José Figueira

 

Porque fazemos o que fazemos? Porque tomamos ou não uma determinada decisão? Porque entramos em conflito connosco ou com os outros? Porque aprendemos facilmente um assunto e noutro temos dificuldade? Porque nos sentimos bem ou mal numa determinada situação ou contexto? O que nos motiva?

Tudo isto tem a ver com motores inconscientes. Embora demos muita importância à racionalidade, são estes motores inconscientes que determinam os nossos atos, as sensações e as escolhas sem que, na maioria das vezes, tenhamos a mínima consciência do que está a acontecer. Estes motores são os nossos Valores. São os Valores que dão significado às nossas vidas ou nos podem criar grandes dificuldades.

 

Valores são nominalismos

Valores são substantivos que se não podem transportar num carrinho de mão, como se diz em PNL. São termos abstratos e por isso suscetíveis de múltiplas interpretações. Muito úteis para quando se quer evitar discussões, atingir acordo, criar um ambiente agradável e empático. Se não vejamos: é preciso no mundo respeito, honestidade, amor, compreensão… Com o emprego destas expressões tudo corre bem desde que não vamos detalhar o que é na prática concretamente respeito, amor, honestidade ou compreensão, ou outros termos desta natureza.

Estamos portanto na presença de palavras a que cada um lhes dá a sua própria interpretação. Partimos do princípio que o outro lhe dá a mesma interpretação que nós e assim é mantida (a ilusão) de acordo. Quanto mais vagos formos, e os valores são por natureza vagos e abstratos, mais possibilidades de acordo. Quanto mais detalhados, maiores as possibilidades de desacordo.

 

A origem dos valores

Os valores, expressos por palavras como amor, sucesso, intimidade, respeito, honestidade, aventura, poder, saúde, etc., formam-se e transformam-se durante toda a nossa vida, embora os primeiros anos de vida sejam os que mais contribuem para a formação dos nossos valores essenciais e que mais marcam a nossa identidade.

Copiamo-los em primeiro lugar dos nossos pais, mas também das pessoas à nossa volta, dos professores, das autoridades espirituais… Adotamos também valores que são precisamente opostos ao que concretamente vivemos à nossa volta. Um ambiente de abandono, desamor, falta de respeito, enclausuramento, pode muito bem resultar na adoção inconsciente de valores como amor, respeito, reconhecimento ou liberdade.

 

Hierarquias

Os nossos valores estão ordenados hierarquicamente, quer dizer, uns são mais importantes que outros. O nível de emoção determina a importância, o que se vai refletir na qualidade da representação mental. Um significado de alto valor possui caraterísticas sensoriais mais poderosas. A estas caraterísticas chamamos submodalidades sensoriais. Se retirar a cor, o brilho, o tamanho, afastar para longe mentalmente a representação cognitiva do valor e torná-la pequena e abaixo do nível dos olhos, muito possivelmente que o valor por mais elevado perde a importância e vice-versa.

É esta caraterística hierárquica, estejamos ou não conscientes dela, que nos facilita as escolhas. Um valor mais elevado na hierarquia tem maior necessidade de ser satisfeito e vai, por isso, estabelecer as nossas preferências.

 

Dilemas

Os valores são, ao mesmo tempo, responsáveis pelos nossos conflitos, tanto com outras pessoas como connosco mesmos. O processo de socialização trouxe consigo a adoção e desenvolvimento de diversos papéis e caraterísticas pessoais que nos permitiram sobreviver e lidar no momento com diversos contextos e situações. Podemos falar mesmo de diversas identidades dentro de nós e cada uma delas tem os seus valores próprios. Assim é possível, por exemplo, entrar em conflito perante impossibilidade de decidir da importância entre o papel de mãe e de profissional, entre um desejo de liberdade e segurança, entre uma parte racional e a afetiva, entre um desejo de controlo e uma certa anarquia, entre dever e desobrigação, etc.

 

Afastamento e aproximação

Um dos aspetos menos conhecidos dos valores e que é precisamente um dos que maior impacto tem na nossa vida, tem a ver e manifesta-se na forma como os vivenciamos e realizamos. Cada valor tem, digamos, duas faces. Em cada valor está presente o seu contrário. Não existe o desejo de liberdade sem que não queiramos evitar a sensação de estar preso; não se anseia por amor sem que evitemos o ódio ou desamor; não existe respeito sem que que se evite o desrespeito. Esta é uma das mais importantes caraterísticas dos valores. E em cada um de nós, um destes aspetos tem maior ou menor peso. Isto é subtil e nada fácil de sentir: o que é que pesa mais, a liberdade ou evitar a sensação de prisão? O que é mais importante: respeitar ou ser respeitado? Reconhecer ou ser reconhecido?

