José Figueira

I – PNL e qualidade de vida

O que é “qualidade de vida”?
Para além dos termos populares como “sucesso” e “excelência” usados em larga escala, diz-nos a PNL concretamente e explicitamente algo sobre este assunto? O que se pode acrescentar, se isso é possível, que não seja só uma repetição das conhecidas contribuições desta metodologia para uma comunicação mais eficaz?

O cliente tem a resposta

Podemos complicar, podemos ser simples.
Responda o leitor ele mesmo:
– O que é preciso acontecer para que possa dizer, no fim da sua vida, que valeu a pena viver? O que o pode fazer morrer com orgulho (por ter deixado o que deixou aos seus filhos e às próximas gerações)?
Se não queremos ser tão mórbidos, podemos então fazer uma pergunta mais situada no aqui e agora e que, aliás, vai dar no mesmo:
– O que é que realmente pode produzir em nós uma sensação de autorrealização total e preencher assim o significado maior de vida? O que me faz atribuir à minha vida a classificação “qualidade”?

Subjetividade e emoções

Tanto a palavra “qualidade” como a palavra “vida” são substantivos de caráter abstrato e portanto de interpretação múltipla e subjetiva. São o tipo de palavras cujo conteúdo não pode ser transportado num carrinho de mão, como se diz na gíria da PNL.
Tal como “sucesso”, “êxito”, “bem-estar”, no fundo, do que se trata aqui, é da vivência de uma emoção que satisfaça o cliente dando-lhe a sensação que vive uma vida que vale a pena ser vivida.
E já Bandler dizia: – “A pessoa de sucesso é aquela que consegue aceder aos melhores estados emocionais”. Os estados emocionais jogam um papel central em PNL. E, quando falamos de qualidade de vida, falamos de emoções desejáveis consideradas como altamente significativas para a pessoa em questão.

Possíveis abordagens

Talvez possamos abordar o tema “qualidade de vida” criando modelos, cada modelo com a sua própria definição implícita ou explícita de qualidade e o respetivo método para a sua realização.
– Podemos falar, por exemplo, do socialmente correto: casa, bom carro, família feliz, conta recheada no banco, férias com ar puro, cruzeiro, cão de guarda, amigos, vinho e sardinhada, etc.. Nada contra este modelo se não nos apegarmos de tal forma que se torne a única realidade limitando a nossa potencialidade e todas as nossas possibilidades de desenvolvimento. Certamente que, a este nível, é possível criar critérios de qualidade que satisfaçam os gostos dos respetivos grupos de clientes no mercado do bem-estar.
– Ou podemos tratar o assunto a partir de convicções esotéricas que funcionam como padrão externo ou internalizado de avaliação de qualidade, seja Deus e os seus mensageiros, um guru indiano ou uma abstração cor-de-rosa tipo Amor universal, ou outra qualquer entidade ou conceito abstrato feito ou não de energias cósmicas, o que na verdade pode servir de referência para o preenchimento do significado de vida de muita gente;
– Talvez, pura e simplesmente, tentar cessar a forma inconsciente do piloto automático de viver que é a nossa forma “normal” e vivenciar conscientemente o aqui e agora partindo de um mindfulness radical ou conjugá-lo com os nossos valores essenciais;
– Podemos também imaginar com qualidade, como é comum nas abordagens do pensamento positivo;
– Ou, para finalizar, utilizar o modelo de PNL que esclarece e ajuda à realização da congruência (neuro)lógica.

PNL e qualidade de vida

O que  se apresenta acima são modelos. Na prática as pessoas empregam e manifestam nas suas vidas, em maior ou menor grau, elementos de cada um dos modelos. E claro que não há objeção contra cada modelo em particular desde que a pessoa se não refugie na ilusão de que são verdades! Cada modelo é funcional dentro do seu próprio paradigma e é capaz de levar o indivíduo ao “céu” da sua própria imaginação.
No meu entender, com todo o respeito e consciente das possibilidades enormes dos abundantes dois primeiros modelos na produção de sensações aprazíveis, escolho por abordar o tema da “qualidade de vida” utilizando os três últimos modelos:
Mindfulness (forma de atenção e vivência intencional do momento sem julgamentos) ajuda-nos a corrigir muitos dos filtros que usamos na perceção do mundo. Para além disso põe em prática um princípio essencial da PNL que, se não for respeitado, debilita qualquer transformação – é a questão do “não”: se se diz “não”, recebemo-lo de volta. Mindfulness neutraliza a luta contra o “não” favorecendo a aceitação. Sem este passo inicial a transformação torna-se problemática e o stress tende a aumentar.
Imaginar com qualidade tem a ver com as representações internas que fazemos de nós e do mundo. Em PNL concentra-se tudo à volta das qualidades sensoriais destas representações. Ainda mais: todas as ferramentas em PNL têm como fim criar uma representação mental que produza um estado emocional adequado.
– Para criar congruência, sentida como algo qualitativamente relevante e significativo, seja num contexto particular, seja na vida, faz-se em PNL, o “alinhamento dos níveis (neuro)lógicos”. Este alinhamento tem lugar horizontalmente através da unificação de subpersonalidades (chamadas “partes”) e, verticalmente, harmonizando os comportamentos com os seus motores inconscientes.
No seguimento deste texto concentrar-me-ei, sobretudo, nos modelos “imaginativo” e “congruência”, na medida em que é neles que assenta tradicionalmente a Programação NeuroLinguística.

