José Figueira

O pensamento positivo parece logicamente ser algo bastante positivo. Se as nossas representações mentais condicionam e orientam as nossas sensações e os nossos comportamentos então, necessariamente, qualquer representação positiva será benéfica tanto no contexto cognitivo como somático com consequências ótimas na área comportamental.
Muitas vezes a PNL é integrada, parece-me que injustificadamente, dentro das inúmeras variantes do chamado pensamento positivo. Talvez isso se deva a uma interpretação superficial que as pessoas fazem de figuras que divulgam formas mais populares de PNL tais como Anthony Robbins, por exemplo. Há muitas interpretações do que é PNL, o que é natural numa metodologia que não tem dono.
Altamente importante, no meu entender, é chamar a atenção para alguns perigos que advêm do chamado pensamento positivo.

O que é o pensamento positivo?

É uma corrente popular altamente difundida e que contribui muitas vezes para negócios formidáveis. A internet está cheia de cursos, seminários, treinos de motivação que prometem mundos e fundos de salvação e as prateleiras das livrarias abarrotam.
A ideia básica é que se mantivermos pensamentos positivos, isso pode contribuir imenso para a felicidade e o sucesso.

Podemos encontrar correntes altamente louváveis na psicologia que, se no início do movimento se baseavam nas especulações humanistas clássicas, hoje em dia se esforçam por encontrar fundamento em experimentação empírica.
Encontramos também correntes esotéricas de natureza especulativa que acreditam que o pensamento positivo não só as altera a elas, como o mundo todo à sua volta é transformado por uma espécie de fluido universal positivo.

Somos constantemente confrontados com teorias altamente atrativas numa sociedade de consumo que, com enorme sucesso, nos faz crer que o bem-estar está ao alcance de todos na tabacaria da esquina ou nas diversas lojas do centro comercial. O problema é que as coisas às vezes não têm a simplicidade com que são apresentadas.

Os perigos do pensamento positivo

Qualquer um de nós já pôde constatar que, em muitos casos, por mais que as pessoas se esforcem por terem pensamentos positivos, não têm os resultados que desejam. Em tudo na vida uma coisa pode ou não funcionar, claro. Mas ainda mais importante é que, para muitas pessoas, o pensamento positivo pode ser altamente contraproducente.
Já há uns tempos atrás fui alertado pelos jornais holandeses para uma investigação efetuada na universidade de Wisconsin, na Califórnia. A repetição de afirmações positivas nas pessoas com uma autoimagem de si muito negativa tem como resultado uma autoimagem ainda mais negativa. Ora isto é algo que já constatei há muito na minha prática e para o qual chamo sempre a atenção nos meus cursos. É qualquer coisa assim, como diz o meu amigo Dr. Lucas Derks, o criador do Panorama Social: “Se uma pessoa já se acha burra, então passa a achar-se burra ao quadrado”. Há que ser um pouco crítico em relação aos livros de autoajuda, na maioria dos casos, de origem americana.
Em vez de porem em dúvida as “receitas”, não é raro que muitas pessoas acabem por se sentir culpadas pelo que elas consideram a sua incapacidade de pôr em prática as regras positivas aparentemente simples sugeridas por muitos gurus do sucesso e da excelência, o que reforça a imagem negativa que têm de si.

Os perigos do pensamento negativo

Sobre os perigos do pensamento negativo todos nós temos experiência disso. Dirija-se ao que não quer e aumenta extraordinariamente as possibilidades de receber de presente precisamente aquilo que não quer. Ao focalizar-se vai ficar sensorialmente alerta para o que não quer, o que lhe apura a perceção daquilo do qual se quer afastar, tendo como consequência que o vai encontrar por toda a parte. Pala além disso vai produzir em si o estado emocional negativo correspondente. Se não quer ter medo, insegurança, irritação, isso parece resultar na prática num aumento da probabilidade da manifestação desses estados.
É conhecidíssima a brincadeira “não pense num sapo azul” ou “não pense num elefante cor-de-rosa”. Fazemos imediatamente uma representação do que se não deseja, representação essa que tende a realizar-se. Quantas vezes acusamos os nossos filhos de desobediência quando fomos nós precisamente que lhes demos a ordem: – Não toques nisso, não deixes cair, não metas as mãos na sopa!
Pelo que sei parece não haver em medicina prova alguma de que o pensamento positivo possa facilitar a cura (o que não prova que não funciona). Há sim alguns resultados sobre investigação com pensamentos negativos (ou com a sua ausência). Formulando de acordo com os resultados de provas empíricas em medicina: parecem haver provas de que a ausência de pensamento negativo influencia o processo de cura positivamente e o pensamento negativo agrava o processo.

