José Figueira

À medida que o conhecimento da PNL se espalha em Portugal cresce a necessidade de compreender cada vez mais profundamente este fenómeno que é a Programação NeuroLinguística. O que se segue é mais uma tentativa de perceber os elementos que, no meu entender, possam talvez ser o cerne do método. Assim passarei em revista conceitos fundamentais como o modelo consciente/inconsciente e como se investigam processos inconscientes, níveis de consciência, impedimentos para uma transformação eficaz, intenções positivas e o papel da ecologia, a base da comunicação eficaz, a estrutura da ferramenta básica utilizada para a transformação, a essência da mudança traduzida no conceito reenquadramento, a ilusão da verdade atribuída às representações mentais e, finalmente, alguns princípios que me parecem serem essenciais para uma transformação efetiva na realização do bem-estar, paz e harmonia.

 

Sobre o consciente e o inconsciente

A distinção fundamental em PNL, reside na diferenciação que é feita entre consciente e inconsciente. Embora toda a nossa civilização pareça atribuir ao consciente, à lógica e à razão um papel fundamental, isso parece ser uma grande ilusão. O consciente, a lógica e a racionalidade das nossas decisões, o livre arbítrio e coisas semelhantes, tal comos a neurociência e os conhecimentos atuais do funcionamento do cérebro têm vindo a confirmar, parecem jogar um papel muito menos determinante do que pensamos.
O consciente é lento e parece só aperceber-se das coisas depois do inconsciente já ter tomado a decisão. As nossas intuições são conhecimentos inconscientes que afloram à superfície.
Em PNL partimos do poder ilimitado do inconsciente e todo o processo de autoconhecimento e o objeto da PNL é o estudo das estruturas da experiência subjetiva. O terreno de estudo e influência da PNL sempre foi e é o inconsciente.
Investigar processos inconscientes

Os métodos fundamentais usados em PNL para estudo da experiência subjetiva são a introspeção e a modelagem. Neste contexto a grande pergunta não é propriamente perguntar sobre o porquê das coisas. O “porquê” leva-nos facilmente a produzir racionalizações. É usual no Practitioner, o curso básico de PNL, considerar tabu o uso do “porquê”. Em vez disso utiliza-se o “como”. A pergunta talvez mais importante e que mais vezes é feita é a pergunta “como”: qual o processo inconsciente que leva a um determinado comportamento, a uma conclusão, a uma decisão, a uma crença ou valor, a um objetivo ou emoção…
No Master practitioner, um nível mais meta relativamente ao conhecimento e tomada de consciência da PNL, já é permitido o uso do “porquê”. Neste caso o pnliano já sabe fazer distinções subtis entre a linguagem da mente consciente feita muitas vezes de racionalizações superficiais e o nível inconsciente. O “porquê” é utilizado então aqui no sentido de: com que intenção, com que fim, qual o significado, qual a importância?

 

Níveis de consciência

A noção básica essencial de análise em PNL é o conceito chunk. Tem a ver com níveis lógicos de informação ou categorias. Canários, pintassilgos, melros, etc. estão a um nível de chunk muito concreto enquanto o conceito “pássaro” pertence a um chunk superior de informação com caraterísticas abstratas mais abrangentes e englobantes.
Um chunk inferior de informação está ao nível consciente, é detalhado, comportamental, pode facilmente ser abordado de forma racional e lógica. Um chunk superior pertence ao nível do inconsciente, pode ser abordado de forma mais associativa e metafórica e é determinante para os nossos atos e sensações. Estudamos em PNL essencialmente as estruturas inconscientes determinantes da nossa vida. Referimo-nos a todo o conjunto de crenças, valores, memórias e emoções, traços psicológicos, desejos escondidos, perspetivas, significados…
Concretamente: para darmos um simples passo, cozinhar um ovo, relacionarmo-nos, há todo um arsenal de informação de que, em geral, não acedemos de forma consciente. Isso facilita-nos a vida quando temos resultados que consideramos positivos, somos eficientes. Por outro lado, como em geral não temos a mínima noção e não controlamos os nossos comportamentos e emoções (os impulsos surgem do inconsciente) vivemos à mercê do conteúdo da nossa estrutura subjetiva, o que é grave quando se manifesta na forma de stress, tristeza, irritação, depressão, vício, etc.