Principais variáveis na realização da “qualidade de vida”

Axioma básico em PNL, possível de extrapolar para o tema “qualidade de vida”, é que tanto a sensação como a avaliação da sensação como positiva, não tem diretamente a ver com o mundo exterior, mas com a nossa própria construção imaginária. Quer dizer: – Eu sou o único construtor da minha realidade, da consequente vivência emocional e da sua respetiva apreciação crítica.
Isto implica que sou o único responsável pela minha qualidade de vida. Sou responsável
– pelo que quero fazer da minha vida e dos objetivos que pretendo realizar;
– pelos meus conhecimentos e competências sociais e profissionais;
– pela saúde física e psicológica do meu corpo;
– pelas representações mentais de mim e do mundo;
– pelas crenças que tenho sobre o que posso e sou capaz, sobre mim como pessoa e sobre o mundo;
– pelos meus valores, qualidades, traços de caráter e preferências psicológicas;
– pela maneira como olho para mim sobre quem sou;
– pelo objetivo último da minha vida;
– pela integração harmoniosa de todas as componentes em que assenta o meu Ser.

Realizando qualidade de vida

Inspirando-me na PNL e, apesar da minha experiência, continua a não ser tarefa fácil resumir aqui a passagem à prática no caminho da nossa realização total como seres humanos tanto individualmente como na sua responsabilidade social, caminho esse que, no meu entender, forma o fundamento do que interpreto aqui como sendo “qualidade de vida”:
– Há que definir concretamente o que se quer em termos que se conjuguem com os nossos valores essenciais, tendo em conta a ecologia de todo o sistema, tanto interno como externo, o que exige uma investigação exaustiva de objetivos por detrás de objetivos até encontrar o objetivo último;
– Assumir uma postura física de acordo com os nossos ideais de realização total da qualidade;
– Conhecer e aplicar os elementos da estrutura da experiência mental subjetiva respeitante à construção de representações mentais. Quer dizer, conhecer os elementos básicos que constituem as nossas imagens mentais, designadas em PNL como as submodalidades (por exemplo, cor, tamanho, forma, localização das imagens, qualidades do som e das sensações táteis ou exclusivamente corporais) das modalidades sensoriais VACOG (visuais, auditivas, cinestésicas, olfativas e gustativas). E não basta conhecer, há que saber lidá-las;
– Adquirir os conhecimentos necessários e as competências sociais e profissionais adequadas;
– Perceber a estrutura de como a linguagem nos atrofia ou nos liberta, o que significa conhecer e aplicar, pelo menos, 3 modelos linguísticos da PNL: o modelo analítico (Modelo Meta), o imaginativo construtivo positivo (Modelo Milton) e o ressignificativo (SOM);
– A maioria das pessoas não tem a mínima noção de que o que pensam sobre os outros, sobre si e sobre o que são capazes, são simplesmente expressões linguísticas de crenças pessoais que nada têm a ver com verdades. A tomada de consciência permite discernir o valor limitador ou ilimitado das crenças pessoais;
– Para falar dos valores, os motores inconscientes determinantes da nossa vida, mesmo aplicando o critério da simplicidade, precisaria de algumas dezenas de páginas. Importante mencionar aqui é que a grande maioria das pessoas desconhece o que é importante para elas. Nem eu mesmo estou ainda seguro dos meus valores fundamentais, nem sei se alguma vez o virei a estar totalmente. E são estes mesmos valores que determinam o nosso grau de satisfação na vida! Há valores mais importantes escondidos por detrás de valores, o que permite desilusões mesmo após objetivos realizados com relativo sucesso. Há, para além disso, valores opostos dentro da mesma pessoa, valores com o mesmo conteúdo emocional, o que leva a conflitos internos e, às vezes, à impossibilidade para tomar decisões. Há ainda subtis direções relativas ao diferenciamento na realização de valores, o que faz com que muitas pessoas se dirijam ao que não querem e acabam por recebê-lo de presente;
– É muito conveniente pesquisar e harmonizar mensagens internas de desconforto resultantes de aspetos da personalidade em conflito e resolver medos, traumas e ansiedades com origem no passado e que possam obscurecer e desformar a informação no presente;
– Conhecer o perfil psicológico, os traços de caráter (os “meta programas” como são definidos em PNL) é fundamental. Sem isso não se sabe com quem se é feliz, onde a gente se sente bem, que atividades são relevantes ou que espécie de trabalho nos dá prazer;
– E apreciaremos o nosso grau qualidade de vida relatando-o à autoimagem que temos de nós. Dois extremos: – É a vida que levo digna de mim ou sou eu digno da vida que levo? A questão é que a autoimagem que temos de nós é também uma construção e nunca corresponderá ao que realmente somos. Somos sempre mais do que aquilo que pensamos que somos.
E, o último passo no modelo dos níveis (neuro)lógicos em PNL:
– Qualidade de vida tem a ver com o alinhamento total, a harmonização final de objetivos de ação em conformidade com conhecimentos e competências, crenças, valores, perfil, autoimagem e significado último da existência. É harmonizar-se com o objetivo último da nossa vida, o significado mais transcendente. Isso é, em si mesmo, um programa de vida. É a realização da resposta à pergunta: – Porque está aqui?

