José Figueira

O Coaching em geral e os níveis neurológicos

A Programação NeuroLinguística é conhecida pelo seu enorme arsenal de ferramentas para operar mudanças, solucionar problemas e concretizar objetivos.

Robert Dilts, escritor, formador, e investigador que fez parte do grupo que esteve na origem das primeiras ferramentas da Programação NeuroLinguística ainda hoje utilizadas mundialmente, é talvez das pessoas que mais tem contribuído para a sua inovação. Tem vindo a desenvolver uma abrangente metodologia de coaching sistematizando o tipo intervenções e as técnicas para cada situação particular baseando-se no famoso modelo dos “níveis neurológicos” de comunicação, mudança e aprendizagem.

Os níveis neurológicos por ele introduzidos na PNL no seguimento dos tipos lógicos de Gregory Bateson, são baseados na premissa de que há diferentes níveis de comunicação, aprendizagem e transformação e que interagem de tal forma que cada nível orienta e comporta-se como um “todo” em relação aos níveis inferiores incluindo e transcendendo os elementos de que é composto. Ao mesmo tempo, cada nível inferior sustenta e é “parte” do nível superior – o que corresponde exatamente ao conceito de holon de Arthur Koestler. O átomo, como exemplo, é em si mesmo um todo que faz parte de uma molécula que faz parte de uma célula, que faz parte de um organismo. A célula pode existir sem que exista um organismo. O contrário não funciona corretamente. Poderíamos até dizer simbolicamente que o organismo dá significado à célula ou que o “propósito” e a “missão” da célula é ser um organismo.

Uma pessoa é um todo constituído por totalidades em si mesmas como células, órgãos, estados sensoriais, elementos estes que, por sua vez, são partes de uma pessoa. E cada pessoa é parte de um sistema maior tais como família, grupo social, comunidade, planeta… O sistema deixa de funcionar de forma harmónica se o equilíbrio relacional holárquico (hierarquia de holons) não é respeitado. Isto é válido tanto para o ser humano em si, para uma organização e para a sociedade, como para toda a ecologia do planeta. Tudo o que existe é simultaneamente completo e incompleto, é holárquico e sistémico, e sempre que se não tiver isto em conta não acontecerão boas coisas.

Os níveis neurológicos em PNL usam esta estrutura. O comportamento pode ser visto como um todo, mas para funcionar devidamente precisa de uma unidade maior tal como um conjunto de habilidades, capacidades, talentos, competências. Habilidade e capacidades sem que hajam ações comportamentais não faz sentido. Podem existir competências, mas se não forem orientadas por valores e convicções, as competências não manifestarão a sua funcionalidade completa. E assim sucessivamente.

A hierarquia (ou holarquia) dos níveis neurológicos consta de:

* “Meio ambiente” (o quadro de referência condicionante das oportunidades e restrições);

* “Comportamento” (as ações específicas para atingir resultados);

* “Qualidades e competências” (mapas, planos e estratégias que selecionam e permitem comportamentos);

*Crenças e valores” (que apoiam ou inibem as capacidades particulares de um individuo ou organização);

*Identidade” (sentido dado ao nosso próprio significado, missão e papel a desempenhar) e, finalmente,

*Espiritualidade” (referindo-se à visão e à conexão que se tem com o sistema mais amplo constituído por família, profissão, comunidade, planeta ou o que quer que seja que uma pessoa sinta como sendo seu propósito último).

Intervenções nos diversos níveis neurológicos

Cada pessoa ou organização encontra-se num processo em que cada um destes níveis pode necessitar, num determinado momento, de atenção especial. O coach em PNL joga, portanto, diversos papéis e aplica diferentes ferramentas consoante o nível de consciência, objetivos, processo pessoal e necessidades do coachee no momento.

* Quando se trata de questões referentes ao meio exterior temos necessidade de um “guia” que conheça o terreno, consciente do estado atual e do estado desejado que se quer obter. O guia cria condições, conhece o caminho mais apropriado e ensina-nos. Oferece segurança e apoio.

* O “coach” propriamente dito, no seu sentido tradicional e que tem a sua origem no desporto, ajuda o coachee no âmbito comportamental a atingir o máximo das suas possibilidades. Contribui para uma melhoria dentro de um contexto particular.

* O “professor” ou “instrutor” é, por excelência, aquele que ajuda no crescimento das capacidades cognitivas e alargamento das competências. Apoia no desenvolvimento de novas estratégias de pensar e agir.

