José Figueira

A hipnose sofreu, após o distanciamento pela parte de Freud e o crescente emprego no show business, desinteresse científico e, apesar do fascínio, também uma descredibilização pela parte do grande público.
Foi o Prof. Dr. Milton H. Erickson que, na América, chamou novamente a atenção para a importância da hipnose como poderoso instrumento terapêutico. O transe hipnótico pode ajudar a mente inconsciente nos processos de auto-cura.
Nas práticas reconhecidas de PNL, a hipnose deixa o seu campo no show business e na terapia, tal como aconteceu também com outras ferramentas da psicologia que saíram da área terapêutica, para passar ao uso generalizado, seja em que contexto for, ao serviço do enriquecimento das relações, através da melhoria substancial da comunicação.

O QUE É A HIPNOSE E SUA RELAÇÃO COM PNL

A hipnose, um processo terapêutico talvez tão antigo como a história da humanidade, é geralmente conhecido pelo grande público na sua forma teatral, o que provoca medo em algumas pessoas e, ao mesmo tempo, um certo fascínio.

A hipnose faz uso do fenómeno “transe”, um estado natural em que a pessoa desloca a sua atenção do exterior para o seu interior. Alguns exemplos de transe diário são: – conduzir um carro sem se dar por isso, entrar numa leitura e perder a noção do tempo, ausentar-se mentalmente numa conversa… É um fenómeno tão natural que, às vezes dizemos por brincadeira em PNL: – o problema não é induzir transe, o problema é tirar as pessoas do transe.

Enquanto que no transe natural não se tem praticamente proveito nenhum nisso, o transe induzido pode ser funcional e levar a pessoa a aceder a recursos latentes dentro de si. Daí a vantagem da hipnoterapia.

A hipnoterapia entrou na PNL através daquele que é considerado o pai da hipnoterapia moderna, o Professor Dr. Milton H. Erickson (1901-1980). O que a distingue da hipnoterapia tradicional é o método sugestivo não directivo. A sugestão vai directamente ao encontro do modelo do mundo do outro e ajusta-se totalmente a ele. Com que fim? Milton Erickson acreditava piamente nos recursos do individuo para curar e gerir a sua vida. A sugestão indirecta e o transe levam o outro a aceder ao seu potencial inconsciente.

Os estudos de Richard Bandler e John Grinder sobre Milton Erickson formam, como alguns dizem, a coluna vertebral da Programação NeuroLinguística. Em Patterns of the hypnotic techniques of Milton H. Erickson encontra-se o que em PNL é conhecido como o Modelo Milton e que é constituído pelos padrões linguísticos de Milton Erickson com efeitos hipnóticos. São baseados nas tradicionais omissões, generalizações e distorções linguísticas.

Usando uma auto-classificação, podemos formular que a PNL é uma modelagem da hipnoterapia excelente. Mas não só, claro. PNL é vista como tendo diversas componentes, das quais a hipnoterapia é uma delas.

MENTE CONSCIENTE E MENTE INCONSCIENTE

A grande área de trabalho, tanto em hipnoterapia como em PNL, é o inconsciente. A mente consciente, que dizem ocupar 12% do cérebro, possui o poder do raciocínio lógico, análise, e controla a acção voluntária dos músculos. A mente inconsciente, que parece ocupar 88% do cérebro, controla o sistema nervoso autónomo, órgãos e glândulas, sistema circulatório, digestivo, raciocina de forma analógica, processa enormes quantidades de informação de forma simbólica e possui todos os recursos de que necessitamos para atingir o que queremos.
Através da aplicação intencional de transe, pretende aceder-se a esta parte inconsciente da mente.
A vantagem da PNL reside no facto de ajudar as pessoas a tornarem-se cada vez mais conscientes dos próprios processos inconscientes do seu funcionamento e utilizar estes mesmos processos na construção das suas vidas. A intenção é, assim, tornar as pessoas cada vez mais independentes, livres, felizes, em constante crescimento e, contribuindo de maneira mais eficiente, para um mundo mais justo, ecológico, melhor. Como diz Bandler, de forma provocativa: a PNL pretende libertar as pessoas da dependência do terapeuta.

AS FERRAMENTAS DA PNL E O TRANCE

Na Programação NeuroLinguística não se fala, em geral, de hipnose. A razão é óbvia: todas as ferramentas são utilizadas de forma natural em estado de transe. Essencial para o funcionamento das técnicas que têm como fim accionar os recursos pessoais é, digamos, “adormecer” a mente consciente para aceder a esses recursos do inconsciente. O método utilizado é a criação natural do que é conhecido em hipnose como “yes set”, uma situação em que o erro, falha ou resistência é banida. O transe consegue-se muito facilmente através da sugestão indirecta.

Enquanto na sugestão directa (“sente-se cada vez mais relaxado!”) podem surgir resistências, a sugestão indirecta evita-as. Quando se diz ao outro: “escolha a sua própria maneira de se sentir relaxado”, a pessoa aceita facilmente o pressuposto (aceita que relaxar é possível e que tem uma maneira própria de se sentir relaxado) e entra assim mais facilmente em transe.

RAPPORT

O “rapport” é a condição básica para que possa existir uma relação (hipno)terapêutica. Após a criação de um “yes set”, o rapport é, em toda a intervenção, a preocupação essencial. Sem isso não há comunicação.

