José Figueira

Imagino-me perante uma paisagem holandesa. Vou de bicicleta com o olhar concentrado na estrada. Pressinto algo especial à minha volta. Paro para poder apreciar melhor a paisagem. Posso focar o meu olhar numa única flor ou alargar a minha vista para todo o campo de tulipas. Ao fazer isso o quadro modifica-se. Posso também alargar ainda mais a minha visão para as vacas pastando e ainda mais longe um moinho e mesmo, ao fundo da paisagem, junto à linha do horizonte, telhados de casas de camponeses sob nuvens que se afiguram hoje de um azul intenso. Também posso dar atenção aos sons mais perto vindos de um pássaro a cantar ou alargar a minha atenção auditiva para o ruído sempre permanente de carros na estrada distante por detrás das minhas costas. Habituei-me também, onde quer que esteja, a escutar o silêncio sempre presente por detrás de todos os ruídos.
Cada quadro produz em mim uma sensação diferente dependendo da perspetiva.
Poderíamos definir a Programação NeuroLinguistica como a Ciência e Arte da construção de perspetivas sobre a maneira de ver, ouvir e sentir as coisas na vida. Alargar perspetivas, esta seria talvez até a maneira mais correta de explicar o que é a PNL.

O mapa não é o território
A mais revolucionária tomada de consciência que transforma imediatamente toda a perspetiva que temos de nós e do mundo é para mim o primeiro e mais importante pressuposto da PNL: “o mapa não é o território e as palavras que empregamos não são os acontecimentos”.
Todas as ilusões acerca da Verdade, acerca do que pensamos que somos e sobre o que é o mundo e a crença nas palavras e em toda a linguagem que empregamos como definições caem por terra. Tudo o que ponderamos são mapas que se referem a nós e ao mundo mas não são o mundo nem somos nós. Claro que ao tomar uma consciência profunda de que tudo o que se passa na nossa mente são construções cognitivas pessoais e não verdades absolutas, não vai imediatamente transformar tudo o que fazemos mas vai relativizar o nosso mapa do mundo. A vida continua, continuamos a ter crenças e a empregar a linguagem que empregamos, mas algo fundamental aconteceu: o primeiro passo foi dado para abandonar o fundamentalismo sobre o que pensamos sobre nós, os outros e o mundo, e abre-se uma nova porta para maior relativismo, flexibilidade e, se o desejarmos, infinitas novas possibilidades de inovação. Toda a potencialidade em nós, cristalizada em aparentes certezas na forma de convicções, pode passar a manifestar-se mais livremente.

Alargamento dos quadros tradicionais
O conceito “reenquadramento”, um dos mais importantes em PNL, é baseado neste princípio das perspetivas. Qualquer problema, a avaliação seja de que situação for, a solução encontrada ou não, depende da perspetiva como é encarada. Daí o desenvolvimento de uma ferramenta para a transformação de perspetivas, o chamado “reenquadramento”, ou seja, a colocação de um novo quadro à volta de uma imagem ou experiência catalogada de negativa. Uma representação negativa que alguém possa ter sobre o seu comportamento pode, como Leslie Cameron já em 1978 chamou a atenção, ser modificada quando a pessoa se realiza de que tal comportamento pode ser bastante útil em algumas outras situações. Agressividade, por exemplo, pode ser útil em algumas situações para evitar potenciais problemas; concentrar-se demasiado no que está errado pode ser vantajoso num exame para o manter alerta; certa preguiça pode ser proveitosa durante as férias…
Um significado transforma-se totalmente quando não nos fixamos unicamente no comportamento mas descobrimos o seu lado positivo. Mais exemplos: a desordem na cozinha depois da festa significa que temos familiares e amigos; não encontrar lugar para o estacionamento quer dizer que ainda podemos dar-nos ao luxo de possuir um carro; se a roupa não nos serve é porque temos comida; se a televisão se estragou pode aproveitar-se a oportunidade para se ler um livro ou brincar com as crianças…