* Quando se fala da descoberta do nosso potencial inconsciente, influenciar e libertar a sabedoria interior, desenvolver e ativar crenças e valores de forma positiva, então o coach é chamado a jogar o papel de “mentor”.

* Quando entram em jogo aspetos ao nível da identidade precisamos de um “sponsor”. Este envia mensagens de reconhecimento, menciona e apoia incondicionalmente a essência individual de cada um para o ajudar a atingir os prodigiosos e infinitos recursos latentes em cada ser humano ou num grupo.

* Na chamada PNL de 3ª geração, referimo-nos ao Coach com C maiúsculo quando o apoio ao outro, dentro ou fora da organização, ultrapassa os níveis de guia, coach, professor e sponsor. Este papel, o “awakener”, move-se ao nível neurológico da “transmissão”: leva as pessoas e as empresas a realizarem uma conexão relacional com a sua missão no mundo, visão do seu objetivo último, responsabilização e contribuição para com a sociedade e para com o planeta. Este processo concreto de realização plena, individualmente ou num grupo, é definido como “congruência”, ou alinhamento dos “níveis neurológicos”. Dizemos também que uma pessoa devidamente alinhada é uma pessoa em estado COACH.

A forma encontrada por Robert Dilts e Steffen Gilligan para a elaboração de um coaching correspondente ao Coaching com C maiúsculo é o “Coaching Generativo”.

O que é o Coaching Generativo?

Talvez uma das principais noções desenvolvidas em PNL de 3ª geração foi o conceito “generatividade”. Refere-se à descoberta, atualização e enriquecimento dos nossos recursos de tal forma que contribuam para a criação de um resultado inovativo, algo que nunca existiu. É como sair da zona a que nos habituámos para um espaço aberto, o espaço da incerteza onde o novo está à nossa espera.

Pretendem-se mudanças ao nível da identidade e da experiência que as pessoas têm em relação aos sistemas maiores, uma posição humana engajada num processo de contribuição para a construção de um mundo “de que os seus futuros habitantes se orgulhem de pertencer”. Isto é válido tanto para a nossa vida pessoal como para empresas e outras organizações. No seu livro “Next Generation Entrepeneurs”, Robert Dilts escreve na capa como subtítulo: “Live Your Dreams and Create A Better World throught Your Business”.

Há todo um processo histórico que nos trouxe ao Coaching Generativo:

* Historicamente podemos considerar a “terapia tradicional”, segundo Dilts e Gilligan, como sendo uma terapia com características por vezes bastante autoritárias, de caráter verbal, orientada à solução de problemas do passado.

* As novas terapias e o “coaching tradicional” são mais orientados para uma colaboração efetiva entre o profissional e o cliente, são direcionados para o futuro com foco nas soluções e um acento muito maior na ação em vez de se limitarem à conversa cognitiva.

* Com o “Coaching Generativo” pretende-se deixar “a nossa luz brilhar”, a luz de que fala Marianne Williamson no famoso poema citado por Mandela no seu discurso inaugural. O estado desejado é uma prática de uma vida consciente e ativar as infinitas possibilidades do inconsciente criativo de modo a deixar emergir algo que nunca antes teve lugar.

É resultado do trabalho conjunto em que uma PNL sistémica de Robert Dilts se encontra com o desenvolvimento de um novo conceito de transe (transe generativo) fruto do trabalho do psicoterapeuta Stephen Gilligan e que tem o seu fundamento em Milton Erickson.

Numa sessão de Coaching Generativo, seguindo aqui a explicação dos autores do método, o coach ajuda o cliente no estabelecimento de uma conversa entre o seu inconsciente criativo e o seu mundo consciente. Entre o coach e o coachee é criado um “coach container”, um espaço aberto à manifestação das possibilidades infinitas do ser humano onde, citando Dilts, “é assegurada a interação a partir da melhor versão de nós mesmos com o fim de tirar o máximo do momento” num processo consistindo em ativação, mobilização e enriquecimento de recursos.

Esta conversa não tem, na maioria das vezes, características lógicas e lineares, mas faz bastante uso da nossa componente somática, associações, simbologia e metáforas. Como nos diz Gilligan: “se ficarmos presos na caixinha da linguagem nada de novo pode acontecer”.

