José Figueira

Num momento em que o mercado é invadido por ofertas de formação em coaching, muitas pessoas interrogam-se sobre a relação PNL e coaching e sobre o valor e qualidade das formações. Muita gente espanta-se também com as diferenças em duração e preços e uma óptima pergunta é a que é feita sobre o valor das certificações. O que se segue, certamente não dará resposta a estas questões pertinentes. Encontrar-se-ão apenas algumas considerações pessoais sobre o assunto.

O GRANDE SEGREDO EM COACHING

Independentemente da metodologia empregue, o sucesso de uma intervenção está directamente ligado ao estado emocional interno do coach, o responsável pela intervenção. Isto significa que, essencial em coaching, e também em qualquer relação de acompanhamento ou ajuda, o estado emocional funcional para a situação é o responsável directo pela ajuda, pelos resultados obtidos e pela transformação do outro. O chamado em PNL “estado emocional de recursos” deveria, por isso, estar central em qualquer curso. Ora isso significa que os processos pessoais de “autodescoberta e crescimento pessoal” são, no meu entender, o honesto pilar à volta do qual qualquer formação gira.

O MAIOR DOS PRESSUPOSTOS

Se há uma convicção básica, essencial para os “salvadores”, seja dentro da disciplina específica do coaching, seja em PNL, seja para os facilitadores de constelações, psicólogos clínicos, ou para quaisquer intervenções de inspiração new age ou não, uma convicção que pode, no meu entender, servir de fundamento para o suporte, respeito, estabilização e crescimento de um cliente, é esta:

– as pessoas têm já dentro de si todos os recursos para entrar em movimento na direcção da realização dos seus próprios objectivos.
O cliente faz o trabalho. Sabe fazê-lo. É capaz de o fazer.

COACHING PARA TODA A GENTE

Tal como no Brasil há pátios de candomblé em cada beco, o coaching é oferecido agora, por toda a parte e de forma variada, cada vez que abrimos o computador. Estamos a caminho, penso eu, de um salto qualitativo nas relações humanas. Há anos que tenho vindo a chamar a atenção para duas formas de comunicação: a “conversa de café” e a “conversa de coaching”. Na “conversa de café”, que pode ser muito aprazível, significativa e afectuosa, choramos juntos as “desgraças” do mundo. Um diz, por exemplo, que não tem trabalho e o outro diz que não há nada a fazer pois a culpa é da crise. Na “conversa de coaching” fazem-se, pelo contrário, perguntas que têm como fim ajudar o outro a tornar-se responsável pelo seu próprio destino e tomar nas mãos as rédeas da sua vida.
Que bom seria pois se toda a gente tirasse cursos de coaching! Há necessidade de ainda muito mais coaching, acessível às massas, a começar no jardim-de-infância:

Coaching para toda a gente!

Sinto que o Coaching não deveria, no meu entender, ser visto como uma profissão. Coaching é, como a PNL, uma maneira mais funcional de comunicar. O que conta é a felicidade interna, a qualidade das relações, o apoio mútuo na criação de uma vida mais significativa e a contribuição para um mundo melhor. Não troquemos o essencial por uma busca ilusória que possa vir a ser realizada através de certificados.

OBJECTIVOS NO COACHING

Claro que podemos fazer classificações sobre os diversos tipos de objectivos a conseguir com o coaching e caracterizar diversos tipos de coaching e intervenções.
Em geral, uma intervenção, em grandes linhas, seja ela qual for, não tem como fim realizar o significado da vida, obter sucesso e excelência e outras destas coisas denominadas em PNL como “nominalismos”.
O que se pretende em coaching, no meu entender, tal como em PNL, é aprender como podemos sair de estados indesejáveis e criar estados funcionais que nos ajudem então a aproximarmo-nos cada vez mais dos nossos objectivos. Chegar ao Estado Desejado.

METÁFORA

Há um cocheiro (coach) e uma carroça (o coche). Um viajante pode a qualquer momento tomar lugar na carroça e deixar-se conduzir a qualquer parte pelo cocheiro que tem o controlo sobre o trajecto e os cavalos e sabe levar o viajante ao seu destino.
Mas em qualquer momento o viajante pode sair da carroça, procurar outro cocheiro, até seguir o seu caminho sozinho,
O cocheiro está ao serviço do viajante. A sua única preocupação deve ser levar o viajante ao destino que este determinou. Mas o cocheiro também deve ter o sentido da sua própria responsabilidade e recusar o viajante que quer ser levado a um lugar que sente não ser ecológico para si. E também deve ser sério o suficiente para aconselhar o viajante a tomar lugar na carroça de um colega se essa carroça lhe parecer mais adequada ao destino do cliente.
Nada de novo. Afinal de contas, 24 horas por dia conduzimos a nossa própria carroça. E de manhã à noite, cada um de nós passa pelo papel de cocheiro e cliente. O coaching torna-nos mais conscientes do processo, o que nos facilita o poder de o influenciar positivamente.

