José Figueira

Fala-se cada vez mais na vivência de “o aqui e agora” para definir um estado de consciência oposto ao automatismo que caracteriza a vida diária de biliões de pessoas no mundo. O estado natural “adormecido” em que fazemos as coisas sob o jugo do piloto automático é considerado cada vez mais como uma das fontes de grande stress. Figuras de relevo no mundo chamam a atenção para a tomada de consciência do nosso funcionamento prevenindo-nos para as consequências nefastas físicas e psíquicas da forma inconsciente como se processa o nosso processo mental e como se traduz em comportamentos automáticos que escapam ao nosso controlo e nos deixam à mercê da arbitrariedade de estados emocionais muitas vezes negativos.

 

Up e down no mundo dos computadores

Uptime e downtime são palavras que foram importadas em PNL vindas do mundo dos computadores. Durante o uptime o computador está em estado de receber informação enquanto no downtime está processando informação internamente sem acesso ao exterior.
Podemos também traduzir literalmente uptime em “tempo em atividade”, a quantidade de tempo que um sistema de computador está ligado e desempenhando atividades computacionais sem descontinuidade deste estado de operação, ou seja, de forma ininterrupta. É o oposto a downtime que é o tempo em que um sistema não está operacional.

 

Up e down em PNL

Uptime designa um estado psicológico em que a pessoa está totalmente focada no exterior, no aqui e agora. Há uma ausência de diálogo interno e todos os sentidos estão apurados para receber os estímulos externos.
Downtime refere-se a um estado de caráter hipnótico, em geral inconsciente, em que a pessoa está voltada interiormente para a sua experiência interna, mental e emocional, caracterizada por elementos do passado e do futuro.
Se downtime é um estado em que facilmente nos encontramos tanto nos momentos de ócio como durante as nossas atividades, uptime exige maior atenção e exercício.

 

Os prós e contras

Down pode ser muito útil na maximização do pensamento para atingir melhores resultados. Podemos aceder interiormente a informação, ideias, estabelecer planos. Geralmente empurra-nos na direção da “cabeça” e impede-nos de abraçar e vivenciar a própria vida. Regularmente o diálogo interno negativo sabota-nos os empreendimentos e faz-nos entrar numa espiral de estados sensoriais desconfortáveis. O material com que a mente trabalha em estado downtime é o nosso modelo tradicional do mundo que muitas vezes se vai interpor entre nós e a vida.
Uptime é o estado que nos permite conhecer o mundo sem a interferência de filtros, reduzindo assim os processos de omissão, generalização e transformação da informação. Uma comunicação ótima com o mundo, aprendizagem, abertura e flexibilidade, estão diretamente relacionadas com a nossa capacidade de entrar em uptime.
O estado de uptime está na base de, pelo menos, dois pilares básicos da PNL: o rapport (fundamento da comunicação) e modelagem (novas aprendizagens a partir de modelos).

 

Eckhart Tolle e Krishnamurti

A grande atenção e a consciência da importância do estado de uptime para a melhoria da qualidade das nossas vidas devemo-la em grande parte, nos tempos que correm, a Eckhart Tolle. Só quando nos alinhamos com o presente, segundo Eckart Tolle, libertando-nos do processo automático das nossas representações internas sob o poder quase absoluto do diálogo interno, é que uma nova perceção da realidade pode surgir, uma perceção mais humana, mais pura, profunda e poderosa.
Interpretamos o mundo com as representações velhas da nossa mente e isso só pode levar à repetição das mesmas coisas velhas. O pensamento interpõe-se entre nós e o mundo e assim nunca perceberemos a beleza das coisas tais como são. Foi também este tipo de mensagens que Krishnamurti no século passado andou a espalhar pelo mundo durante mais de cinquenta anos.

 

Mindfulness

O Professor Dr. Jon Kabat-Zinn, fundador da Clínica de Redução do Stress e do Centro de Atenção Plena em Medicina, na Escola Médica da Universidade de Massachusetts, desenvolveu todo um programa que está já sendo aplicado em diversas outras áreas como é o caso das psicoterapias cognitivas para ajudar as pessoas a sair da cabeça e viver a vida de uma forma mais saudável. O programa, inspirado na meditação tradicional budista, tem como fim desenvolver uma forma de direcionamento intencional da atenção para o aqui e agora sem julgamentos. Embora este direcionamento não se dirija exclusivamente ao exterior, tem como característica o que é comum no conceito uptime: a observação sem interpretação.
O sucesso e a popularidade destas iniciativas deve-se muito possivelmente não só aos resultados sentidos pelos praticantes no que se refere a consequências para a saúde física e psíquica e a um novo tipo de consciência e qualidade de vida, mas também se afigurou dar origem a novas possibilidades inovativas despertando a criatividade.