A física quântica e o inconsciente criativo

A Física ou Mecânica Quântica, que estuda os eventos que transcorrem nas camadas atómicas e subtónicas, ou seja, entre as moléculas, átomos, eletrões, protões, positrões, e outras partículas, com noções tais como o não-localizado e a causalidade, levou esta disciplina a ser usada para explicar (e até utilizada para “provar”) conceitos filosóficos, psicológicos e espirituais. Hoje em dia há uma forte tendência em unir os conceitos quânticos às teorias sobre a consciência. Assim também Dilts e Gilligan fazem uso da quântica como metáfora para ilustrar algumas das características do Coaching Generativo, por exemplo, o conceito superposição como uma das propriedades mais interessantes do campo quântico. Gilligan define esta superposição em “Generative Trance – The experience of Creative Flow” como sendo o campo ondulatório que contém simultaneamente todos os estados possíveis de uma coisa, e aplica tal princípio ao mundo psicológico para definir o inconsciente criativo. O inconsciente criativo engloba todos os estados possíveis em termos de identidade: o futuro, o passado, campos relacionais, sistemas familiares, arquétipos… é o mundo da potencialidade feito de infinitas possibilidades.

Ao nível da nossa estrutura mais profunda estão presentes todas as possíveis expressões de nós mesmos, o que fomos e no que nos poderemos tornar. Este mundo interior de possibilidades infinitas é condicionado, tal como na física quântica, pela nossa interação connosco e com os outros: ao observarmo-nos, a nós e aos outros, tendemos a congelarmo-nos ou colapsarmo-nos num estado particular em detrimento de todos os outros estados possíveis passando a ser escravos de um único modelo do mundo preservado por todo um sistema limitado de crenças e valores.

A linguagem verbal e não-verbal

A questão toda está em conectarmo-nos a esse campo criativo de recursos para “generar” possibilidades “fora da caixa”. Para tal há, como disse, que sair da linguagem lógica, analítica, linear e usar um tipo de linguagem mais aberta e apropriada à simbologia do inconsciente. O uso de linguagem metafórica é por isso comum na prática do Coaching Generativo.

Para além disso, uma distinção importante, é que não se trabalha aqui com objetivos e metas concretas bem especificadas como é o caso no coaching tradicional. Pretende-se, pelo contrário, abrir espaço ao que nunca existiu, criar opções, aumentar possibilidades de escolha. Em vez de objetivos e metas detalhadas, trabalhamos com intenções. Uma das grandes diferenças entre o coaching tradicional e o Coaching Generativo é mesmo esta, que existe uma direção, mas nem sempre sabemos onde vamos chegar e que nos faz muitas vezes dizer: “eu não sei, mas estou curioso por descobrir!” O Coaching Generativo leva-nos a essa descoberta.

Como ponto de partida é feita uma pergunta inicial para ser respondida em 5 palavras ou, se possível, ainda menos. E é esta: – O que é que é que você quer criar de mais valioso na sua vida, o que é que tem a máxima importância para si?

A intenção pode ser formulada simbolicamente e terá de ser acompanhada por imagens emergentes de alto valor significativo para a pessoa assim como traduzida somaticamente no espaço, na forma de postura ou movimento. A importância da componente somática, crucial no Coaching Generativo, já vem da chamada 2ª geração da PNL no seguimento dos trabalhos de Dilts e Judith DeLozier: “enquanto algo não nos tocar o corpo, não tem vida!”

O estado de Presença

Exercer Coaching Generativo vai mais além que uma simples profissão. O coach deve ser ele mesmo como pessoa, aquilo que está a facilitar e ajudar a despertar no coachee – é essa uma das diferenças que faz a diferença. O coach encontra-se num estado de presença, sem esse estado nada pode acontecer de mágico na relação.

Presença tem a ver com a capacidade de estar presente no aqui e agora, completamente centrado, ao mesmo tempo, em si mesmo e no coachee, neurónios de espelho bem alerta, e conectado ao campo subjetivo que os contém.

Este estado de presença é comum para o coach e para o coachee. Implica uma relação de autenticidade connosco mesmos e com o outro. Dilts acentua este importante aspeto nos seus cursos citando Richard Moss que chama a atenção para a particularidade desta relação dizendo que a distância entre nós e os outros é precisamente igual à distância entre nós e nós mesmos.