TRANSFERÊNCIA E CONTRA-TRANSFERÊNCIA

O coachee encontra-se numa situação mais fragilizada, é influenciável, necessita afecto e segurança, vê e sente muitas vezes o coach como o pai ou a mãe. A isto é dado o nome de “transferência”. Se, por um lado, esta situação pode facilitar o processo, pode também criar uma relação de dependência que é precisamente o oposto ao que se pretende no coaching.
O coach, por sua vez, é humano, e precisa ter passado pelos mesmos problemas na vida para poder estabelecer a ligação. Se não tiver resolvido suficientemente os seus próprios problemas pode, por assim dizer, “alimentar-se” da atenção, admiração do coachee. Dizemos então que o coach se encontra numa situação de “contra-transferência”. Neste caso, numa relação aparentemente profissional, o coachee paga para o coach realizar os seus desejos infantis. Por isso mesmo parece-me essencial, repito-o aqui de novo, em qualquer curso, dar muita atenção aos processos pessoais e este processo de autoconhecimento e crescimento é a principal constante na vida de um coach.

O PROCESSO RELACIONAL

O coach profissional relaciona-se com o coachee na 2ª posição perceptiva, entrando, por assim dizer, na sua pele. Sente no seu corpo, na 1ª posição perceptiva, a questão do coachee, que foi, um dia, também a sua (ou, pelo menos, está consciente dela). Ele sente e percebe o outro e sente e percebe-se a si na 3ª posição e toda a sua experiência e os seus conhecimentos podem, em seguida, começar a fluir na forma de intuições.
Ele age ligado ao seu centro e há então, contacto. Dentro de si joga-se um processo entre “associação” e “dissociação”. O caminho do coach no seu processo de autoconhecimento e crescimento, no que diz respeito a relações sociais, é o caminho de cada um de nós, da infância ao ser adulto: associado e dissociado. As grandes ciladas no processo do coach residem aí: na minha experiência tenho encontrado, sobretudo, muitos coachs perdidos no processo, associados, devido a ainda não terem resolvido os seus próprios problemas. Em alguns casos, que não são poucos, e o que é ainda mais grave para a relação, o coach não tem consciência dos seus próprios processos internos.

AS FERRAMENTAS DA PNL

Embora nos últimos anos se tenha desenvolvido toda uma metodologia que se auto caracterizou de coaching, desde a sua invenção, nos anos 70, que em PNL não se faz outra coisa. A história da PNL é a história do desenvolvimento de ferramentas para ajudar as pessoas a fazerem o trajecto de um Estado Actual para um Estado Desejado, partindo sempre do princípio que “todos temos os recursos dentro de nós” para nos pormos em movimento na direcção da realização dos nossos objectivos. Assim encontramos em PNL ferramentas para lidar directamente com as representações mentais, responsáveis pelos nossos estados emocionais e comportamentos; encontramos todo o processo essencial para qualquer intervenção – a criação do yes set; tomamos conhecimento com a forma sistemática de fazer perguntas e que já vem dos anos 70 no seguimento da modelagem de Virginia Satir; conhecemos padrões linguísticos para influência máxima estudados a partir dos trabalhos de Milton Erickson; exercitamo-nos em flexibilidade e visão abrangente através da exploração de posições perceptivas; aprendemos sobre investigação e transformação de estratégias mentais; sobre investigação e transformação de valores e crenças limitadoras; possuímos técnicas específicas para transformação emocional da história pessoal para a tornar mais adequada na realização de objectivos pessoais; etc., etc., etc.

Importante salientar que em PNL não prometemos mundos e fundos, nem paraísos. Trata-se de aprender a lidar com o bom e o mau, a luz e a sombra, a alegria e a tristeza, a inquietação e a paz… Trata-se de aprender a sair de estados emocionais indesejáveis e criar estados mais funcionais.

COACHING E PNL DE MÃOS DADAS

Claro que nunca nos poderemos cingir em coaching profissional com PNL a conhecimento da estrutura de uma intervenção, a intervenções com perguntas direccionadas à ajuda na realização de objectivos, criação de empatia, um conhecimento sumário de âncoras e exploração superficial de valores, planos de acção ao nível do comportamento, etc. Seria mutilar a PNL. A Programação NeuroLinguística é, por excelência, uma metodologia com uma riqueza de técnicas que vão desde a formulação de objectivos, a estratégias de concretização, ajuda na neutralização de bloqueios, negociação com aspectos opostos da personalidade, reenquadramento de memórias na linha do tempo, etc. A crítica que internacionalmente é, por vezes, feita a muito coaching reside precisamente no escasso conhecimento do coach no emprego de técnicas de transformação.

A PNL oferece, pois, ao processo de coaching, um gigantesco número de ferramentas internacionalmente provadas nos seus anos de existência, ferramentas essas de uma grande eficiência que ajudarão a elevar o nível profissional de qualquer coach.

José Figueira, 10 de outubro de 2011

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