José Figueira

Era uma vez um menino da cidade, arranjadinho, com popa e brilhantina, de visita aos avós, tios e primos, numa vila no meio do Alentejo.
Foi aí que sentiu, pela primeira vez, os olhares curiosos e invejosos caírem sobre ele, ele era o menino da cidade. Foi então que sentiu o incómodo, talvez pela primeira vez: responder a um olhar para corresponder a algo que ele desconhecia.
O menino da cidade brincava às escondidas e ainda hoje ele não sabe, se queria ou não queria que o encontrassem.
Era uma vez um menino da cidade que admirava os primos ágeis, livres, espontâneos, alegres, que o admiravam e viam nele um sonho que ele não compreendia… e que mais tarde todos vieram a realizar nos subúrbios da grande cidade. Sonhos realizados? Desilusões?
Era uma vez uma experiência, a experiência única do silêncio na planície quieta e quente, debaixo de um sobreiro, ao longe o tilintar de um chocalho vindo dos confins não sei de onde, perdido nas memórias de significados.
Era uma vez um menino perdido no burburinho das cidades, Paris, Londres, Bruxelas, Amesterdão, Lisboa, procurando, de novo, o silêncio. A cada minuto, procurando o silêncio, e nessa procura, cada vez mais emaranhado nas teias das imagens, dos sons, das sensações do mundo.
Encontrando, por aqui, por acolá, um vislumbre daquilo que as palavras não podem pronunciar… e perguntando-se: o que é que as pessoas vêem quando olham? E foi assim que ele fez disso o seu fascínio.

O QUE SÃO METÁFORAS

Podemos definir metáforas como histórias, parábolas, alegorias, provérbios, mitos, contos, anedotas, comparações em que as imagens evocam associações de ideias, memórias, sensações.
Estas histórias contornam, por assim dizer, a mente consciente e através delas são enviados estímulos que levam à busca de processos internos e significados ao nível do inconsciente.

As metáforas podem, desta maneira, influenciar a nível profundo podendo, por isso, ser usadas para transformação e instalação de crenças e estimular comportamentos.

SOBRE A EFICÁCIA DAS METÁFORAS

A eficácia de uma metáfora funcional, usada em coaching ou terapia, está em relação directa com o problema a que se refere. Terá de ter uma estrutura semelhante. Oferece uma experiência tal que a pessoa que lê ou ouve a metáfora possa mergulhar dentro de si e encontre consciente ou, sobretudo, inconscientemente, uma resposta adequada ao seu problema.

Não me parece interessante que seja dada uma solução específica ou de carácter comum, nem sejam tiradas conclusões ou dadas explicações como às vezes se faz, mas sim que a metáfora seja vaga, ofereça experiências universais e pistas de desbloqueamento, uma passagem ao movimento.
O “cliente” pode abrir-se assim, sem resistências, a novas escolhas. As soluções devem portanto ter um carácter generalista.

A BORBOLETA

A borboleta luta desesperadamente pela liberdade.
Numa sala tranquila, uma música agradável. E uma borboleta… uma borboleta tentando sair da sala para o espaço exterior. Impede-a o vidro da janela. Ela tenta e tenta inutilmente atravessar o vidro, tarefa impossível.

Fá-lo uma vez e outra e outra. Arduamente. Uma luta desnecessária. O vidro está lá. Uma luta que acabará com a sua morte.

Uns dois metros mais ao lado há uma janela aberta. Que estranho! A liberdade pode ser alcançada sem o mínimo esforço. Mas a borboleta, desta maneira condenada à morte, permanece na árdua tarefa para encontrar ali, naquele lugar, naquela janela fechada, uma passagem para a vida.

ISOMORFIA

Esta característica das metáforas em poder estabelecer uma relação entre uma história simbólica e a experiência subjectiva, chama-se “isomorfia”. Uma metáfora isomórfica, altamente utilizada com fins terapêuticos dentro e fora da PNL, descreve de forma simbólica a situação problemática ou características do cliente.
Após a identificação do problema de um cliente e da sua situação contextual, estrutura, script, característica pessoal, personagens implicadas, há que encontrar uma situação e personagens isomorfas. Depois é acomodar tudo isso numa história que disfarce a intenção, precisamente para evitar intromissões da mente consciente. E dar soluções tais que ofereçam a possibilidade ao cliente para insights pessoais e para encontrar dentro de si novos caminhos para realizar a sua vida.