Informação alarga as perspetivas
No fundo todas as ferramentas da PNL têm como fim um reenquadramento. A técnica mais básica que se encontra no cerne de todas as técnicas da PNL é o chamado “mapping across”. Consiste basicamente em levar recursos de uma situação em que os recursos estão presentes para uma situação em que não estão a ser utilizados, quer dizer, na sua forma clássica acedem-se a memórias adequadas e leva-se a sensação adequada para a situação problemática. Desta forma ocorrem transformações nas representações mentais de situações indesejáveis, convicções limitadoras, traços de caráter problemáticos, memórias traumáticas do passado ou enriquecem-se planos para o futuro.
No cerne trata-se aqui de levar nova informação a situações em que nos falta qualquer coisa de modo a transformar e alargar a perspetiva.
Partimos do princípio que qualquer palavra, pessoa, objeto, acontecimento, situação, não têm significado em si. O ser humano é um criador de significados. O problema põe-se quando atribuímos às coisas ou a memórias, significados que não são funcionais. Ao introduzir nova informação devidamente escolhida e mais ajustada, ocorre uma transformação do quadro criando um novo significado, permitindo movimento quando há estagnação. Não são os acontecimentos que determinam a nossa vida, sim a interpretação que lhes damos. Em PNL estamos continuamente ocupados com interpretações e reinterpretações mais adequadas. É por isso que poderíamos definir toda PNL como um processo de “reenquadramento”.

Emprego dos canais sensoriais
O emprego dos canais sensoriais determinam perspetivas, maneiras de observar, escutar e sentir o mundo.
Cada pessoa tem um sistema sensorial primário de perceber e agir. Faz uma grande diferença para a vivência do mundo se o apercebemos de forma visual, auditiva tonal, cinestésica ou o queremos simplesmente compreender. O que fazemos e a maneira como nos relacionamos no mundo é determinado em grande parte pela nossa preferência sensorial. Se estivermos conscientes disso e tomarmos a decisão de desenvolver e experienciar outros canais sensoriais que não são para nós os mais comuns, ocorre necessariamente outra forma de ver, ouvir, sentir e entender o mundo. Acedemos assim a novas formas de informação.
Para além disso são as características específicas da qualidade de um sistema sensorial, as submodalidades sensoriais, que jogam um papel essencial na avaliação das nossas experiências. Uma memória, para ser avaliada como positiva ou negativa, terá de obedecer necessariamente a determinadas características para a pessoa em questão. Algumas das características absolutamente fundamentais das submodalidades são: estar associado ou não à situação, a localização mental, se a representação é a cor ou preto e branco (para a representação visual); se as vozes interiores nos chegam da direita ou da esquerda, de longe ou perto, altas ou baixas em tempo rápido ou lento (para o sistema auditivo); se a sensação é sentida como parada ou tendo movimento, quente ou fria, em que lugar específico do corpo (para a representação cinestésica)…

Gerindo sensações e estados
A transformação das submodalidades sensoriais, embora seja um processo que ocorre a um nível neurológico relativamente à superfície, e talvez por ser tão natural, processa-se para a grande maioria das pessoas a um nível totalmente inconsciente.
A transformação das submodalidades, quando isso é considerado desejável, é um dos processos mais elementares em PNL. São as submodalidades que determinam os nossos estados de consciência e daí as nossas ações. Todas as transformações que possam ocorrer numa mudança, seja a nível pessoal como num grupo social ou na comunidade planetária, estão correlacionadas com as submodalidades. Todas as técnicas de PNL, ou de todas as tecnologias que tenham por fim a transformação, estejamos ou não conscientes disso, operam uma transformação nas submodalidades sensoriais. Daí talvez a importância primordial que um dos autores da PNL, Richard Bandler, consciente deste processo, tem dado à manipulação das submodalidades sensoriais mentais dos diversos sistemas de representação para operar uma mudança.

O níveis neurológicos e as perspetivas
Pessoalmente considero os níveis neurológicos de comunicação, aprendizagem e transformação de Gregory Bates adaptados por Robert Dilts, como o instrumento mais valioso produzido em PNL para lidar com a questão das perspetivas. Oferecem-nos um fundamento razoável para orientação na vida. Entendo melhor o meu comportamento a partir da compreensão das competências que desenvolvi e uso nos diversos contextos da minha vida, assim como as minhas crenças e valores me permitem perceber melhor como tomo decisões e me movimento no mundo. Quando chegamos ao nível da espiritualidade, à nossa visão do mundo e à nossa missão, temos uma perspetiva mais global em relação a todo o processo da nossa vida.
Nos níveis neurológicos qualquer nível superior oferece um alargamento da compreensão de um nível inferior.