Algumas das características associadas como constituintes de um estado de presença são: flow tal como descrito por Mihály Csíkszentmihályi, espontaneidade, plenitude de vida, criatividade, segurança sem arrogância, satisfação, empatia, calma confiante, conexão…

O Ego e a Alma

Para entender melhor este conceito de “conexão” talvez seja o momento de introduzir dois termos comuns muito utilizados por Dilts: o Ego e a Alma.

O modelo “Ego e Alma”, é constituído por dois conceitos designados em PNL como nominalismos, quer dizer, são substantivos de natureza vaga, abstrata, expressões metafóricas que pretendem descrever experiências psicológicas comuns à maioria de nós, experiências subjetivas e por isso multi-interpretáveis.

Considera-se o “Ego” como entidade fabricada com base em “filtros cognitivos” (tais como crenças, modelos mentais, regras, interpretações, linguagem…); “filtros somáticos” (estado do corpo, movimentos, postura, emoções, instinto, energia…); “filtros de campo” (como resultado das gerações, da família, da profissão, do domínio social…).

Com base nas interpretações que fazemos do mundo compostas de omissões, generalizações e distorções da informação, fabricamos o nosso modelo do mundo ao qual temos tendência a apegarmo-nos e tomá-lo como única realidade. A internalização e identificação com as normas sociais de referência e a associação com o nosso próprio imaginário criou muitas vezes de nós uma amostra muito pobre de um ser humano.

Estas limitações levam o “ego” a perceber a realidade a partir da sua perspetiva limitada e a estar ocupado com a sua própria preservação. Desconectado, o Ego foca-se nos perigos, constrangimentos, e persegue o prazer imediato ou a fuga desesperada à dor.

Associam-se geralmente ao “ego” capacidades de ordem cognitiva tais como análise e estratégia. O seu fim é a segurança pessoal, salvaguarda, aprovação e reconhecimento, luta, controlo e benefício próprio. Pode tomar formas de auto arrogância e narcisismo ou de auto depreciação, autojulgamento e depressão.

Um fenómeno como o “ego inflado”, uma espécie de “balão cheio de vento”, é explicado por Carl Jung como “impulsos compensatórios de autovalorização para responder a complexos de inferioridade” manifestando-se, por exemplo, em agressividade, orgulho, vaidade, arrogância…

Basicamente as formas de ação do ego consistem em inúmeras variações de luta, fuga, paralisação, estupefação, resignação…

O conceito subjetivo e metafórico “Alma” é definido por Dilts como uma estrutura energética profunda que fundamenta a identidade e não é propriamente influenciada pela família, cultura ou sociedade. Expressa-se na forma de uma contribuição ao sistema mais abrangente ao qual se conecta.

Gilligan refere-se em “The Courage to Love, Principles and Practices of Self-Relatios Psychotherapy”, a um “ponto sensível e vulnerável” que caracteriza o aspeto central da presença humana em cada um de nós, conceito que foi buscar ao mestre de meditação do budismo tibetano Chögyam Trungpa. Para além de “alma” usam-se normalmente diversos termos para definir este ponto sensível e vulnerável, por exemplo, centro, eu profundo, essência, cerne, eu superior, bondade essencial…

Palavras chave para caracterizar o Ego e a Alma são exatamente a conexão (Alma) e o isolamento (Ego).

Enquanto o Ego se caracteriza como compartimento estanque, a Alma está conectada a uma estrutura profunda maior, um espaço mais abrangente pleno de significado.

Algumas das diferenças fundamentais atribuídas ao Ego e à Alma:

* O propósito básico do Ego é a sua própria salvaguarda e por isso tende a concentrar-se nos perigos e ameaças. Por outro lado, a Alma tende a focar-se em oportunidades e responde de forma pró-ativa às condições externas, o que é naturalmente o contrário do piloto automático característico da reatividade do Ego;

* A Alma perceciona e gere energia e inteligência emocional enquanto o Ego se concentra em estratégias e IQ;

* O Ego gira à volta do que é permitido dentro do quadro das suas próprias crenças, direcionado a Ter e Fazer. A Alma foca-se em motivações internas tais como Ser, Despertar, Serviço, Contribuição, Conexão, e anuncia e realiza a sua Missão e contribuição ao mundo orientada para uma Visão sobre o que podemos criar para enriquecer a organização, a comunidade, o planeta. O Ego concentra-se no seu Papel social girando à volta da sua própria Ambição.