 

Investigação de impedimentos

A pergunta meta para abrir novos caminhos é: o que o/a impede? É a pergunta mágica quando alguém se depara com dificuldades pessoais em termos de não sou capaz, é impossível, não posso…
Mas também aqui tal pergunta meta feita mecanicamente pode levar a desculpas e racionalizações não funcionais. O pnliano terá de estar em estado de entrar em contacto com o nível inconsciente do outro ao fazer esta pergunta. E ter muita sensibilidade para reconhecer de onde vem a resposta. Uma resposta mecânica feita de racionalizações só serve para estabelecer uma cortina de nevoeiro entre a pessoa e ela mesma e entre a pessoa e o pnliano.
Por isso toda a nossa atenção na investigação de processos está concentrada na ligação que é feita com a sensação profunda da pessoa. Racionalizações tendem a cortar a ligação do indivíduo com o seu ser mais profundo.
Qualquer aprendizagem séria de PNL exige treino no discernimento do nível a que se está a comunicar e uma consciência do movimento contínuo entre a mente inconsciente e a compreensão consciente.

 

Sobre intenções

O objetivo fundamental do estudo da experiência subjetiva do ser humano, dos seus processos inconscientes, é a mudança. A PNL, uma epistemologia e método com todo o seu arsenal de ferramentas, é direcionada a soluções. A transformação de comportamentos e sensações não funcionais em novas alternativas ocupa assim um lugar central.
Num determinado momento apercebemo-nos de sensações de mal-estar e insatisfação provindas do inconsciente e determinamos objetivos, também eles provindos da mente inconsciente. Embora se apele muito à facilidade da transformação e às poderosas ferramentas da PNL, todos sabemos que a transformação, às vezes, não é fácil. Qual é então o grande impedimento? Talvez o maior?
Imprescindível para que a mudança seja possível: a realização da intenção positiva do padrão antigo. Esta intenção (ou intenções) é chamada também o ganho secundário. Qualquer comportamento, por menos funcional que seja, tem uma intenção positiva. A pessoa deprimida, independentemente do sofrimento, pode ter como intenção positiva a atenção, segurança e conforto dos outros. Ora sem que esta atenção, conforto e segurança, empregues aqui como exemplo, não sejam realizadas, a transformação nunca terá lugar.

 

O papel da ecologia na transformação

A mente inconsciente, como nos contam os especialistas da neurociência, tem uma capacidade tremenda de fazer cálculos que nenhum computador do mundo pode igualar. Isto é válido até para as coisas mais simples da vida como calcular o lugar preciso, quando nos atiram uma bola e nós a sabemos agarrar.
Qualquer transformação de comportamento, crença, perspetiva, tem implicações internas e externas nos diversos contextos em que nos movemos no mundo e, como foi dito atrás, perdemos sempre qualquer coisa. É necessário levar para a nova situação os ganhos da situação antiga. A mente inconsciente está em estado de prever as consequências de qualquer possível transformação. É como se se pusesse a fazer cálculos imediatos dos prós e dos contras de tal transformação. Daí a importância da ecologia em PNL, das consequências positivas e negativas de qualquer empreendimento. O sucesso ou não da mudança depende disto: os ganhos emocionais da nova situação terão sempre, para a pessoa em questão, de ser superiores (ou pelo menos iguais) à situação antiga.

 

Comunicação eficaz

Para qualquer transformação em nós ou no que se refere ajudar outros, a comunicação é essencial. O conceito básico essencial para a comunicação é o rapport, o que pode significar recetividade, empatia, disponibilidade, aceitação, respeito.
Exige honestidade. Sem honestidade connosco mesmos ou com os outros, não existe comunicação verdadeira. Só assim se conseguem relações humanas de confiança e respeito.
Essencialmente trata-se de escutar, a si e ao outro, ter interesse no outro, estar em estado de entrega, sair do seu próprio corpo e assumir o que designamos como 2ª posição percetiva, sem perdermos o contacto connosco, com aquilo que sentimos como o mais verdadeiro em nós.
O rapport, muitas vezes mal compreendido, é um contacto de “almas”, coração a coração, uma mesma onda, comunicação direta que ultrapassa de longe as limitações da mente consciente. É uma ligação com o que sinto como sendo o meu centro, aquilo que sinto como mais eu, e ligação com o que há de mais profundo do outro.
Não é por acaso que é considerado um dos pilares básicos da PNL. Sem rapport a PNL não existe. Sem rapport nenhum resultado.
O rapport, embora sendo um dos maiores pilares da PNL, tem-se afigurado ser muito mal compreendido até pelos seus próprios praticantes.

 

A ferramenta básica para a mudança

A técnica mais básica que se encontra no cerne de todas as técnicas da PNL é o chamado mapping across. Consiste basicamente em levar recursos de uma situação em que os recursos estão presentes para uma situação em que não estão a ser utilizados.
Encontramos possivelmente milhares de variações por esse mundo fora, mas a base é a mesma. Acede-se a memórias adequadas e leva-se a sensação necessária para a situação problemática. É assim que se transformam representações mentais de situações indesejáveis, convicções limitadoras, traços de caráter problemáticos, memórias traumáticas do passado ou se enriquecem com novas possibilidades situações do futuro.
A ideia básica, que a ciência também tem vindo a confirmar nos últimos anos, é que as memórias estão sempre em transformação cada vez que nos recordamos ou temos nova informação: ora o que fazemos em PNL é levar a memórias passadas ou construções mentais no futuro, nova informação, informação mais adequada.