Falamos então de “aproximação” do que queremos e “afastamento” do que não queremos. Afastamento, e a maioria das pessoas movem-se talvez por afastamento, tem como consequência que nos focamos (inconscientemente) no que não queremos o que aumenta a possibilidade de receber de presente o que precisamente se não quer. Para além disso é desgastante passar a vida lutando pelo que se não quer, sem termos a mínima consciência do que está a acontecer connosco.

 

Solução de problemas com valores

Ao que parece há uma correlação direta entre ser movido e agir contra o que se não deseja (a que chamamos motivação por afastamento) e memórias emocionais negativas de infância. Neste caso é usual em PNL o emprego das chamadas “terapias da linha do tempo” com o fim de reenquadrar as memórias e neutralizar a emoção negativa, o que leva as pessoas a lidarem com os seus valores de forma menos obsessiva.

Os conflitos internos são tratados com o diálogo, integração dos valores e a criação de uma nova alternativa feita da combinação dos aspetos positivos dos valores em conflito, o chamado “visual squash”.

Problemas na hierarquia de valores podem ser resolvidos, após a resolução dos possíveis problemas atrás mencionados, através de uma reconstrução mental da representação cognitiva utilizando a transformação das qualidades sensoriais, a chamada “transformação das submodalidades sensoriais” dos valores em causa.

 

Significado de vida

Valores, ideais, significados, são os nossos motores. Há grande vantagem em conhecê-los pois aumenta assim a possibilidade de organizarmos melhor a nossa vida e sermos felizes.

Se o valor é de afastamento, quer dizer, tem um fundamento emocional negativo muito forte ainda presente na pessoa, pode até impulsioná-la na realização de grandes obras. Mas obriga-a muitas vezes a lutar de forma mesmo obsessiva, pelos seus ideais. Outras vezes a ser dilacerada por conflitos internos.

Para além dos valores há ainda outro aspeto essencial para a sensação de bem-estar ou mal-estar nas nossas vidas: são as nossas preferências psicológicas naturais, o que em PNL é conhecido como “meta programas”. Cada vez que não estamos realizando os nossos valores ou nos forçamos infringindo as nossas preferências pessoais ou traços de caráter essenciais, estamos perdendo momentos preciosos de vida.

Na PNL atual, a identidade e a realização do que consideramos o nosso significado de vida jogam um papel essencial. Os valores e os meta programas são, neste sentido, fatores determinantes.

Quem conhece bem os seus valores vê as possibilidades de escolha aumentadas e tem mais facilidade em ter o controlo da sua vida nas suas próprias mãos. Se não conhecer os seus valores cresce a possibilidade de viver para realizar os valores dos outros e permitir que os outros se aproveitem de si a custo do desperdício da sua própria vida.

 

Descubra os seus próprios valores

Para a maioria das pessoas não é fácil descobrir a “verdade” que as move, encontrar os seus verdadeiros valores e muito menos descobrir se o que as motiva são valores de aproximação do prazer ou afastamento da dor. Muitas vezes nomeamos valores socialmente corretos ou ficamos pela parte visível do “icebergue”. Esta investigação dos valores é um dos momentos mais importantes nos nossos cursos.

De qualquer forma podemos sempre, se quisermos, espreitar um pouco para dentro de nós e fazer uma pequena análise introspetiva. Escolha um contexto e pergunte-se o que é para si importante nesse contexto. E vá perguntando de forma exaustiva: E mais? E mais? Depois pergunte-se: – Se tivesse que escolher quatro ou cinco valores, quais escolheria?

Outra pergunta que se pode fazer a si mesmo é esta: – O que desejaria, do fundo do coração, que as pessoas dissessem de si no seu 90º aniversário?

 

A verdade

Não é fácil descobrir a nossa verdade, a verdade que nos move.

Um amigo meu holandês contou-me que leu sobre um turista que foi de férias a Aletheia, uma cidade na Grécia rodeada de um muro com centenas de anos. Nesse muro há uma porta belíssima que, por estranho que pareça, não é usada. Ninguém entra nem sai por aquela porta. A única entrada e saída usada é uma pequena e quase miserável espécie de portinhola, pelo menos comparada com a porta em desuso. O turista resolveu usá-la. Imediatamente os habitantes desataram aos gritos prevenindo-o de perigo eminente. Uma rocha enorme por cima da porta parecia pronta a desabar.

Só em casa, ao ler o guia turístico da terra, o turista percebeu verdadeiramente o que se passava. A rocha em cima da porta era considerada a “rocha da verdade”. Segundo a lenda a rocha cairia inevitavelmente na cabeça de um mentiroso.

José Figueira (abril 2013)

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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