 

Despertar

Estamos habituados em PNL a pensar em termos de níveis de aprendizagem, consciência e transformação. Falamos de níveis ambientais, níveis comportamentais e em termos de competências, em níveis de crenças e valores, níveis de conexão com o que sentimos como sendo mais nós e o nosso centro assim como conexão a sistemas relacionais superiores mais abrangentes tais como a comunidade e o planeta. Esta conexão exige uma passagem do estado downtime para um radical uptime.
Em termos de níveis de consciência, podemos falar de 3 níveis no desenvolvimento da consciência. A primeira fase é a “consciência primitiva” da criança caracterizada por entusiasmo, emoção, explosões e irracionalidade. Segue-se a fase do “ego ou espírito comum” constituído pelos modelos da socialização condicionados pelo mundo exterior e que forma a base do piloto automático que é a nossa forma automatizada de reagir ao mundo. O mais alto grau de consciência é um “despertar” capaz de sair da caixa da repetição, capaz de inovação, criatividade e criação de um novo mundo que é uma consciência liberta dos filtros, a chamada “consciência, estado ou eu generativo”. Exige a extinção da luta diária contra o indesejável, a aceitação e a sua transformação. Esta transformação consiste tradicionalmente em PNL pela satisfação alternativa da intenção positiva do sintoma ou de qualquer outro problema com que a pessoa se depare.

 

Hakalau

O treino do uptime, a focalização e abertura no aqui e agora desprovida de filtros e que nos permite uma observação pura sem as interpretações que são o resultado da subjetividade da nossa história, é conhecida em PNL como learning state. Tem a sua origem na antiga Huna, numa meditação xamânica do Havai (dos chamados kahunas).
Comece por fixar durante algum tempo um ponto na parede acima do horizonte dos seus olhos (Ho’ohaka) deixando descontraidamente que os seus pensamentos venham e vão (Kuu). Alargue depois a pouco e pouco a sua visão (Lau) de modo a tornar-se periférica (Hakalau) adquirindo finalmente a sensação que pode observar tudo à sua volta como se fosse possível ter uma visão de 360 graus. Fique nesse estado o maior tempo possível e dê atenção a como se sente agora (Ho’okohi).

 

Nerk Nerk

O estado de flexibilidade, abertura a nova informação, criatividade e conexão com o mais central em nós e com a nossa relação com o mundo, é chamado por Dilts o “estado de não saber nada”, uma característica fundamental do uptime. É o estado que levou Einstein, Mozart, Da Vinci e outros a dizer que as suas descobertas não foram o produto de uma atividade cognitiva consciente mas ocorrendo mais ao nível da intuição. Foram experimentadas como se tivessem surgido do nada e eles não fossem mais do que uma espécie de “canal aberto”.
Para além das formas tradicionais em PNL para desenvolvimento da acuidade sensorial, Todd Epstein, que contribuiu durante anos para o desenvolvimento da PNL, criou para o mesmo efeito um personagem a que chamou Nerk Nerk. Nerk Nerk é um visitante de outro planeta com o mesmo sistema nervoso e as mesmas características que nós mas sem os nossos pressupostos percetuais, linguísticos e culturais. É incapaz de fazer omissões, generalizações e distorções. Só compreende instruções suficientemente específicas construídas sobre bases sensoriais. Como não se baseia em experiências anteriores isso permite-lhe aceder a novas perspetivas. Esta é uma ferramenta básica em PNL para aceder ao novo: – observe os objetos à sua volta como se os observasse tal como um Nerk Nerk.

 

O Trainer state em PNL

O estado de trainer ou apresentador em PNL exige que este se encontre descontraído, de mente aberta, consciente de tudo à sua volta e capaz de responder, sem preconceitos, a tudo o que acontece na sala, quer dizer, exige que o trainer se encontre perfeitamente num estado de uptime. Este “Trainer state” aprendia-se com Tad James e David Shephard nos treinos para treinadores de PNL. Foi desenvolvido a partir dos Yoga Sutras (600 AD) de Patanjali.
– Trate primeiro de esvaziar a mente e que nada a preencha (Yama). Não há nada senão a vivência plena do aqui e agora (Niyama). Encontre o balanço simétrico, fisiologicamente estável e confortável que visa o controlo da mente rebelde (Asanam). Segue-se a atenção e controlo da respiração (Pranayam) seguindo-se o controlo dos sentidos, retirando a atenção do exterior e voltando-se totalmente para dentro (Pratyahara). O estado de concentração que se segue é conseguido através da focalização e concentração num ponto tal como no learning state (Dharana).Finalmente é conseguido um estado de contemplação, expansão da consciência por todo o espaço que nos faz lembrar a visão periférica (Dhyana) e que resulta na fusão, a unificação, desaparecimento de toda a separação