Vozes internas em conflito

Pelos resultados das experiências mencionadas acima e, sobretudo, pela experiência que tenho, acredito que o pensamento positivo parece funcionar nas pessoas que já têm de si mesmas uma autoimagem positiva acompanhada de convicções que as apoiam. O pensamento positivo é, neste caso, um reforço.
O problema põe-se quando inconscientemente uma vozinha interna vem contrariar a afirmação positiva. A pessoa diz: – Sou amada, sou forte, sou corajosa! E a vozinha interna: – Não és nada!
A única solução que estas pessoas conhecem para isto é gritar mais alto (o que acontece em muitos treinos de automotivação) ou então desistem. Há geralmente uma espécie de competição em que a vozinha interior negativa ganha geralmente a partida. Mesmo que durante algum tempo o pensamento positivo pareça estar a vencer, as energias gastas na luta acabam por extenuar o combatente e aumentar a frustração.
Resumindo, como de forma clara nos dizem Penny Tompkins e James Lawley, podemos conscientemente dizer a nós mesmos: “Eu mereço o melhor,” Mas se no seu inconsciente a mensagem está sendo contrariada com “Você nunca vai conseguir coisa alguma na vida,” qual vai ser o resultado? O grave é que as pessoas em geral não têm consciência deste processo. Talvez sintam uma inquietação ou alguma coisa no sentido de que algo não está lá muito bem com elas.

O valor das palavras e as imagens

Outra questão com o pensamento positivo tem a ver com a relação entre as palavras e as imagens. As imagens são mais importantes que as palavras. Se pensarmos num limão, pensamos num limão e não acontece grande coisa em nós. Se criarmos uma imagem a saborear um limão acontece algo no nosso corpo, o sistema glandular é imediatamente ativado.
As palavras são formadas no hemisfério esquerdo do cérebro. As imagens no hemisfério direito. Ora é precisamente no hemisfério direito que se encontra o Sistema de Autopreservarão e Preservação da Espécie. Concluindo: sempre que houver conflito entre as imagens mentais e as palavras, as imagens ganham.
Qual é a consequência para o assunto que estamos a tratar? Uma pessoa pode pensar positivamente e criar imagens contrárias do que pensou. Se alguém disser: – “Sou inteligente” e, ao mesmo tempo, criar inconscientemente a imagem de um asno… Quem ganha?
Cuidado com as superficialidades do pensamento positivo.

Formulações mais eficazes

Emile Coué é apontado como pai das afirmações positivas. Ele introduziu por volta de 1900 o chamado método da autossugestão consciente.
Ora Emile Coué parece já ter tido consciência das possíveis resistências da mente às afirmações demasiado diretas e daí ter procurado formulações mais elegantes. Para uma pessoa sofrendo de crises de ansiedade e medos, repetir “sou corajoso”, “sou corajoso”, “sou corajoso”, não funciona. É como se a pessoa tivesse consciência de que se está a aldrabar. Emile Coué sugere então uma formulação deste tipo, por exemplo: “Cada dia que passa estou a caminho de me tornar mais corajoso”. Não evita a resistência, mas pode atenuá-la. É mais aceitável para a pessoa.
Mais requintada é a técnica que Steve Andreas aconselha: o uso do padrão linguístico de transe inspirado de Milton Erickson chamado a “transgressão seletiva de restrições” e que denota um conhecimento mais aprofundado do funcionamento da mente.
Onde quer que eu esteja e a qualquer momento posso dizer coisas como estas: – Estas paredes estão tranquilas (uma formulação linguística literalmente impossível), há calma na árvore, há alegria nesta alameda… etc, consoante o estado desejado. Utilizamos já normalmente estas transgressões linguísticas de caráter metafórico, mas usamo-las de forma negativa: – Está um dia sombrio, as paredes asfixiam… Se invertermos este processo, por exemplo, “há alegria nestas árvores”, há paz nestas rochas”, evitamos grande parte das resistências e a mente vai dar subtilmente sentido à frase produzindo em nós a sensação empregue no padrão linguístico (http://www.pnl-portugal.com/afirmacoes/).

(Nota: Para aumentar verdadeiramente as probabilidades de sucesso de uma afirmação positiva é absolutamente necessário, segundo a PNL, trazer para a nova afirmação a intenção positiva dos traços de caráter, convicções ou comportamentos negativos que se querem transformar. Vou falar disso mais à frente).

Neutralizando a voz sorrateira

E já agora, o grande problema muitas vezes é a gente levar-se demasiado a sério! Para evitar isso vou partilhar aqui uma cómica ferramenta de PNL pouco conhecida.
Afirmações negativas, vozinhas interiores desconfortáveis, frases que contrariam o decurso pacífico e feliz da vida, podem ser tratadas com a chamada técnica de Bill Clinton.