UM EXEMPLO CÓMICO DE ISOMORFIA

O exemplo seguinte de uma metáfora isomórfica, foi extraído do livro “Antídotos Práticos para Problemas sexuais e de Relacionamentos”, de Leslie Cameron-Bandler.

A descrição do problema

Ao que parece a promiscuidade está fazendo de Dot perder o marido e a sua própria auto-estima. É que Dot não resiste à tentação dos outros homens, acha mais excitante o sexo fora do casamento, está insatisfeita com suas relações sexuais conjugais. Por outro lado, cada experiência extraconjugal gera mais culpa e aumenta a possibilidade de Dot perder o marido. A culpa de Dot torna-se tão dolorosa que ela tem de fazer algo a esse respeito. Tem mesmo insónias. Dot nunca desenvolveu comportamentos sexuais satisfatórios com o marido.

A metáfora encontrada

Era uma vez uma mulher a caminho da obesidade, uma mulher que não consegue resistir a sobremesas e pratos tentadores quando come fora. É uma mulher que adora comer fora, mal toca na comida que faz em casa. Cada vez que come fora a mulher fica mais gorda.

A mulher gorda tem de tomar alguma providência quanto aos seus hábitos. Já não há roupa que lhe sirva.
A mulher gorda nunca aprendeu a cozinhar bem para si mesma.

A solução proposta pelo terapeuta

É necessário que Dot aplique a sua energia no desenvolvimento de experiências sexuais satisfatórias com o marido, que encontre a satisfação necessária em casa a fim de se poder orgulhar de sua relação conjugal e encontrar satisfação sexual com o marido.

A solução metafórica

A mulher dedicou-se a reorganizar a cozinha e os seus hábitos culinários. Começou a ler livros de receitas para escolher pratos apetitosos, e começou mesmo a experimentar refeições saudáveis e satisfatórias.

Com o tempo, mais rápido do que se imagina, descobriu que não havia nos restaurantes nada de comparável às suas refeições caseiras e perdeu até a vontade de empanturrar-se em outros lugares, satisfazendo-se em casa. Agora esbelta, esta mulher outrora gorda, orgulha-se muito das suas habilidades culinárias, bem como da sua figura.

DESAJUSTAMENTO SEXUAL

Possivelmente que a Metáfora anterior foi inspirada de Milton Erickson, talvez a partir desta consulta:

Uma vez um casal visitou o Dr. Erickson para uma terapia. Tratava-se de um problema de desajustamento sexual. O problema surgia do facto de o marido querer passar logo ao “acto” e a mulher querer empregar mais tempo nos “preparativos”. Depois de ouvir o problema apresentado, o Dr. Erickson mudou de assunto e falou de outras coisas. Só perto do fim da sessão, Erickson deu ao casal uma tarefa: – planear e cozinhar uma refeição em conjunto, cabendo ao marido o papel de preparar a entrada e, à mulher, o prato principal. Depois de preparada a refeição, o casal tinha de saboreá-la juntos.

O PAPEL DAS METÁFORAS EM PNL

O grande papel desempenhado pelas metáforas nesta metodologia deve-se a Milton Erickson, considerado por alguns como o maior Hipno terapeuta de todos os tempos. Este psiquiatra inovador, empregava regularmente metáforas nas suas consultas. Desde o início, David Gordon, inspirado por Milton Erickson, contribuiu imenso no desenvolvimento da PNL e, sobretudo, no emprego das metáforas terapêuticas.

Nos conceitos fundamentais sobre aprendizagem e transformação em PNL, é atribuída uma importância enorme ao papel do inconsciente e à criação de estados emocionais positivos favorecedores da aprendizagem. Ora as metáforas preenchem estes dois papéis essenciais.