Quanto tempo tem ainda?

Sejamos honestos.
Se a vida consta, em média, de 28.000 dias, tire-lhe os dias que já viveu. Do que lhe resta, passa X horas a dormir. Subtraia essas X horas, traduzidas em dias de sono, aos dias que tem para viver. Do restante, calcule e diminua ainda os dias em que é obrigado a fazer coisas que não conduzem necessariamente à sua realização pessoal, prazer de viver e qualidade de vida mas que são absolutamente necessárias para a sobrevivência. Se tiver tido a coragem de fazer as contas, conte então a si mesmo, exatamente, o tempo que lhe resta para (continuar a) dar significado à sua vida.
O próximo passo que se dê ou não… é da nossa inteira responsabilidade. Penso que ninguém neste mundo (nem no outro) decidirá por nós!

II – A prática da qualidade de vida

O cerne da questão

Do que se trata essencialmente em PNL é de estados emocionais. Toda a epistemologia e ferramentas da PNL têm um único fim: ajudar as pessoas a aceder a “melhores” estados emocionais.
Toda a nossa existência é possivelmente determinada pelo princípio do afastamento do que consideramos desagradável e a tentativa de realização do que esperamos nos dê prazer. Portanto, tudo em nós tende para o afastamento ou neutralização de emoções negativas e para a realização de emoções positivas.
O que pensamos e realizamos fazemo-lo na esperança de evitar desconforto e realizar sensações agradáveis experimentadas como positivas. Aliás, aquilo que pensamos e realizamos é, por sua vez, determinado pelo estado emocional em que nos encontramos. Em linguagem popular: uma pescadinha de rabo na boca!

A solução em PNL

Como o nosso fim é sentirmo-nos bem e como tudo está dependente do estado emocional, há que criar estados emocionais adequados. E como o estado criado é considerado ser o resultado direto do nosso pensamento (das chamadas modalidades sensoriais ou representações internas feitas de imagens, sons, diálogo interior), todas as intervenções com ferramentas da PNL têm como objetivo trabalhar o pensamento. Isso faz-se diretamente através da substituição das características das imagens e dos sons (transformação de submodalidades sensoriais como cor, tamanho, movimento, localização, etc). Faz-se também através da modificação de sensações simples e primárias no corpo (temperatura, intensidade, localização e movimento da sensação, etc.). Qualquer outro tipo de intervenção ou utilização de uma técnica específica (tais como âncoras, posição percetiva, reenquadramento, linha do tempo, etc.) acabará por ter como resultado final a transformação do pensamento (representações internas).