Rapport significa uma relação de empatia e confiança tal, em que o utente está totalmente disponível para seguir as sugestões do (hipno)terapeuta.

Claro que em PNL não se fala em hipnoterapia, isto também pela simples razão de que o rapport é a condição básica para que possa haver verdadeira comunicação entre pessoas. Podemos dizer que em PNL, o rapport saiu da clínica para se tornar, de forma consciente, a base de todas as relações em todos os contextos da vida.

Rapport, usado exclusivamente de forma técnica, foi, às vezes, mal compreendido e empregue para sedução, tentativa de manipulação e exercer influência menos ética. Felizmente que, na maioria dos casos, o rapport só é conseguido se se respeitar o outro, se vir, ouvir e sentir como o outro, se estiver totalmente interessado no outro. Chamamos a isto: entrar, dentro de uma relação, na segunda posição perceptiva.

Ao criar a Programação NeuroLinguística, Bandler e Grinder puseram a hipnoterapia moderna ao serviço da comunicação quotidiana. Devido à concentração na excelência na comunicação, a PNL tornou-se uma metodologia, talvez das mais fundamentais para o desenvolvimento pessoal a caminho de um mundo em que os nossos filhos venham um dia a orgulhar-se da contribuição dos seus pais na criação de uma humanidade mais feliz.

SOBRE AS TÉCNICAS

Já conheci algumas introduções à hipnoterapia moderna que podem confundir-se com um curso de PNL. Não admira, têm o mesmo Milton Erickson como um dos pontos de partida e, para além dos tradicionais scripts, são enriquecidas com as técnicas de PNL, técnicas tais como a sobreposição de características sensoriais nas nossas representações internas, automatização dos processos internos para a criação de estados emocionais positivos, resolução de conflitos internos e mediação, regressões e progressões no tempo, transformação da história pessoal, instalação do futuro, etc.

Salientam-se sempre as características do transe como um elemento natural da comunicação diária e dos seus aspectos positivos na mudança, na transformação e no crescimento pessoal. Assim o transe é essencial no emprego de toda a tecnologia humana de comunicação. O seu uso respeitoso e ecológico foi posto ao serviço de toda a gente que queira melhorar a sua comunicação seja em que área for, privada ou profissional.

O UTENTE FAZ O TRABALHO (metáfora)

Uma senhora visitou um dia o Professor Dr. Milton H. Erickson e pediu-lhe que a aceitasse como paciente mas que lhe não contaria o seu problema. Quereria então o Dr. Erickson ser seu terapeuta? Este acedeu imediatamente. A única coisa combinada foi esta: ela iria estacionar o carro à porta de Milton Erickson e imaginaria que falava, dentro do carro, com o psiquiatra Milton Erickson.

Mais tarde, a senhora anunciou que tinha resolvido o problema e pagou-lhe duas consultas.

AUTO-HIPNOSE

Repete-se muito que hipnose é sempre auto-hipnose. O certo é que qualquer mudança só é possível se a pessoa estiver disposta a isso e se a intervenção for feita dentro do seu enquadramento de valores. Se este princípio não for respeitado, o inconsciente “acorda” para protecção.

A eficiência de uma intervenção, seja ela no ensino, formação, terapia, ou qualquer outra mudança no âmbito particular ou em uma empresa, passa sempre pelo contorno das resistências da mente consciente lógica e analítica e da reunificação harmoniosa de todo o sistema, no indivíduo e na equipa, quer dizer: em qualquer mudança na vida privada ou na organização, o indivíduo deve ficar sempre a ganhar com a mudança. De contrário significa, como costumo dizer nos treinos: sabotagem ou doença. Seja o que for que aconteça, o inconsciente está sempre no controlo e só segue as directivas quando lhe convêm. Concluindo: ninguém tem poder sobre o que se passa no fundo do outro a não ser ele mesmo. A PNL ajusta-se e fortalece este processo.

UMA PEQUENA TÉCNICA PARA AUTO-INDUÇÃO DE TRANSE

Esta é uma técnica, atribuída a Betty Erickson, para indução de auto-hipnose que tem como fim chegar a um estado alterado de consciência. Faz uso directo das modalidades sensoriais, o que se conjuga directamente com a metodologia da Programação NeuroLinguística, o que não é de admirar. Milton Erickson fornece talvez a maior base teórica e prática desta ciência e arte que os autores intitularam “PNL”.

Determine, de antemão, o tempo de transe e o seu objectivo.

Após sentar-se num lugar confortável, encontre algo para o qual seja fácil olhar.
Diga a si mesmo três frases respeitantes à experiência visual que está a ter no momento; e descreva três afirmações que digam respeito à sua experiência auditiva actual; a seguir três afirmações cinestésicas.

Depois faça duas descrições visuais; duas afirmações auditivas; e descreva duas experiências cinestésicas;

Novamente empregue os três canais de representação sensorial e faça uma afirmação em cada modalidade sensorial.

Se os olhos se começarem a fechar já no meio do caminho, substitua as representações visuais externas por representações visuais internas;

Pode, e até se torna ainda mais fácil, usar como sucessão sensorial, a hierarquia dos seus sistemas de representação preferenciais.

Boa viagem!

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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