 

Pausa respiratória

A pausa respiratória, que eu saiba, não foi ainda integrada nas práticas da PNL embora me pareça um dos instrumentos mais valiosos para a criação de um estado de uptime. É um exercício proposto pelo Dr. Jon Kabat-Zinn. É uma meditação curta de 3 minutos em 3 simples passos que tem como fim desligar o “piloto automático” e voltar ao momento presente e se pode utilizar em qualquer momento do dia.
Pare e comece por tomar consciência do que experimenta no momento: – que pensamentos, emoções e que sensações corporais o assolam? Agradáveis ou desagradáveis, note-as com curiosidade e sem julgamentos. É o que é. No minuto seguinte dê atenção à sua respiração, à inspiração e expiração, ao ar que entra e ao ar que sai, o peito e a barriga que sobem e descem durante o processo. Há milénios que a respiração é considerada como uma âncora que lhe oferece a possibilidade de voltar ao aqui e agora a qualquer momento do seu dia. No terceiro minuto dirija o estado de consciência da respiração para o corpo na sua totalidade. Uma atenção vigilante, consciente do aqui e agora, como se fosse possível respirar com todo o seu corpo.
A consequência é a entrada natural num estado de uptime, um estado caracterizado por abertura, alerta, tranquilidade, criador de espaço para novas descobertas e novas ideias. Dá-se, digamos, uma passagem do enredo emocional para o observador livre com novas possibilidades de escolha.

 

O pintor na China antiga

Na China antiga, um artista, antes de começar a pintar qualquer coisa, uma árvore, por exemplo, ficava sentado diante dela durante dias, meses, anos, não importa por quanto tempo. Ele ficava observando a árvore até ele próprio se sentir árvore. Ficava sentado observando até não recorrer à sua experiência para se identificar ou interpretar a árvore. Ficava sentado até “ser árvore”. Isso significa, como disse Krishnamurti numa das suas palestras, que não havia mais espaço entre ele e a árvore, não havia espaço entre o observador e a coisa observada, não havia um experimentador a experimentar a beleza, o movimento, o matiz, a intensidade de uma folha, a “qualidade” da cor. Ele era totalmente a árvore e só nesse estado podia pintá-la.

 

As pulseiras do chinês

Cada vez mais podemos observar os nossos cursistas com aquelas pulseiras de plástico coloridas que podem ser compradas no chinês a cinquenta cêntimos.
A ideia surgiu-me quando tomei conhecimento sobre um pastor de uma cidadezinha americana que, descontente com o pensamento negativo dos seus paroquianos resolveu introduzir a ideia da pulseira. Cada vez que um dos frequentadores da sua igreja tomasse consciência de um pensamento negativo teria de mudar a pulseira para o outro pulso.
O objetivo em cada um dos nossos cursos é ajudar as pessoas a elevarem-se a um novo grau de consciência, adquirirem maior liberdade interior através da crescente tomada de consciência e libertação do jugo do processo automático da sua história. Cada vez que tomamos consciência de que nos “esquecemos” de nós, que nos “esquecemos” de quem somos verdadeiramente, que nos “esquecemos” que não somos os nossos pensamentos nem as nossas sensações arbitrárias, nem somos o nosso passado nem as ilusões do futuro, cada vez que tomamos consciência que nos esquecemos disso, mudamos a pulseira para o outro pulso para nos “recordarmos” de viver no aqui e agora.

 

O ritual da mãe e do bebé

Vivemos para, num estado alerta, viver a nossa vida e não ser vivido pelas nossas memórias, como diz Deepak Chopra. Não existimos para passar a vida num estado de hibernação. Vivemos, acredito, para estar “acordados”, para realizar o nosso dom, um significado único, a nossa única razão de ser e deixar no mundo o nosso contributo especial.
Na ilha do Togo, no oceano Pacífico, um bebé nasce. As mulheres retiram-se na natureza, juntam-se à volta do bebé e começam a cantar até encontrarem uma melodia única. Esta melodia é a representação simbólica do espírito deste bebé – é o dom específico, único, que este bebé traz ao mundo.
Sempre que na vida deste ser haja um problema, uma doença, sempre que este ser possa cometer um ato não aceitável ou “adormeça”, não há a mínima punição. As mulheres juntam-se então para lhe cantarem a sua melodia para que este ser, em estado de uptime, se “recorde” de quem é verdadeiramente e qual a sua missão no mundo. Quando ele morre, esta melodia única é cantada pela última vez.

José Figueira, março 2014

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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