Fechando com uma citação de Robert Dilts: “Quando o nosso corpo (a mente somática) e o nosso intelecto (a mente cognitiva) estão conectadas como dois dançarinos respondendo à música da vida (o campo), então a alma é o veículo para a expressão e sentimo-nos mais vivos, com maior satisfação, mais intuitivos. Sentimo-nos mais em casa no mundo. Carisma, paixão e presença emergem naturalmente quando estas duas forças (ego e alma; visão e ambição) estão alinhadas. Os resultados ótimos surgem quando o ego está ao serviço da alma”.

3 formas de viver a vida

Poderíamos dizer, como nos sugere Joseph Campbell (1904-1987), o célebre autor de “O Herói de Mil Faces”, o grande investigador no campo da religião e mitologia comparada, que a vida pode ser vivida de três formas distintas:

* A primeira corresponde ao ideal do Ego, a vida convencional considerada “normal” em que somos chamados a viver a vida dos outros e copiar os valores da sociedade tradicional da família feliz, o sucesso na escola, certificados e diplomas, carreira, dinheiro, estatuto, uma vida sobretudo caracterizada pela reprodução da rotina. É a vida de “aldeola”.

* Muitos não se adaptam a este tipo de vida e rejeitam-na como superficial ou são rejeitados por ela, seja devido à cor da pele, orientação sexual, religião, baixo valor socioeconómico, ou até mesmo pura e simplesmente por se ser mulher. É uma vida que constitui uma alternativa aos ideais do ego e da sociedade tradicional e é, às vezes, designada como o mundo da “sombra”, o “deserto” ou “terreno vago”, em que muitas vezes o cinismo, a apatia e a agressividade se manifesta na droga, na criminalidade, no fundamentalismo, no ódio ou no desespero.

* Podemos considerar o “Coaching Generativo”, tal como os seus criadores, como uma contribuição para a construção de uma terceira via integrando e transcendendo as dualidades características do mundo convencional que nos rodeia. O processo começa com aquilo que Joseph Campbell denomina o “apelo”, uma espécie de despertar do piloto automático causado pelo transe negativo inconsciente em que vivemos feito de problemas de saúde, relações frustradas, ansiedade, sensações de vazio e depressão, sentido de falta de significado. Poderíamos comparar o caminho do despertar e passagem à ação no mundo facilitado pelo Coaching Generativo, com “A Viagem do Herói” em que escutamos e respondemos a uma chamada subjetiva apelando-nos à realização do nosso propósito de vida e não do propósito dos outros.

Estados Coach e Crash

Tanto a vida de aldeola como o exílio, onde para sobrevivermos regularmente somos obrigados a vender a nossa alma ao diabo e às suas características desumanas de guerra, corrupção, desrespeito, fundamentalismos e exploração, aumentam extraordinariamente as possibilidades da manifestação do que chamamos estados CRASH. Quanto maior for a distância entre as atividades e vivências de uma pessoa no seu processo de sobrevivência socioeconómica e a intuição do seu propósito de vida não realizado, maiores os sinais de incongruência e maior será o CRASH.

É uma vida de tensão, stress, não há inspiração e reagimos automaticamente ao mundo repetindo mais do mesmo. É para muita gente, fora e dentro das organizações, o seu estado mais comum levando à diminuição da produtividade, agravamento da saúde e destruição sistemática do bem-estar pessoal.

As principais características de tal estado são:

C ontraction (Contração neuromuscular e aparecimento de sintomas psicossomáticos como resultado de um estado de alerta perante os perigos e ameaças do mundo);

R eaction (Reatividade repetitiva característica do funcionamento em piloto automático: luta, fuga, paralisação ou resignação);

A nalysis (Análise cognitiva característica de uma cabeça sem ligação ao corpo);

S eparation (Sentido de separação caracterizada por lutas entre conflitos internos e isolamento);

H urt (Dor, ferida, sofrimento, ofensa, vazio, falta de significado no que se faz…).