Meta estados
O conceito Meta Estado de Michael Hall é também muito interessante neste quadro. Michael Hall define um estado primário como um daqueles estados que envolvem emoções primárias como medo, raiva, alegria, tristeza, etc.. Alguns exemplos são: sinto-me satisfeito com X; tenho medo que John faça alguma coisa, sinto irritação em relação a Y…
Mas uma pessoa pode ter medo de ter medo. Entra então noutro nível.
Um Meta Estado coloca um quadro à volta do estado primário, engloba-o e classifica-o. A questão é que este Meta Estado dá uma nova perspetiva ao estado primário e pode ser altamente destrutivo anulando-nos todos os recursos para lidar com uma situação. Acontece quando operamos um julgamento sobre os nossos estados e é esse julgamento que ainda vai ser mais determinante para a forma como nos sentimos. O problema em si não é a preguiça, a irritação, a culpa, a solidão. O problema é o julgamento negativo sobre a sensação. É possível ter uma sensação sobre uma sensação e isso muda toda a perspetiva. Podemos sentir calma ou culpa sobre a irritação ou coragem sobre o medo, ou medo de ter medo.
Já Virginia Satir fazia aos seus clientes estas perguntas:
– Como se sente?
– E como se sente sobre como se sente?

A linguagem determina a perspetiva
A linguagem em si perspetiva qualquer situação ao etiquetá-la. Acho que foi também Virginia Satir que disse qualquer coisa no género: – as pessoas criam problemas pelo tipo de linguagem que empregam!
O Modelo Meta, o primeiro modelo da PNL, consta de padrões linguísticos que, por natureza, contêm omissões, generalizações e distorções, e perguntas para encontrar um nível de significado escondido por detrás do que se diz.
Se se pergunta a alguém que diz não estar nos seus dias: – como fazes isso de não estares nos teus dias? Ou se a pessoa afirma que não é capaz de fazer algo e lhe perguntarmos: – o que te impede? Ou se a pessoa diz que algo não é bom e lhe perguntarmos: – não é bom comparado com quê? Ou se alguém afirmasse que não pode fazer tal coisa e lhe perguntássemos: – o que aconteceria se fizesse? E muitos outros exemplos… isso provocaria certamente uma mudança de perspetiva na pessoa.

Brincando com a linguagem
Se no Modelo Meta se produz uma mudança de perspetiva através de perguntas, também é possível numa conversação reenquadrar convicções a partir de uma espécie de prestidigitação linguística conhecida como Sleight of Mouth e constituída por cerca de 14 truques linguísticos. Seguem-se alguns exemplos citados no meu livro “Ciência e Arte da PNL”. Foram criados num curso para Masters e alguns dos quais acho muito bem conseguidos.

A convicção limitadora tomada como ponto de partida foi o padrão linguístico chamado “equivalência complexa”. Alguém sabe que frequentamos um curso de PNL e diz-nos
– PNL é uma seita!
Alguns exemplos encontrados de reenquadramento linguístico:
– Dizes isso porque a liberdade é importante para ti. PNL é flexibilidade e, ao mesmo tempo, tomada de responsabilidade social.
– E se PNL não fosse uma seita mas na verdade significasse proteção, liberdade e novidade?
– PNL é uma seita para quem não aceita, com esta convicção é que podes abrir o caminho para te tornares tu mesmo membro de uma seita!
– Olha, todas as seitas fossem como esta! A questão é que se todos pensassem como tu, perderíamos certamente a oportunidade de crescer na vida.
– Sinto que me queres proteger, mas devias proteger-te a ti mesmo desta convicção.
– O.k., continua assim na vida, a não deixar espaço para os outros.
– Foge, para que eu não te hipnotize!
– Convicções como a tua é que levam à lavagem ao cérebro.
– Se fosse assim como tu dizes, era uma das maiores seitas do mundo. Então tem cuidado com as organizações excelentes, já que PNL é agir com êxito, respeito, liberdade e independência, a caminho de uma excelência cada vez maior.
– PNL uma seita? PNL é tornar-se seguidor de si mesmo. Em geral, as seitas não aceitam a PNL porque PNL é justamente um obstáculo para o crescimento de seitas.
– PNL e seita são como água e fogo. A propósito, ao Cristianismo também chamaram seita.

