNL, refere-se às “convicções” e aos “valores”. São princípios organizadores da nossa vida que sustentam a nossa sensação de “identidade”, o “quem?”.
– E agora chegamos, neste contexto dos objetivos, ao mais importante dos níveis: o significado de um sistema, neste caso o ser humano ou uma organização, encontra-se integrado e faz parte de um nível maior que o ultrapassa e lhe dá sentido, é o “para quê?”, “com que fim?”. Este é o nível lógico mais abrangente que enquadra qualquer sistema num sistema maior e é conhecido em PNL como “espiritualidade”.

Conexão e sentido de serviço
Sem a conexão com este sistema maior, o indivíduo ou a organização giram à volta do ego, do benefício e interesses pessoais. Toda a ação pode caracterizar-se por ambição, controlo e sobrevivência, na maioria das vezes, à custa dos outros. Numa grande empresa, com estas características, o objetivo é o ganho dos acionistas.
Desde que haja uma conexão com o sistema maior, pode desenvolver-se uma atitude pessoal de serviço e contribuição para uma sociedade de que as gerações futuras se possam orgulhar. Muitas pessoas sentem, neste caso, uma experiência subjetiva que denominam como “despertar” que é, aliás, o objetivo último do Coaching com C grande, segundo Dilts e Gilligan, dois grandes nomes associados ao desenvolvimento da PNL.
Numa empresa com estas características falamos, em primeiro lugar, de clientes em vez de acionistas e torna-se necessária uma liderança visionária e empreendedora, ao contrário da chefia burocrática característica da necessidade de sobrevivência que só vê no mundo perigos e ameaças.

Visão, missão, ambição e papel
Esta conexão com o sistema maior leva à formulação de objetivos carismáticos, resultantes de uma “visão” no seguimento da resposta a esta pergunta:
– O que quero criar no mundo graças à minha presença e que vai para além de mim?
– É a partir daí que pode então ser formulada a “missão”, a participação única do indivíduo (ou da organização) para realizar a visão.
– Segue-se então a definição da “ambição” pessoal: o que quero criar para mim dentro deste quadro maior?
– Finalmente, qual o meu “papel” ou papéis sociais concretos para poder realizar a minha missão?
Os termos utilizados em PNL para definir a relação harmoniosa entre todos os níveis neurológicos é chamada “congruência” ou “alinhamento”.

Algumas origens do mal-estar
Todas as alienações e mal-estares são o resultado de incongruências dentro ou entre níveis. Algumas delas:
– Mensagens internas confusas, resultado de dilemas, disputas entre valores, partes de nós em conflito numa luta de poder em que uma parte de nós pretende submeter a outra;
– Confusão entre níveis referindo-nos ao processo que consiste em confundir um nível inferior com um nível superior ou reduzir a identidade a um papel social tal como ser pai, ser doutor, professor, patrão, presidente…
– Desalinhamentos entre níveis como, por exemplo, não possuir as competências para o desempenho de um papel ou ser neutralizado por um nível superior tal como convicções limitadoras;
– Pura e simplesmente desconhecimento, desconexão ou associação paralisante e limitadora com um “campo” sistémico mais envolvente. Podemos ilustrar esta última situação da seguinte forma:
– Muitas pessoas estabelecem, no meu entender, objetos de adoração que, embora correspondam à definição de espiritualidade, porque nos ultrapassam, podem ser altamente limitadores ao optá-los como significado último de vida – um grupo ou organização social tal como um partido, a empresa, o exército, a família, a nação, uma seita, sobretudo no caso em que estas entidades existem desconectadas, fechadas sobre si mesmas e sobrevivem graças ao isolamento, aniquilação ou exploração do outro.

Consciência da máscara de sobrevivência
Como ter a certeza sobre qual é a nossa “missão”? O que realizar, o qual possamos sentir como significativo? Qual a razão pessoal de estar neste mundo? O que faz sentido para nós? O que é verdadeiro para a pessoa? Como chegar a uma resposta que possamos reconhecer, de forma somática, como autêntica e nos traga serenidade e contentamento?
A PNL pretende perceber, resolver problemas ou atenuar os efeitos negativos da contingência da nossa história, do piloto automático feito de pensamentos, emoções e reações ao mundo. Pode pois desbloquear problemas psicológicos e sociais e contribuir para uma consciência maior dos processos internos em que estamos embrenhados e nos tornam seus prisioneiros.
O que nos revela e que, no meu entender, é a mais importante descoberta que podemos fazer com o Modelo de Comunicação e que já tem reminiscências filosóficas muito antigas, é isto:
– Confundimos o observado com o observador, acreditamos que somos o observado, acreditamos que somos o que pensamos, o que sentimos, acreditamos que somos aquilo em que acreditamos… a nossa máscara socialmente criada para sobrevivência tornou-se o nosso ponto de referência com todas as consequências que isso acarreta: medo, angústia, ansiedade, stress, vazio…
Mas para nos encontrarmos a nós mesmos, encontrar individualmente o significado da nossa vida e transformá-lo em plano de ação teremos possivelmente de recorrer a ferramentas mais sofisticadas e atuais, embora algumas tenham já origem milenária.