Responsabilidade pessoal

Como foi dito no número anterior da nossa revista, independentemente de como o mundo exterior se nos apresenta, não pomos as causas do nosso possível mal-estar no mundo. Fazemos em PNL uma escolha pela adoção de convicções favoráveis para nossa realização pessoal: partimos então do princípio de que somos nós os únicos responsáveis pelos objetivos que realizamos ou não, pelo desenvolvimento dos nossos conhecimentos e competências sociais e profissionais, pela nossa saúde física e psicológica, pelas representações mentais que fazemos de nós e do mundo, pelas crenças que temos sobre o que podemos e somos capazes e pelo que pensamos do mundo, pelos nossas qualidades, traços de caráter e preferências psicológicas, pela maneira como olhamos para nós e sobre quem somos e o que queremos ser, pelos nossos significativos objetivos últimos de vida, pela integração harmoniosa de todas as componentes em que assenta o nosso Ser. Cada um é responsável pelos óculos que usa e pelo que faz para transformar para melhor o mundo que nos rodeia.

A prática da qualidade de vida

A PNL concentra-se no estudo e transformação das nossas representações mentais através da modificação das características sensoriais das imagens e dos sons (incluindo as palavras do diálogo interno) e transformando as características das sensações experimentadas no corpo. Ou utiliza um método direto de transformação (trabalho com submodalidades sensoriais), ou toda uma gama de técnicas que levam indiretamente ao mesmo resultado.
Para além disso concentra-se na formulação adequada de objetivos, dá atenção ao elemento somático, investiga as consequências e faz uso consciente de padrões linguísticos, dá muita atenção ao papel dos valores e das crenças, trabalha diretamente com memórias emocionais, tem em conta os perfis psicológicos responsáveis por padrões de pensamento e comportamento essenciais na comunicação, harmoniza conflitos internos e ajuda o individuo a encontrar o seu balanço na realização do seu significado de vida.

Objetivos e qualidade

Melhorar a qualidade de vida pode começar pela procura da resposta a esta pergunta fundamental: – O que anda cá a fazer?
Há que definir concretamente o que se quer em termos que se conjuguem positivamente com os nossos valores essenciais, tendo em conta a ecologia de todo o sistema, tanto interno como externo, o que exige uma investigação de objetivos por detrás de objetivos até encontrar o que, nesse momento, é para si o seu objetivo último.
Desde que tenha encontrado a resposta é então a altura de (re)organizar a vida de tal modo que tudo se conjugue na direção da realização daquilo que para si valha mesmo a pena.

Sobre a fisiologia

Para além dos cuidados básicos do corpo, talvez uma das coisas que nos ajude é ter consciência do papel que assume a postura corporal nos nossos estados emocionais. Há uma postura física que nos liga a fracassos e insatisfação assim como há uma postura que nos liga a sucessos e satisfação pessoal.
Respirar profundamente, estar centrado, assumir interiormente uma atitude de dignidade e merecimento conduz a posturas que conscientemente podem ser assumidas para facilitar a congruência e auxiliar na manutenção de uma saúde física e psíquica.

Modalidades sensoriais

A qualidade da informação que chega até nós, assim como o sucesso na troca de informação com o outro, estão diretamente condicionadas pelos sistemas de representação ou modalidades sensoriais de cada um. É a consciência das nossas modalidades sensoriais preferenciais favoritas (visual, auditiva ou cinestésica) que pode ter implicações enormes para a qualidade sobre como nos apercebemos, vemos, ouvimos, sentimos e interpretamos o mundo. A consciência das nossas modalidades sensoriais prediletas fornece-nos informação sobra a forma de como filtramos pessoalmente a informação. Para além disso, é a nossa sincronicidade com os sistemas de representação (ou modalidades sensoriais) do outro que é, em grande parte, responsável pela qualidade e sucesso da nossa comunicação. Daí a extraordinária importância do conhecimento das modalidades sensoriais. Essa consciência facilita-nos a acuidade da perceção e a qualidade da nossa comunicação.
O outro aspeto importante tem a ver com as características específicas das modalidades sensoriais (das imagens, sons, sensações) as quais são diretamente responsáveis pelas nossas emoções, de que iremos falar a seguir.