 

Uma nova visão das coisas

No cerne trata-se de levar nova informação a situações em que nos falta qualquer coisa. Falamos muito de transformação e mudança. Ora o processo básico de transformação não é propriamente mudança, é mais reenquadramento, o que significa, ver, ouvir e sentir as coisas de outra maneira.
Partimos do princípio que qualquer palavra, pessoa, objeto, acontecimento, situação, não têm significado em si. O ser humano é um atribuidor de significados. O problema põe-se quando atribuímos às coisas ou a memórias, significados que não são funcionais. Ao introduzir nova informação, informação essa devidamente escolhida e mais ajustada, ocorre uma transformação do quadro criando um novo significado, permitindo movimento quando há estagnação. Não são os acontecimentos que determinam a nossa vida, sim a interpretação que lhes damos. Em PNL estamos continuamente ocupados com interpretações e reinterpretações que sejam sentidas como mais adequadas.
Podíamos definir toda a PNL como um processo de “reenquadramento”.

 

O papel das representações de mim e do outro

“O mapa não é o território” é o axioma mais básico que encontramos em toda a literatura. Não conhecemos o mundo, somos fabricantes de mapas. E acreditamos neles. Assumimo-los como verdades. Pode dizer-se que a PNL, como “ciência e arte” da comunicação, ocupa uma meta posição em relação ao mundo, na medida em que se eleva ao nível das estruturas que o compõem. A verdade não existe, até mesmo a PNL não passa de um modelo. Estuda coisas como estas: como é possível que as pessoas levem a sério os seus próprios enredos mentais, estuda a sua estrutura, desenvencilha-as, e ajuda a construir mapas mais adequados e ecológicos que permitam uma vida mais confortável para nós mesmos e para o mundo à nossa volta.
Não são os outros que são responsáveis pelas nossas alegrias e sofrimentos. Não é o mundo que é responsável pelas interações que eu tenho com o mundo. São as representações internas que tenho de mim, dos outros, das coisas, da sociedade, que dominam a interação que tenho comigo e com o mundo.
O objeto da PNL não é diretamente o mundo, são sim as nossas representações mentais. É através delas que podemos contribuir para recriar um mundo mais digno e justo.

 

O bem-estar e a felicidade

Podemos pensar que paz, bem-estar, felicidade, ou construir a vida que se quer e ter sucesso, seja o significado que lhe queiram dar, está agora facilmente ao encontro de todos. E às vezes, tanto nos milhares de livros de autoajuda como a própria PNL é apresentada desta forma simplista: transforme as suas representações mentais e o milagre aconteceu! Ora claro que não é bem assim!
Os resultados positivos extraordinários da aplicação das ferramentas da PNL só se manifestam se tivermos respeito pela maneira como somos realmente neste momento e pelas nossas tendências naturais. Lutar e forçar são os inimigos nº 1 de qualquer transformação.
Para que uma mudança seja efetiva e que se possa chegar a uma sensação de bem-estar e harmonia há que ter em conta, entre outras coisas, o seguinte:

– A intenção positiva de qualquer hábito, comportamento, convicção, mal-estar, terá de ser respeitada e realizada;
– O novo comportamento ou crença, sensação ou traço de caráter, deve ser ecológico, quer dizer oferecer mais vantagens para o individuo que a situação antiga, tendo em consideração o indivíduo na sua totalidade assim como as consequências para o sistema que o rodeia;
– A transformação deve ser sistemicamente aceitável, quer dizer, aceitável para todas as possíveis subpersonalidades (“partes”) da pessoa;
– Qualquer objetivo deve ser formulado em termos do que se quer, vivido consciente e inconscientemente a partir do que se quer, e não do que se não quer;
– O grau de sucesso na realização da mudança está diretamente correlacionado com a forma em que se enquadra com o que a pessoa sente como sendo o seu objetivo último ou propósito de vida;
– Os valores chamados de “aproximação” (formulados em termos do que se quer: liberdade, honestidade, respeito, amor, etc.) facilitam a mudança de forma harmoniosa, enquanto valores por “afastamento” (evitar: a desonestidade, a prisão, a desconsideração, o desamor, o desrespeito, etc.) exigem muito desgaste e levam muitas vezes à realização do indesejável;
– Crenças ilimitadas são favoráveis, crenças limitadoras impedem as iniciativas, destroem qualquer ação e inibem a criatividade;
– Toda a relação e atividade exercida devem estar de acordo com as nossas tendências psicológicas naturais (os chamados “meta programas”), de contrário a motivação é consciente e inconscientemente sabotada.

José Figueira, março de 2013

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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