A consciência plena de nós
Se tradicionalmente a PNL nos pode oferecer uma tomada de consciência e acompanhar a transformação, precisamos uma PNL atual que nos possa ajudar a encontrar objetivos carismáticos que expressem o nosso significado de vida.
Quem somos e o nosso Significado só pode ser encontrado, parece-me, no único ponto de referência real, o corpo, a consciência plena e direta que temos de nós e que tem como fundamento o sopro da vida, a respiração.
Não se trata de maquinações cognitivas, nem se trata de manifestações somáticas que designamos como emoções. Toda essa atividade cognitiva e emocional é, como já diziam velhos filósofos, acasos da nossa história, com muito valor pois não existiríamos sem ela… desde que não a transformemos em essências de nós. É dessa atividade da nossa história a que nos associamos que na psicologia tradicional e também na PNL, tomamos consciência.
A questão é que utilizamos grande parte das ferramentas com o fim de fazer calar o vazio, a insegurança e a ansiedade. Uma tarefa impossível de realizar desta forma. Como se diz em PNL:
– Lutar contra o que se não quer tem como resultado a ativação do indesejável, acabamos por receber aquilo contra o qual lutamos;
– E perpetuar o possível prazer que às vezes experimentamos vai exigir um uso de “drogas”, sejam elas socialmente corretas ou não, mas cada vez mais pesadas.
Como chegar então mais perto da nossa “verdade”?

A caminho do cerne
No nosso Instituto estamos a caminho dos 14 anos de existência em Portugal e sempre exprimimos de forma metafórica, no nosso lema, o que temos vindo a apregoar neste artigo:
– “A caminho do cerne, a partir do cerne”.
Na chamada PNL de 3ª geração foram acrescentados novos instrumentos para o processo contínuo na realização da congruência que abrem o caminho à realização da nossa missão através de objetivos carismáticos.
Tudo começa por uma maior tomada de consciência do corpo, algo que muitas pessoas evitam porque pode doer muito. E, em seguida, pela tomada de consciência do ponto no seu corpo em que se sente a si mesmo com maior intensidade.
Quando há desalinhamento, o que é a regra, as pessoas sentem o seu centro na cabeça, na garganta, no peito, nos ombros. Até já conheci uma pessoa que tinha o seu centro numa perna. Na prática parece que as pessoas que têm o centro na cabeça são geralmente muito racionais, cortam a ligação com o corpo e as respetivas sensações para evitarem o sofrimento. Dependendo da localização do seu centro cinestésico, ou podem estar a levar uma vida que as sufoca (o centro na garganta ou na parte de cima do peito), ou movem-se com uma ansiedade condensada no centro do seu peito. Podem carregar aos ombros o fardo das suas vidas ou, totalmente desequilibradas, esgotarem as suas energias para manter um equilíbrio que desta maneira é, por natureza, instável…
A ligação ao nível neurológico da espiritualidade, a sensação de conexão com um “campo” abrangente que nos oferece um significado maior e pleno, está em nós. É feito através do “centro”, o somático Chi ou Ki, o qual orientais já há muito situam na região mais ou menos dois dedos abaixo do umbigo a que nós, no nosso instituto, metaforicamente chamamos “cerne”. Só quando estamos ligados ao nosso “cerne” é que estamos ligados a nós e só então experimentamos, talvez, que estamos ligados aos outros, ao mundo, ao universo.
Uma versão pessoal de uma frase que li algures:
– A distância entre mim e mim é igual à distância entre mim e o outro e, eu acrescentaria, entre mim, a sociedade e o universo.

Objetivos carismáticos
As pessoas carismáticas, com objetivos carismáticos, transmitem uma mensagem através da sua voz, através de todo o seu corpo, uma mensagem que vai para além da sua história pessoal e que sentimos tão verdadeira que nos faz arrepiar, que toca em nós um ponto muito sensível e, ao mesmo tempo, como que abrangendo toda a sociedade e o universo dentro de nós.
Pensemos, por exemplo, em Martin Luther King Jr.. Ao contrário de uma espiritualidade com características esotéricas, essas pessoas têm os pés bem assentes na terra. Estão “centradas”.
Para quem as ouve, é como se, de repente, se fizesse Luz e despertássemos de um pesadelo e passássemos com toda a facilidade a navegar num mar de serenidade e contentamento.
Pessoas que conhecem este tipo de experiência, tanto as que realizam objetivos carismáticos como as que se encontram na sua presença, definem-na, às vezes, como uma sensação de “canal aberto”. Há conexão, tudo tem sentido, as atividades fluem. A respiração flui. Há coerência, congruência, há alinhamento dos níveis neurológicos.

Sente-se realizado?
O senhor que foi desembocar numa vila onde se estendia um cemitério verde com lápides com inscrições tais como
– Um dia, um mês, umas tantas horas… dirigiu-se às pessoas da vila, intrigado, perguntando sobre a possível catástrofe que teria dizimado almas tão tenras…
Que não, que não tinha havido catástrofe natural alguma! As lápides simplesmente apontavam para o período de tempo em que cada uma das pessoas falecidas sentiu que esteve empenhada na realização do significado da sua vida.

E o museu? O que vai mostrar com orgulho às gerações futuras na sua função eterna como guia do seu museu?

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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