José Figueira

Tudo é comunicação. O ensino é comunicação e o sucesso do ensino depende da qualidade da comunicação. Assim, seria estranho se a PNL, uma ciência e arte que nos ensina a comunicar melhor, não oferecesse um manancial de ferramentas que pudessem ser postas directamente ao serviço do ensino e da aprendizagem. Certa crise no ensino, manifesta no desinteresse de alunos, desmotivação e sensação de impotência dos professores, pode ser explicada de forma simples pelos axiomas da Programação NeuroLinguística. Também, de forma simples, a PNL pode ser aplicada para a melhoria das relações e eficiência do ensino, ao serviço do desenvolvimento das crianças e dos jovens. Há um senão. É que pode exigir, para muitos, uma transformação de paradigma na maneira como vemos, sentimos e percebemos o ser humano e a forma como se aprende.

Embora seja sempre urgente a melhoria da estrutura que sustém o ensino, outra condição é a responsabilização do professor pelo sucesso dos seus alunos, independentemente de condições sociais ou políticas adversas. E talvez que a condição mais básica para que possa existir mudança, seja partir do pressuposto que o ser humano deseja ser respeitado e ser feliz.

Se a escola (a empresa, a organização social) estiverem em estado de realizar essa sensação nas pessoas, então haverá mais sucesso. Caso contrário, seja criança ou adulto, tudo fará para, à sua maneira, realizar aquilo que o leve a sentir-se o melhor possível, muitas vezes de forma disfuncional e até sabotando a ordem estabelecida.

ENSINO E LINGUAGEM

Ainda há muita gente, dentro e fora do ensino, que não tem consciência suficiente dos efeitos da linguagem que emprega. Desde a tenra infância que nos habituámos a ser corrigidos e castigados em vez de premiados. E, se não estivermos alerta e bem conscientes disso, repetimos naturalmente o que aprendemos. Toda a linguagem de natureza negativa pode provocar, desânimo, desistência, resistência ou, mesmo que os resultados sejam socialmente correctos, acabar com efeitos stressantes. Já para não falar nas consequências para a auto-imagem que a pessoa, sob o efeito de padrões linguísticos negativos, vai carregar consigo o resto da vida.
Faz uma grande diferença acentuar o que o aluno fez mal ou o que fez bem. Tem um enorme impacto o uso do “ter de” e do “dever” e do “tentar” em vez do “querer” e do mundo das “possibilidades” ilimitadas.
Em PNL é dada uma atenção muito especial aos efeitos da linguagem. Há ferramentas para neutralizar padrões linguísticos de natureza negativa (o chamado Modelo Meta), mas também padrões que têm explicitamente como objectivo activar a potencialidade ilimitada de recursos em nós (o chamado Modelo Milton). Para além disso há todo um arsenal para transformar o quadro de observações limitadoras em perspectivas construtivas (Reenquadramento).
A visão em Programação NeuroLinguística sobre o Bem e o Mal, o correcto e o incorrecto, é expressa na expressão linguística: “Errar não existe, só existe feedback”.

APRENDIZAGEM E PREFERÊNCIAS SENSORIAIS

Por mais estranho que pareça, o conhecimento sobre as preferências sensoriais das pessoas, ainda não é comum no ensino. As pessoas com uma preferência maior num sistema, aprendem utilizando esse sistema. As pessoas de preferência sensorial visual aprendem através de imagens. Ainda há professores que dizem às crianças para não olhar para o tecto, enquanto para estas crianças, é precisamente “lá” que elas estão a “ver” o assunto. Crianças de preferência cinestésica, cuja característica é o movimento, estão condenadas a permanecer sentadas. As auditivas são as que escutam a lição, aquelas para quem o assunto tem de ser contado.
Certamente que há diversas variáveis que facilitam a aprendizagem, mas acontece muitas vezes que a criança de sucesso numa disciplina é a que teve a sorte de ter o mesmo sistema de representação mental sensorial que o professor. O professor, inconsciente dos diversos tipos de sensoriais de como é processada a informação, explica o assunto (sempre da mesma maneira) no tipo de linguagem sensorial que lhe é querida. Pode torna-se assim, ele mesmo, a origem do “fracasso” do aluno. Acho que, mesmo que só se tenha a consciência do papel dos sistemas de representação sensorial na aprendizagem, só isso em si mesmo, já contribuiria para muita sala de aula diferente.
Para além disso há inúmeros outros factores a ter em conta e que determinam o sucesso do ensino. Há, por exemplo, características psicológicas que pedem uma maneira específica de ensinar. No meu entender, nem são precisas classes mais pequenas, nem mais dinheiro, para ter em conta as características individuais de cada aluno. É sim necessário que os professores desloquem a extrema atenção no conteúdo, para a forma de aprender. Há que respeitar e conhecer as pessoas e suas características próprias em vez de as massificar. Não exige necessariamente salas de aula mais pequenas, exige sim outras formas de ensinar.