– Primeiro trate de identificar a afirmação limitadora que se está repetindo no seu diálogo interno, muitas vezes quase sem ter consciência plena disso.
– Depois procure mentalmente uma pessoa que considere o maior aldrabão do mundo. Quanto mais aldrabão melhor é, um aldrabão patológico, alguém em quem verdadeiramente não acredita.
– Diga a frase a si mesmo: “Eu sou…”
– Imagine então essa pessoa a repetir a afirmação negativa limitadora sobre si: “Tu és…”
– Faça isso algumas vezes, 6 7 vezes. Às vezes uma basta.
– Acredita no que ela diz? Ainda continua a acreditar nisso?

Trata-se de se sentir bem

Se quisermos introduzir a PNL como uma epistemologia e um conjunjo de ferramentas com um objetivo “positivo”, então não nos deveríamos referir ao pensamento positivo. Muito possivelmente todos os seus autores e continuadores estariam provavelmente mais em acordo com a afirmação de que o fim da PNL, em primeira instância, é criar “estados positivos”, sentir-se bem, alinhado consigo mesmo, em harmonia. Mesmo que falemos da PNL como um conjunto de ferramentas funcionais para atingir objetivos, a condição essencial é sempre a criação de estados. O pensamento positivo é, em PNL, mais uma consequência do que uma intervenção direta.

PNL não trabalha diretamente com conteúdos. Uma frase como “sinto-me mal” ou “sinto-me bem” ou qualquer sugestão que nos possamos dar a nós mesmos é tratada em PNL a um nível meta. Pode ser o meta nível linguístico (o que significa isso verdadeiramente?) ou a nível representacional. É a representação que nos fazemos a nós mesmos que cria o estado.
Como se faz em PNL? Transformamos a representação negativa através da transformação das características da representação (cor, tamanho, distância, tipo de som, lugar da sensação no corpo, etc.). Já vimos acima que a grande determinante nas nossas vidas é a imagem. A palavra só tem impacto se estiver congruente com a imagem.

Resumindo, em PNL sempre que trabalhamos com uma afirmação, vamos investigar as suas características representacionais e transformamos a seguir essas características.

Uma sublime ferramenta de PNL

Talvez que a ideia sobre PNL como corrente do pensamento positivo tenha como fundamento o pressuposto básico, largamente difundido nesta metodologia, que por detrás de qualquer aspeto indesejável há sempre um lado positivo. Daí a confusão.
Para ilustrar este pressuposto básico descrevo a seguir a estrutura de uma das mais características intervenções com PNL. Essencialmente trata-se da aceitação do “lado negro de nós”, de todas as limitações de caráter, emoções negativas, crenças obsoletas que prejudicam a nossa realização pessoal. Lutar contra elas seria uma guerra perdida. Lute contra o que não quer e aumenta as possibilidades de o receber de bandeja, como vimos acima.

Dado um determinado conteúdo negativo:
– O primeiro passo é reconhecer o que há de positivo na “sombra”, a intenção positiva no aspeto de nós não funcional (por detrás do medo ou da insegurança, está a preservação; por detrás de um comportamento servil pode estar o desejo de aceitação; por detrás da raiva pode até estar um desejo escondido de colo…).

– O segundo passo é a aceitação dessa parte negativa de nós, abraçar essa energia bruta, acolhê-la, perceber e sentir que tem toda a razão de existir no seu desejo escondido de sobrevivência e de contribuir para o nosso bem-estar.

– O terceiro e último passo é encontrar alternativas adequadas e mais funcionais para realizar a intenção positiva dos lados de nós que considerávamos negros.

Resumindo

Para pessoas que já têm uma imagem positiva de si, as afirmações positivas reforçam a sua autoimagem positiva.
Uma contra indicação para afirmações positivas é o seu uso em pessoas que têm de si mesmas uma imagem negativa (e que na verdade são as que mais necessitariam).

PNL não tem a ver com o que correntemente é designado como “pensamento positivo”. Pensamento positivo seria antes uma consequência da aplicação de ferramentas de PNL e não um fim, nem sequer é uma ferramenta direta de intervenção (a não ser talvez no caso de dissecação linguística da afirmação ou sugestão em causa com a ajuda do chamado Modelo Meta de comunicação). Em PNL atua-se diretamente nas representações transformando as características da representação a fim de criar estados funcionais de bem-estar adequados aos objetivos a atingir.
Sempre que em PNL se lida com uma afirmação positiva ou negativa, dá-se mais importância às características da representação que ao conteúdo propriamente dito.

Cingindo-nos à questão das afirmações, um exemplo. Se alguém chega ao pé de mim para tratar uma sugestão repetitiva no seu diálogo interno, pessoalmente serei sempre tentado a trabalhar mais diretamente com as características da tonalidade com que a pessoa se repete a frase a si mesma (volume, timbre, direção do som…) do que me preocupar com o conteúdo específico da frase, seja ele positivo ou negativo.
É esta abordagem que, no meu entender, distingue a PNL do que não é PNL.

José Figueira, 2 de dezembro de 2013

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

 

 

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