José Figueira

PNL e prestação no desporto

Em psicologia e neurociência tem-se vindo a verificar um crescente interesse no emprego dos conhecimentos do funcionamento da mente e a sua aplicação na prestação em desporto. O que nos oferece a PNL neste quadro? Como lidar com a mente em momentos de tensão? Como evitar os efeitos da desilusão, das lesões, da derrota? Como transformar ou utilizar recordações frustrantes e limitadoras? Como criar estados emocionais positivos favorecedores da vitória? Como facilitar a dinâmica facilitadora de estados de triunfo numa equipa? Como ir ao encontro dos elementos de motivação de um atleta particular ou de uma equipa? Estas são algumas das perguntas que se colocam quando pensamos neste tema.

Coaching mental no desporto

Já nos jogos olímpicos clássicos, nas suas lutas de vida e morte, os atletas eram mentalmente motivados pelos governantes a serem um exemplo para o povo. Coaching mental nos nossos tempos assume aspetos como lidar com as tensões durante a competição, manter a focalização e a motivação tanto durante a vitória como na derrota, prevenção de lesões, criação de flow, neutralização de crenças limitadoras, manutenção do espírito de equipa, criação de rotinas, sintonização de objetivos individuais com os objetivos do grupo, etc.

A relação mente e corpo

O que distingue um atleta de sucesso é a sua “mentalidade”. O corpo obedece diretamente às construções da mente. Sem representações adequadas ao sucesso, o corpo não responde como deveria. O corpo reage imediatamente a uma dúvida, à imagem que se tem do adversário, à representação que se tem de si mesmo. As representações internas criam um estado, sensações e emoções, e são estas sensações e emoções que determinam em grande parte o sucesso e o fracasso.

Um exemplo entre muitos

Em 2002 Bibian Mentel era uma candidata com grandes possibilidades de conquistar ouro nos jogos olímpicos em Salt Lake City até que foi descoberto um tumor na perna direita que levou à amputação. Quatro meses depois já Bibian, com toda a sua paixão por ski e surf, deslizava sobre as águas. Meses mais tarde era, pela sexta vez campeã da Holanda. Trabalha e viaja por todo o mundo como manager de atletas para a Red Bull, é diretora de uma escola de surf e fundou a Mentelity Foundation onde mostra que um handicap não é necessariamente um impedimento para uma prestação de valor. Em 2009 foi campeão do mundo de surf, na Nova Zelândia, nos paralímpicos.

Lidar com representações mentais

O que faz a grande diferença em PNL é o ensinamento muito simples de como construir as representações adequadas à realização do objetivo que se pretende. Isso faz-se através do manusear das características das representações, ou seja, das submodalidades sensoriais das imagens, sons e sensações corporais que a mente produz: cor, tamanho, distância, movimento, volume, timbre, cadência, temperatura, peso, etc. Uma atividade desportiva de sucesso tem outras características mentais que uma atividade fracassada. Em Pnl estuda-se e trabalha-se com essas estratégias mentais.

O poder da visualização

Walter Herman que se intitula “arquiteto de aprendizagem”, conta que John Grinder, o coautor da PNL, aprendia um novo desporto de 6 em 6 meses. Em dois ou três meses conseguia dominar as competências que normalmente exigem dois ou três anos de trabalho. John Grinder utilizava a técnica de aprendizagem da PNL, a chamada modelagem: procurava especialistas na área, investigava como pensavam, o que viam, ouviam, sentiam, em que acreditavam, o que faziam e repetia tudo isso mentalmente. Não basta agir. A repetição mental vai influenciar diretamente as funções motoras necessárias e isso facilita grandemente a aprendizagem.

Acreditar e agir

Um viajante chegou à margem de um rio e um barqueiro preparou-se para o atravessar para a outra margem. Era um barco a remos e havia em cada remo uma inscrição: num estava escrito “acreditar”, no outro, “agir”. Intrigado o viajante informou-se sobre o significado.
O barqueiro era pessoa de poucas palavras e começou a remar com um remo. Claro que o barco começou a dar voltas sem sair do lugar. Então fez o mesmo com o outro remo, com o mesmo resultado. Empregando então os dois remos, chegou facilmente à outra margem.
O viajante não fez mais perguntas durante a travessia.