A imaginação produz emoções

A imaginação é o resultado de um estado emocional e produz, por seu lado, estados emocionais. PNL trabalha essencialmente com técnicas da área imaginativa para produzir estados. Podemos dizer que todas as nossas memórias (feitas de imagens, sons, sensações, palavras) são imaginadas a partir de acontecimentos, quer dizer, são interpretações feitas com base em distorções, generalizações e omissões.
Como as características das imagens, dos sons e das sensações são diretamente responsáveis pelos estados emocionais, as técnicas básicas em PNL consistem essencialmente em sobrepor a uma situação desconfortável as características de uma situação confortável adequada, o que vai transformar radicalmente a vivência da situação.
Encontram-se normalmente, nos livros de introdução à PNL, descrições destas técnicas que, na prática, parecem não ser assim tão fáceis de realizar para pessoas que nunca seguiram um curso oficial.
Há pequenos ensaios que podemos fazer no nosso filme mental dos acontecimentos. Muitas pessoas já o fazem naturalmente.
Podemos experimentar vivenciar uma situação vendo-nos no filme ou observando a imagem da situação sem nos vermos a nós. Podemos modificar a cor, o brilho, a localização mental aproximando ou afastando a cena, modificando o tamanho ou o movimento; podemos meter som ou tirar som, modificar o volume e o timbre; podemos deslocar a sensação no corpo e inverter o seu movimento…
Qualquer modificação na estrutura da memória (na imagem, no som…) vai inevitavelmente modificar a sensação que temos do acontecimento…

Recursos

Para realizar o que pensamos ser importante para nós é obviamente necessário adquirir os conhecimentos necessários e as competências sociais e profissionais adequadas. Em PNL damos toda a nossa atenção a um outro ponto:
Fundamental para o desenvolvimento e para o uso das competências são as convicções que temos sobre nós, sobre o que é importante e sobre o que somos capazes. Partimos do princípio que todos temos os recursos necessários para realizar o que desejamos. O problema é que não empregamos muitas vezes esses recursos. A razão pela qual não o fazemos tem geralmente a ver com as convicções limitadoras que temos sobre nós.

A linguagem verbal

Costumo afirmar nos meus cursos que o grande problema da linguagem verbal é a gente acreditar no que diz. Isto tem a ver com o que é  talvez o maior pilar em que assenta este método. O primeiro trabalho da PNL foi sobre magia, a magia da linguagem: destruímo-nos ou realizamo-nos, não pelo que somos, mas por aquilo que dizemos. Acreditamos no que dialogamos interiormente e no que nos sai pela boca, o que é muito grave, sobretudo se esse conteúdo é negativo e limitador. As palavras referem-se a acontecimentos mas são distorções, omissões e generalizações de acontecimentos.
Acreditamos que temos de fazer isto e aquilo, que se deve agir assim ou assado, que não somos capazes, que é difícil, que a culpa é dos outros, que as coisas estão mal, que a vida é feita de lutas e amarguras, que somos preguiçosos, que num dia de chuva e frio ninguém se pode sentir bem…
Tudo isto são expressões linguísticas que, pela própria natureza da linguagem, não refletem os fatos. A magia reside no fenómeno de que, ao acreditarmos no que estamos a dizer, acabamos por nos sentir assim. Muitas vezes é a linguagem que vai originar o desconforto.

Linguagem e crenças são equivalências

A maioria das pessoas não tem a mínima noção de que o que pensam sobre os outros, sobre si e sobre o que são capazes ou não, são simplesmente expressões linguísticas de crenças pessoais que nada têm a ver com verdades. A tomada de consciência permite, pelo menos, discernir o caráter limitador ou ilimitado das crenças pessoais.
Crenças que nos limitam, como as nomeadas acima, reduzem a autoimagem, caracterizam-se por complexidade aumentando a impossibilidade da sua realização, tornam-nos dependentes dos outros devido a estarem fora do nosso controlo e levam-nos a sentirmo-nos mal.
Praticamente toda a gente confunde crenças com verdades e não tem a mínima noção que essas crenças foram invenções que nós mesmos criámos e que se tornaram regras no decorrer da nossa vida. A questão é que são estas mesmas regras que nos impedem muitas vezes de usufruir da vida e realizar qualidade. Possivelmente não existimos sem crenças, a questão está na qualidade das crenças no que se refere às consequências que podem ser, para nós e para os outros, limitadoras ou ilimitadas