O tempo como perspetiva
São portanto imensas as formas dentro da PNL para proceder a reenquadramentos que têm como consequência uma mudança na nossa perspetiva. Outra forma é o uso intencional do tempo.
Costuma dizer-se que o tempo cura. Parece-me verdade e quando o processo não tem lugar de forma natural podemos dar uma ajuda com a “terapia da linha do tempo”.
Com a terapia da linha do tempo pode proceder-se à plena transformação de diversas vivências na nossa vida levando nova informação aos acontecimentos na forma de recursos ou tirando deles lições de que não tínhamos ainda tido consciência, o que resulta numa nova maneira de olhar os acontecimentos da nossa história pessoal. Um problema ocorrido no passado longínquo é só um problema enquanto olharmos para ele na perspetiva associada da “criança” que o viveu. Se estivermos em estado de o observar num quadro mais vasto e dissociado, com a compreensão do adulto, pode ocorrer uma transformação da memória e até tirarmos dele lições positivas.

Inovação
A realização de um novo projeto faz-se também a partir de perspetivas, neste caso pelo uso de, pelo menos, três perspetivas. Emprega-se para isso a chamada “engenharia imaginativa” mais conhecida em PNL pela “Estratégia de Dysney”.
Começa-se pela criatividade que se deixa correr livremente à volta de um tema, comportamento, projeto. A seguir passa-se à sua realização prática. O que foi feito na prática é submetido à crítica, recomeçando-se o processo criatividade-prática-crítica até que não haja mais nenhuma perspetiva crítica. O processo estaria assim concluído.

Resolução de conflitos é uma questão de perspetivas
Nos processos de mediação e negociação de conflitos é usado explicitamente o reenquadramento. Neste caso, para facilitar o acordo ao nível de comportamento das partes em conflito faz-se, em cada participante, a investigação dos valores que está na origem do conflito. Como os valores têm um caráter hierárquico e desde que se suba o suficiente na hierarquia de importância de valores, chega-se geralmente a um ponto em que são encontrados valores comuns, tais como eficiência, qualidade, satisfação, etc. É esta perspetiva comum que vai facilitar o acordo. Sem a perspetiva de objetivos comuns, uma resolução prática de conflitos torna-se praticamente impossível.

Associar-se e dissociar-se faz grande diferença
As pessoas associam-se tanto com os seus modelos do mundo que se tornam escravas das ilusões que têm em mente.
O que facilita o acordo entre partes em conflito é aquilo que em PNL é denominado como “posições percetivas”. Consiste em meter-se na pele do outro, agir como o outro, sentir o que o outro sente, pensar como o outro pensa, dissociar-se de si e associar-se no outro. Isto não se reserva a conflitos mas pode ser aplicado a qualquer relação entre pessoas o que facilita enormemente uma comunicação aprimorada. Perceber e ter em conta a perspetiva do outro, estando ou não de acordo com ele, pois não se trata propriamente em estar de acordo ou não, a perspetiva da dissociação oferece-nos mais informação para um diálogo muito mais fundamentado e rico.

Cabeça e estômago
Dormir uma noite antes de tomar uma decisão pode fazer uma grande diferença. A perspetiva da razão como resultado da análise dos prós e contras da mente consciente, pode ser radicalmente diferente da resposta intuitiva da mente inconsciente. Sobretudo situações mais complicadas são um problema para mente consciente enquanto que a resposta intuitiva do inconsciente parece, na maioria das vezes, corresponder à decisão mais acertada.
E uma das formas mais radicais que conheço para transformar a perspetiva sobre seja o que for, é geralmente sair da cabeça e vivê-la no corpo. Pura e simplesmente escutar atentamente o que o estômago lhe diz. Parece que na região do estômago há tantos neurónios como o equivalente ao cérebro de um gato. Tornamos a nós mesmos vida mais fácil se sairmos da cabeça e nos habituarmos a escutar no que se passa em baixo: o gato ronrona ou está assanhado?

José Figueira, maio 2014

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

Share This