O oposto é o estado COACH. As características atribuídas a um estado de COACH são:

C entered (É um estado centrado, ligado ao nosso corpo, às nossas raízes e à nossa inteligência somática, ao chamado “cérebro entérico”, à barriga e à terra);

O pen (Significa abertura ao outro e ao mundo, sentindo o “cérebro cardíaco” situado no coração. Tanto o cérebro cardíaco como o entérico têm merecido nos últimos anos especial atenção por parte das neurociências);

A ttending with Awareness (Estado de alerta, consciente, desperto e liberto de apegos a crenças e valores, livre de preconceitos e julgamentos redutores);

C onnected (Conectado às nossas três inteligências, a “cognitiva”, a “somática” e a “relacional”. Esta última refere-se à inteligência que nos liga ao todo maior e que é designada como “campo”);

H olding (Refere-se à hospitalidade, uma espécie de trabalho mágico que consiste em acolher e abraçar e transformar de forma humana, criativa e inovativa, tudo o que possa surgir dentro e fora de nós. Tudo inclui aqui o que consideramos negativo e de que, quantas vezes sem sucesso, nos queremos livrar).

A importância do estado COACH

Qualquer um dos papeis que o Coach assuma no decorrer da intervenção, seja um problema a resolver, uma intenção a realizar ou um objetivo concreto a alcançar, tanto o ponto de partida como a perspetiva no coaching é a criação e manutenção de um estado COACH. É este estado que vai permitir uma congruência entre comportamento, competências necessárias, crenças e valores e missão, no quadro da uma visão ecológica abrangente sobre a comunidade e o planeta para deixar “emergir” a melhor versão do ser humano dentro das suas infinitas possibilidades de manifestação. Isto é verdade para toda a espécie de intervenções, tanto para o individuo na sua vida pessoal e relacional como dentro de uma empresa ou qualquer outra organização.

O estado COACH não só nos liga aos nossos recursos mais profundos como à inteligência do “campo”. O campo é um holon que nos integra e transcende, tal como um computador ligado à internet acede a um campo mais vasto de informação. O estado COACH gera automática e naturalmente a empatia que o mundo necessita para que possa sobreviver. E dá-nos o sentido de responsabilidade e apela-nos à construção de um mundo melhor, de uma sociedade mais humana, uma sociedade “a que as gerações futuras se orgulhem de pertencer”.

É este um dos significados importantes da conexão. É este o compromisso assumido pelos praticantes do Coaching Generativo quando se fala de Missão. Sem esse compromisso não podemos falar de uma atividade generativa.

O estado generativo

Qualquer caminho na direção da realização da intenção significativa, ou transformação pessoal, ou passagem através de dificuldades internas e externas inevitáveis durante o próprio processo da “viagem do herói” exige um estado sensorial adequado correspondente “à melhor versão de nós mesmos” e bem diferente dos estados característicos das vidas de “aldeola” ou de “deserto”.

Por exemplo, contrariando a lógica aristotélica em que algo não pode ser simultaneamente verdadeiro e falso, o estado generativo é um estado de não-dualidade onde o que achamos que devemos ser e o que achamos que realmente somos se dissolve num nível mais abrangente de consciência. Pode ser vivenciado experimentalmente na execução do “tetralema” de origem budista: eu sou X, e eu sou Y que é o contrário de X. Eu sou X, e eu sou ao mesmo tempo Y. E, na verdade, nem sou X, nem sou Y. Qualquer identificação é um processo que nos congela numa única perspetiva de nós e nos pode dilacerar a vida num conflito interno entre mim e o outro, o Mau Eu e o Bom Eu, o socialmente correto tradicional e as aspirações da Alma.

“Eu” não sou o que penso de mim, nem o que os outros pensam de mim, nem um espetador dissociado observando-se a si e ao mundo. Eu sou mais, sou muito mais do que possa acreditar sobre mim.

Em termos de posições percetivas falamos de uma quarta posição percetiva, o “nós” que sintetiza e ultrapassa as três posições percetivas básicas introduzidas por Grinder e DeLozier no Novo Código da PNL. Na primeira posição observamos através dos nossos próprios olhos, na segunda é como se estivéssemos calçando os sapatos do outro, na terceira percebemos a relação entre as duas posições pelos olhos de um observador neutral. A quarta posição em que nos movemos no Coaching Generativo corresponde à experiência subjetiva de se “ser todo o sistema”. Inclui a vivência relacional das três posições clássicas e engloba o sentido de pertença ao sistema coletivo maior definido como conexão ao “campo”.