Valores

Os nossos valores, expressos na forma de substantivos abstratos tais como respeito, reconhecimento, lealdade, eficiência, justiça, etc., são os causadores, tanto da nossa satisfação pessoal, como fontes do nosso descontentamento. Quanto mais nos apegamos a eles mais empenho, motivação, sensação de realização e qualidade, mas também mais energia nos pode custar para os realizar. Por outro lado, quanto mais importantes são, maior o desconforto no caso da sua ausência. É por isso que disse na revista anterior que para falar dos valores, os motores inconscientes determinantes da nossa vida, precisaria de algumas dezenas de páginas.
Importante mencionar aqui é que a grande maioria das pessoas desconhece o que é importante para elas. E são estes mesmos valores que determinam o nosso grau de satisfação ou insatisfação na vida! Há valores mais importantes escondidos por detrás de valores, o que permite desilusões, mesmo após objetivos realizados com relativo sucesso. É que não era isso, mas sim algo mais importante que está ainda por detrás do valor realizado.
E há, para além disso, valores opostos dentro da mesma pessoa, valores com o mesmo conteúdo emocional, o que leva a conflitos internos e, às vezes, à impossibilidade de tomar decisões. Há ainda subtis direcionamentos na realização de valores, a sua realização ou a luta contra o que se não quer (injustiça, prisão, desrespeito, desonra…) um processo praticamente inconsciente. Neste último caso as pessoas lutam, sem ter consciência disso, contra o valor que não querem… e acabam por recebê-lo de presente.

Padrões de pensamento e comportamento

Uma das ferramentas mais poderosas em PNL para autoconhecimento e previsão de comportamentos, a que geralmente é dada nos cursos pouca atenção, é aquilo a que se chama “meta programas”. Talvez seja por esta falta de atenção que, mesmo alguns especialistas em PNL, procuram conhecer o seu perfil psicológico nos mercados alternativos.
Os meta programas medem as características psicológicas pessoais e são assim os diretos responsáveis por uma pessoa se sentir bem ou mal numa tarefa, numa relação, numa equipa, num lugar. Afirmo, com toda a convicção, que não é possível falar de qualidade de vida se não nos encontrarmos no contexto adequado às nossas preferências, aos nossos padrões naturais de pensamento e ação.
Os meta programas medem, entre outras coisas, o nosso grau de proatividade ou reflexão; de preferência por opções ou procedimentos; o grau de procura de similaridades ou diferenças; interesse no global ou na especificidade; a preferência para um pensamento em termos de conceitos, estruturas ou usos; interesse primário em pessoas, informação, atividade, coisas, lugares; trabalho sozinho ou em equipa, etc. Cerca de dezanove meta programas em inúmeras combinações. São possíveis centenas de perfis, cada um com um conjunto de variáveis preferenciais responsáveis por um ajustamento harmonioso ou não a uma situação determinada.

Alinhamento neurológico

Já foi falado anteriormente n a importância da congruência da autoimagem no quadro daquilo que se chamam em PNL os “níveis (neuro)lógicos de comunicação”.
A sensação de balanço, harmonia, qualidade, é alcançada através de um alinhamento entre os elementos mais conscientes e inconscientes do nosso ser. A sensação de significado, qualidade e realização é conseguida quando nos sentimos funcionando em harmonia nos nossos diversos papéis na vida. E não só. Os níveis (neuro)lógicos falam essencialmente da relação entre o visível e o invisível. Falam do que produzimos no mundo e daquilo de que somos capazes apoiados pelas crenças e pelos nossos valores essenciais em harmonia com a sensação mais profunda do que sentimos como sendo Nós. O modelo dos níveis (neuro)lógicos refere-se, por fim, à nossa relação com aquilo que vai para além de nós, do que sentimos como sendo o nosso significado último, a razão pela qual achamos que estamos no mundo.

O que é a PNL?

Como estudo do funcionamento da mente, a PNL oferece-nos modelos para compreender e prever as nossas sensações, as nossas reações ao mundo e o comportamento dos outros.
Possuímos, como vimos, inúmeras ferramentas que são o resultado desse estudo, ferramentas essas que nos ajudam a formular e realizar, de forma mais fácil, aquilo que é para nós realmente significativo e viver assim uma vida que possamos considerar de qualidade.
A PNL contribui para que, se o quisermos, agirmos cada vez mais a partir do que sentimos como sendo verdadeiramente nós mesmos, o nosso centro, e encontrarmos maior balanço dentro de nós e em maior harmonia na relação com os outros.
Dá-nos, por fim, consciência de que somo um sistema dentro de um sistema maior e que o balanço, a harmonia, o sentido da vida, reside nessa relação com esse todo que vai para além de nós traduzido naquilo que eu chamei aqui o nosso objetivo ou significado último, ou a nossa “missão” como se diz em PNL.
É por isso que, no meu entender, falar de qualidade de vida é responder à pergunta: “O que anda cá a fazer?” E agir de acordo com a resposta que encontrou.

José Figueira, 17/09/2012

Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook: http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/

 

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