APRENDIZAGEM, ENSINO E CONVICÇÕES

Digam a um professor que vá fazer um exame oral a uma classe de crianças com um alto quociente de inteligência e a uma classe em que o grau de inteligência é muito baixo. Gostaria que alguém fizesse esta experiência obedecendo a critérios científicos de precisão. Gostaria que alguém falsificasse a hipótese que a convicção do professor sobre os alunos e a classe influencia significativamente os resultados.
Em PNL damos uma atenção cuidada ao papel das convicções. Quais são as convicções que o aluno já criou sobre si e as suas capacidades, no decorrer da sua educação, em casa e na escola?
Partimos da premissa que todos os seus resultados e toda a sua vida vai ser em grande parte o resultado directo das crenças que leva da infância. Uma convicção limitadora sobre si vai tornar-se numa profecia auto-realizável. Parece-me bem questionarmo-nos sobre qual é, então, a atenção que é dada na escola ao papel das convicções nos resultados do aluno?

ALGUNS DOS PRESSUPOSTOS (convicções) DA PNL

  1. Respeite o modelo do mundo de cada pessoa
    2. O significado da comunicação é a resposta que se obtém
    3. Corpo e mente influenciam-se um ao outro, são uma unidade cibernética
    4. O mapa não é o território (as palavras que empregamos não são os acontecimentos ou assuntos que representam)
    5. A informação mais importante sobre alguém é o seu comportamento
    6. O comportamento é transformável e o comportamento actual é a melhor escolha que se tem no momento
    7. O comportamento de alguém não é a pessoa (aceite a pessoa, transforme o comportamento)
    8. As pessoas têm todos os recursos de que necessitam para ter sucesso (não há pessoas sem recursos, há pessoas que não empregam os seus recursos)
    9. Sou o dono da minha mente e portanto dos meus resultados
    10. O sistema (a pessoa) com o comportamento mais flexível dominará o sistema, quer dizer, quanto mais escolhas mais efectivo é o modelo do mundo
    11. Errar não existe, só existe feedback
    12. Resistência num ´cliente´ é sinal de falta de “rapport”. Não há clientes de má vontade, há sim comunicadores inflexíveis
    13. Todos os procedimentos devem ter como fim aumentar as possibilidades de escolha
    14. Todo o comportamento e toda a transformação devem ser avaliados em termos de contexto e ecologia
    15. Tudo tende novamente para a união e para que se torne uma totalidade em nós
    16. É assim, as coisas são como são (não se trata de resignação, só a partir daí a mudança é possível)
    17. Recebemos de volta aquilo em que nos focalizamos (dirija-se portanto àquilo que quer, e não ao que não quer)
    18. Percepção é projecção
    19. Convicções determinam resultados
    20. Toda a aprendizagem, comportamento, transformação, são de natureza inconsciente
    21. Funcionalidade é mais importante que verdade
    22. Toda a experiência tem uma estrutura e esta estrutura é transformável
    23. Generalizações são “aldrabices” (e podem ser muito limitadoras)
    24. Organizamos a nossa representação imaginária do mundo através da linguagem
    24. Cada um é livre de tirar as suas próprias conclusões (que podem ou não ser ilimitadas ou limitadoras)
    25. Representamos o mundo através dos nossos sentidos
    26. Um indivíduo é um aglomerado de “partes”, muitas vezes em conflito
    27. “Ser capaz de” é uma questão de estratégia
    28. Todo o comportamento tem uma intenção positiva, é tudo uma questão de encontrar o comportamento adequado para realizar a intenção

O DESAFIO DA EDUCAÇÃO

… E educação, por ser a essência da minha formação, é o modelo que acredito, ser capaz de transformar o mundo que desejo ainda viver!
Professores têm nas mãos crianças como essa da foto, cheias de sonhos e esperanças…
E os sonhos nada mais são do que espaços de aprendizagem… a escola, família, igreja podem desenvolver ou aniquilar esses sonhos… O que você quer que façam com os sonhos dos seus filhos??? (Ana Maria Magni Coelho)