Ainda outra característica a que se pretende chegar no estado generativo é à nossa “zona de excelência”, a zona em que, tanto no desporto como na vida, se joga o “jogo interior” tal como referido por Timothy Gallwey. Quando se age na nossa “zona de excelência” está presente então uma autoconfiança sem arrogância, ausência natural de ansiedade e insegurança, autoconsciência, estado de alerta relaxado e atuação sem esforço. Não se chega à zona de excelência através da luta ou com a ajuda de truques para lidar com medos, ansiedades ou todos os aparentes “demónios” de que as pessoas se querem livrar. Pelo contrário, como são a expressão de energias, vozes, intenções que há muito se querem fazer ouvir, os sintomas e as “sombras” são acolhidos e integrados. Não se trata de resolver problemas, trata-se de atualizar e enriquecer ao máximo os recursos. Desde que os recursos estejam presentes não existem problemas.

Em tais momentos ricos de recursos, desprovidos de bloqueios neuromusculares, há uma aceleração de energia, uma força vital que se traduz em ação criativa e inovadora resultado de termos o “canal aberto”, uma expressão atribuída a Martha Graham, a fundadora da dança moderna. Em tal estado o processo criativo é experimentado como não fluindo do eu, mas através de nós, tal como nos expressam grandes génios da nossa história como Leonardo da Vinci, Einstein, Mozart e até Michael Jackson quando falam das suas criações como não surgindo deles, mas emergindo através deles independentemente dos desígnios da vontade.

Este estado de canal aberto vai permitirmo-nos a conexão ao infinito das nossas possibilidades, a todos os recursos que acumulámos na nossa história e ao “campo”, noção onde soa também o conceito de inconsciente coletivo de Jung, ligando-nos a toda a experiência arquétipa resultante da história da humanidade e predispondo-nos à abertura para o acolhimento da potencialidade do inconsciente ao serviço da realização do nosso propósito no mundo. Este processo desenrola-se num trance generativo em que, como referi, usando as palavras de Gilligan, tem lugar “uma conversação colaborativa entre o espírito consciente inteligente e o inconsciente criativo”.

O processamento da mudança

O processo geral para operação da mudança pessoal com Coaching Generativo ocorre em 6 passos:

* Começa pelo relaxamento e pela criação de um campo caracterizado por centragem, coração aberto, estado de atenção consciente, conexão tanto interna como ao campo maior e mais abrangente como a comunidade ou o universo e, finalmente, disponibilidade absoluta para acolher tudo o que possa emergir durante o processo. Cria-se um “COACH Container”, um ambiente relacional de segurança propício que encoraja a tomada de riscos, o crescimento, a abertura para algo totalmente novo.

A centragem em si joga um papel muito importante. Começa com a ligação ao corpo e à terra, a plena consciência das inteligências somáticas: da mente cardíaca com os seus cerca de 40.000 a 120.000 neurónios e da mente entérica com mais de 500.000 neurónios, o que é equivalente a um cérebro de um gato.

* Seguidamente, por exemplo no aqui e agora na linha do tempo, é expressa a intenção para a sessão num máximo de cinco palavras, acompanhada pela representação simbólica e pela manifestação somática. Esta intenção enquadra-se na visão, missão, ambição e papel do coachee no mundo.

Sobre a “visão”: – que espécie de mundo desejo ver construído para as gerações futuras de modo que se orgulhem de pertencer, que é que eu quero criar no mundo ou o que é que a minha organização quer oferecer à comunidade?

Como vou realizar esta visão? Qual é a minha “missão”, a minha contribuição única?

E, relativamente à minha “ambição”, qual o tipo de vida que quero criar para mim, o que tenho de único para dar concretamente, aquilo que faz de mim diferente de todos os seres que existiram, existem e existirão?

E que “papel” ou “papéis” vou desempenhar para que o meu dom único possa ser manifesto no mundo?

* O terceiro passo refere-se à atualização do estado generativo feito de toda a espécie de recursos de situações passadas vividas pela pessoa, utilização da imaginação para produzir vivência de estados como se já os possuíssemos, modelagem de pessoas que servem ou serviram para nós como guias, antepassados, símbolos, forças da natureza, figuras lendárias, energias arquétipas (por exemplo: força, afeto e humor).

* Seguem-se o quarto e o quinto passo, a ação e transformação das dificuldades em recursos. A passagem à ação, vivenciada em movimento no espaço, pode ter lugar na linha do tempo a partir do Estado Atual em direção ao Estado Desejado. E geralmente vão surgir bloqueios feitos muitas vezes de crenças limitadoras, partes de nós em conflito, medos.