Vencer de antemão

Tal como se pode dar de antemão uma chance ao adversário ao projetarmos no futuro pensamentos e sensações de perigo, inferioridade, derrota, também podemos instalar no futuro construções mentais que nos facilitem a vida e o sucesso. Se há uma capacidade que todos possuímos, é a de viajar no tempo, não só ao passado como ao futuro. Os significados que tiramos das memórias do passado determinam o nosso presente e o futuro. As construções que criamos sobre o futuro são profecias auto realizáveis. São tudo construções mentais. Em PNL pensa-se que a melhor forma de assegurar o sucesso é “instalar” memórias de sucesso na nossa “linha do tempo” no futuro.

Criação automática de estados

Outra ferramenta inestimável para prestação no desporto é a chamada “ancoragem”. Consiste na criação de uma ligação automática entre memórias com um conteúdo emocional de sucesso e um estímulo externo ou interno (uma imagem, um som, um gesto, um toque, um cheiro…) No momento em que este estímulo é acionado, o atleta entra imediatamente no estado de recurso adequado para a competição. É comum observarmos um desportista na execução de um ritual pessoal como preparação para a criação de um estado de recursos. São, sem que tenha totalmente consciência disso, as suas âncoras pessoais.

O estado emocional é tudo

Steve Gurney, 9 vezes campeão da travessia de costa a costa na Nova Zelândia, conta que numa modelagem feita entre vencedores de medalhas de ouro ao nível olímpico, nos Estados Unidos, se descobriu que os que repetiam o sucesso como vencedores, não eram aqueles que se concentravam em ganhar e ter dinheiro. Os vencedores eram os que se concentravam em competir com facilidade e despreocupação, de forma divertida e com paixão no desporto.

Motivar os outros

Motivar um desportista exige um conhecimento profundo daquilo que o move. Os motores da motivação são essencialmente os valores e a forma como se está direcionado para a sua realização. Faz uma grande diferença se se quer saborear a vitória ou evitar a dor da derrota, o que exige um tipo distinto de comunicação. Assim também são importantes os traços psicológicos do desportista, o seu perfil motivacional. O coach ou o líder de sucesso conhece as aspirações e as tendências psicológicas naturais dos desportistas com que trabalha.

Palavras de um coach mental

Bouke de Boer, coach mental, entre outras, da seleção holandesa de hóquei, figura pública, escritor, diretor do NTI NLP, o Instituto Holandês de PNL a que estamos associados, em entrevista a um jornal diário:“Sou um mensageiro e tenho uma filosofia de vida que quero espalhar. Apresento-me sempre aos outros a partir da minha alma e dos meus motores mais profundos. Estou aqui para espalhar o amor, a paz e o respeito. Para fazer isso é necessário percorrer o caminho para o interior. Especialistas em coaching, atletas, desportistas olham, penso eu, ainda muito pouco para dentro de si. Acho que cada coach no mínimo, algumas vezes durante o ano, deveria ver-se ao espelho. Há muito a ganhar com isso, tanto no mundo do desporto como nas empresas”.

Desporto e espiritualidade

Muitas pessoas não associam desporto com espiritualidade. No entanto é evidente o seu caráter espiritual e meditativo. Disciplina, focalização, repetição, congruência de ação e processos mentais, são precisamente os elementos básicos em meditação. Atletismo, natação, ciclismo, alpinismo, golfe, ténis, equitação, futebol, halterofilismo … qualquer treino exige repetição de movimentos, cadência, transe, ultrapassar-se. E claro que tudo isto não tem lugar unicamente ao nível físico, corporal. Êxito em qualquer atividade e, em mais do que todas, na prestação desportiva, a identificação total com o momento, o aqui e agora, desprovida de elementos perturbadores do passado, mas também de medos e ilusões do futuro, é essencial.

José Figueira

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