SOBRE O SIGNIFICADO DA MATÉRIA ESCOLAR OBRIGATÓRIA

Qual é a importância do que é obrigatório aprender, num determinado contexto escolar e num determinado momento da vida da criança, do aluno, do estudante? Qual é o significado da matéria, não para o conselho de especialistas num ministério, mas para as pessoas de carne e osso na sala de aula?
Será que vêm, sentem, se apercebem da importância específica de um assunto? Como lhes soa o significado?
Em termos de PNL, o valor do que se vai aprender é de crucial importância. As pessoas só aprendem o que tem significado para elas. Este significado é igual à emoção sentida com o assunto. A sensação, o estado, a emoção, são factores essenciais que tornam possível a aprendizagem.
Diz-se, em neurociência, que as pessoas aprendem mais se o que se aprende for neurologicamente associado a sexo, qualquer situação excitante ou a qualquer outra experiência de ordem emocional. A emoção está na base da vida, da sensação, do pensamento, da acção. Sem emoção nada tem sentido. A emoção direcciona o interesse da criança, do aluno, do estudante, de qualquer adulto.
E qual é a importância dada então na escola à emoção, a não ser, muitas vezes, negá-la? A emoção não se deixa recalcar. Irá manifestar-se sempre e, muitas vezes, de forma não funcional para o ensino.
Não há aprendizagem sem um estado emocional adequado.

AS TÉCNICAS DA PNL NO ENSINO

Praticamente todas as ferramentas da PNL podem ser directamente aplicadas no ensino. Já falei dos modelos linguísticos, nas estratégias de aprendizagem a partir dos sistemas sensoriais representacionais, das convicções e dos valores. Tenho falado muito, noutros textos, no rapport, uma ferramenta para a criação de empatia, essencial como ponto de partida na comunicação e imprescindível no ensino. Essencial é também conhecer os tipos psicológicos do aluno relacionados com a aprendizagem (os teóricos, os práticos, os aplicadores).
A auto-imagem do próprio professor e a sua representação mental da classe são factores determinantes na forma como o professor vive o grupo, o que vai determinar todo o seu comportamento perante o grupo (o que se estuda no Panorama Social).
Fundamental para ajudar pessoas a crescer de forma saudável, é ter em mente uma congruência de factores organizados de forma lógica baseados na conhecida metáfora do icebergue aplicada ao funcionamento do ser humano: qualquer conhecimento, qualidade, competência, aprendizagem, sustenta e é sustentada por crenças e valores, assim como as crenças e os valores sustentam e são sustentados pela sensação que as pessoas têm da sua própria identidade e do seu lugar no mundo e no cosmos.
O respeito pela pessoa e pelo mundo mental da criança, do aluno, do estudante, do outro ser humano, é central para o crescimento individual assim como para a criação de uma sociedade adulta.

O NOVO PAPEL DO PROFESSOR

Uma pergunta que se pode fazer é se, em muitas disciplinas, ainda há necessidade de um professor como instrutor tradicional, canal de distribuição do conhecimento. Programas de computador para transmitir e treinar conhecimento podem, cada vez mais, ser superiores aos professores mais competentes.
Nota-se sim uma crescente necessidade de coaching. Um coach ajuda o individuo ou equipa a definir devidamente resultados, assim como inspira e guia no caminho activando e desenvolvendo os recursos presentes nas crianças, nos alunos, nos formandos, nos estudantes. Claro que esta tarefa seria facilitada numa sociedade saudável. Mas seguindo a maneira de pensar em PNL, não podemos deitar as culpas ao “sistema” como justificação para não podermos realizar um ensino mais adequado ao desenvolvimento dos alunos. Um formador, um terapeuta, um coach, um professor, é uma espécie de transmissor de “Luz” e a sua missão é a sua contribuição para uma sociedade mais perfeita. Não se pode, no meu entender, ser professor, formador, coach, terapeuta… sem um sentido de Missão. O sentido de Missão é, aliás, essencial para qualquer vida plena de significado, no ensino ou fora dele, mas talvez que no ensino seja ainda muito mais importante. É bom sentirmo-nos responsáveis perante as gerações futuras. Está nas mãos de cada um de nós dedicar a sua criatividade e os seus esforços para a construção de uma sociedade mais justa em que a felicidade de todos seja um alicerce e cada criança possa desenvolver ao máximo as suas potencialidades e realizar os seus sonhos, celebrando a Vida.

UMA METÁFORA FAMOSA
Chávena de Chá

Um professor de filosofia foi ter com um mestre zen, Nan-In, e fez-lhe perguntas sobre Deus, o nirvana, meditação e muitas outras coisas. O Mestre ouviu-o em silêncio e depois disse.
– Pareces cansado. Escalaste esta alta montanha, vieste de um lugar longínquo. Deixa-me primeiro servir-te uma chávena de chá.
O Mestre fez o chá. Fervilhando de perguntas, o professor esperou. Quando o Mestre serviu o chá encheu a chávena do seu visitante e continuou a enchê-la. A chávena transbordou e o chá começou a cair do pires até que o seu visitante gritou:
– Pára. Não vês que a chávena está cheia?
– É exactamente assim que te encontras. A tua mente está tão cheia de perguntas que mesmo que eu responda não tens nenhum espaço para novos conhecimentos. Sai, esvazia a chávena e depois volta.

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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