Interessante é o uso da distinção feita por Virginia Satir em relação a estados considerados de natureza limitadora como medos, ansiedades, dúvidas ou traços de caráter que as pessoas acham indesejáveis. O problema que as pessoas se causam a si mesmas não tem origem no medo, na ansiedade, na timidez, na insegurança, etc., mas na sensação resultante do julgamento que fazem da sensação primária. Ao tomar consciência e, num estado generativo, “acolher” a sensação secundária causada pela crença, acontece uma espécie de transformação alquímica onde todos os aparentes problemas se tornam recursos. Uma vez que os bloqueios sejam ouvidos e abraçados, integrados num nível de consciência superior, pode ser experimentado pelo coachee uma mágica transmutação em que as “sombras” se tornam muitas vezes nas forças de “luz”, talvez os apoios mais relevantes.

As inúmeras “técnicas” utilizadas aqui ao serviço da mudança generativa não são vistas como receitas fixas que aplicadas resultam em assunto resolvido. O que se quer é criar espaço para o novo.

O coach encontra-se no mesmo estado generativo que o coachee e daí aberto às surpresas que o inconsciente criativo lhe possa trazer no momento. Qualquer passo, qualquer palavra pronunciada, em silêncio mental, quietude somática e criando espaço no campo, qualquer postura ou movimento gracioso feito de forma lenta, é dotado de musicalidade e a atenção primária reside na ressonância no corpo.

As respostas encontradas neste processo são na maioria das vezes de natureza simbólica.

* O sexto e último passo é reservado à orientação e instalação do futuro e à prática para aprofundamento da mudança generativa. São feitos votos e declarados compromissos para a prática na vida, é expressa gratidão. Volta-se trazendo ao mundo a nossa dádiva única, o dom único que cada um trás consigo e que tende a perder-se no meio da cacofonia da sociedade global.

Para quem é adequado o Coaching Generativo

O Coaching Generativo não anula qualquer outra forma de intervenção em coaching. E certamente que pode ser utilizado para estabelecimento de metas concretas no futuro, para relacionamentos pessoais, familiares ou profissionais, para lidar com padrões negativos, crenças limitadoras, etc.

Cada pessoa terá no seu processo pessoal necessidade de uma intervenção específica que corresponde a um dos níveis neurológicos que levam de conselhos diretos relativos a um contexto ambiental até ao “despertar”, quer dizer, crescer finalmente ao nível da visão, da missão, da realização do propósito do ser, abrir a sua consciência para algo mais amplo, contribuir, realizar o que nunca existiu.

O Coaching Generativo é, sobretudo, altamente indicado quando há necessidade de rutura com formas antigas de funcionar, quando romper com estruturas rígidas se torna crucial, quando em tempos de crise, crescimento e transformação pessoal profunda, sair definitivamente da caixa se torna pertinente.

O objetivo é viver uma vida consciente e criativa apelando, para além das inteligências cognitiva, somática e de campo, ao que Stephen Gilligan chama “inteligência estética” que é muito diferente de coisas como utilidade, sucessos, conquista, resultados. Inteligência estética tem a ver com relações dinâmicas: como tudo se pode encaixar harmoniosamente num sistema maior em equilíbrio, beleza e graça.

José Figueira

Certificado em Coaching Generativo pela IAGC (International Association for Generative Change)

 

Biografia

Para a execução deste artigo foi utilizado exclusivamente material dos criadores do Coaching Generativo, Stephen Gilligan e Robert Dilts.

Treinos

Certificação em Coaching Generativo (15 dias, Metaphorum, Brasil), com Stephen Gilligan e Robert Dilts

Collaboration Generative (workshop 3 dias, Institut Repere, França) com Robert Dilts e Stephen Gilligan

Curso em Video

Art du charisme et la PNL (vídeo, workshop de 3 dias, Institut Repere, França) com Robert Dilts

Literatura

Generative Trance: Third Generation Trance Work, Stephen Gilligan, Crown House Publishing

 The Courage to Love, Principles and Practices of Self-Relations Psychotherapy, Stephen Gilligan, W.W. Norton & Company, New York

 The Hero’s Journey: A Voyage of Self Discovery, Stephen Gilligan e Robert Dilts, Crown House Publishing

From Coach to Awakener – Robert Dilts, Meta Publications, California

 NLP II, The Next Geeration, Enriching the Study of the Structure of Subjective Experience – Robert Dilts, Judith DeLozier with Deborah Bacon Dilts, Meta Publicatios, California

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