Qualquer trainer profissional de PNL é formado precisamente na utilização de metáforas e é natural sermos confrontados em formação, coaching e terapia, com estas técnicas. O grau de refinamento atinge, às vezes, o emprego de metáforas dentro de metáforas (metáforas cruzadas) que correspondem aos diversos subtemas do assunto tratado.

A MAIOR DÁDIVA

Qual é a maior dádiva que pode dar a si mesmo? Não sei. Mas tenho uma pequena sugestão:

Imagine que está sentado aos pés da sua cama. Nessa cama está uma criança, uma criança que você conhece como os dedos das suas próprias mãos. Essa criança está ávida do seu carinho e das suas palavras. Dê-lhe um brinquedo. Algo que você sabe que vai para ela, fazer a grande diferença.

Imagine essa criança envolta numa nuvem de carinho, de colo, de amor, de ternura…
E então conte-lhe, conte-lhe a história mais importante da sua vida, conte-lhe nas palavras que só você pode contar, de uma forma que ela pode entender, numa tonalidade doce, quente, conte-lhe o que ela nunca ouviu, o que ela precisa de ouvir para poder crescer, de novo, feliz, na vida, agora aproveitando das suas próprias experiências.

Diga-lhe, ouse dizer o que nunca disse, ouse mostrar-lhe as coisas que são dignas de ver… Aquilo que ela nunca tinha visto, nunca tinha ouvido, nunca tinha sentido…

E depois, agora sim, ela pode crescer de novo, usufruindo dos conhecimentos da sua própria experiência de vida…
Ofereça a si-mesmo a maior dádiva do mundo…

METÁFORAS E IDENTIDADE

A maioria das pessoas define quem é a partir de comportamentos, competências, papéis sociais, traços de carácter, características emocionais. Isso é uma redução que implica uma visão muito fragmentada de si e que se reflecte na auto-imagem. Convido geralmente as pessoas a definirem-se a partir de metáforas. Para isso emprego, inspirado em David Grove, um dos grandes inovadores e praticantes do emprego de metáforas em coaching e terapia, a frase: – eu sou como… As pessoas criam então, de forma inconsciente, símbolos metafóricos sobre si, símbolos que falam de rios e pedras no caminho e mares tempestuosos, e penas que voam ao sabor dos ventos ou árvores numa planície deserta, ou avestruzes ou javalis perseguidos, ou aves frágeis perdidas nas alturas ou voando em liberdade sem rumo… são inumeráveis os exemplos…

A pessoa é a metáfora que ela conta a si mesma.
Aconselho, por isso, as pessoas a escolherem sempre, com cuidado, a sua metáfora de vida.

MODELAGEM SIMBÓLICA

A modelagem simbólica, criada por James Lawley e Penny Tompkins é um método que ajuda as pessoas a familiarizarem-se com a organização das suas paisagens inconscientes construídas de símbolos e metáforas, de tal modo que elas descubram novas maneiras de se perceberem a si mesmas e ao seu mundo.

Nessa exploração são utilizadas as perguntas da Linguagem Pura, desenvolvida por David Grove, perguntas desprovidas de conteúdo, que não contaminam e não influenciam a história do cliente e que facilitam as pessoas a prestarem atenção às suas expressões metafóricas e assim conseguir criar um modelo das percepções simbólicas da sua mente e corpo. O coach ou terapeuta indaga parafraseando o cliente e ajuda-o a explorar exaustivamente o campo simbólico das suas experiências.

A pouca prática que tenho com este método com base na PNL mostrou-me o processo fascinante do fluir da representação simbólica, tal como no sonho, sem que eu nem o cliente tenha, por vezes, uma noção consciente do que se passa, mas desaguando num momento que defino como uma espécie de insight intuitivo libertador no cliente.

INÚMERAS APLICAÇÕES

As metáforas podem servir para captar a atenção, clarificar um assunto, activar recursos inconscientes, inspirar, ajudar na solução de um problema, criar um ambiente, neutralizar um pensamento limitador, pôr em questão um assunto menos fácil, vencer resistências, criar uma expectativa, activar a criatividade, ajudar nos processos de transformação, induzir transe, desviar a atenção da mente consciente, prazer…

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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