José Figueira

Há um modelo em PNL que nos oferece uma ampla visão do terreno desta epistemologia, método e arte. Dá-nos indicações para aplicações práticas e mostra-nos mesmo como tem decorrido o desenvolvimento da PNL desde o aparecimento oficial por volta de 1975 na América. Alguns dos pontos que o modelo nos revela:
– As pessoas podem aprender a diversos níveis de abrangência tendo essa aprendizagem consequências diferentes para a nossa visão de nós e do mundo e para o nosso comportamento;
– As pessoas podem comunicar-se a diversos níveis podendo isso resultar em incompreensões e problemas de comunicação;
– Tal como há níveis de aprendizagem e comunicação também há diversos graus na mudança;
– E há diversos níveis de importância num sistema organizacional;
– Também, dependendo da escala na hierarquia de intervenção, temos como resultado um impacto diferente, com maior ou menor amplitude na vida da pessoa ou da organização.
O modelo em PNL que nos oferece a possibilidade de um diagnóstico e nos dá uma indicação para uma intervenção adequada, seja na comunicação, na aprendizagem ou na transformação, é o chamado modelo dos “níveis (neuro)lógicos de comunicação”.

O modelo dos níveis lógicos
O modelo tem a sua origem em Gregory Bateson que por sua vez se apoiou nas investigações sobre lógica e matemática de Bertrand Russel e foi adaptado e introduzido na PNL por Robert Dilts. É baseado na noção de que cada sistema de atividades é um subsistema de um sistema maior. A ideia básica é que existem níveis de processos que estão organizados de forma hierárquica no indivíduo e em grupos. Os níveis lógicos compõem-se de uma hierarquia que tem no seu topo a “identidade”. Seguem-se, de forma descendente, os “valores e as crenças”, as “capacidades”, os “comportamentos” que assentam no “meio exterior envolvente”.
O sexto nível refere-se ao campo relacional, o sentido de pertença a um sistema maior denominado campo “espiritual”.

Identificação dos níveis
Cada nível pode ser identificado através de perguntas:
– O nível que sustenta todos os outros níveis corresponde à nossa estrutura referencial, o “mundo exterior”. Define-se através destas perguntas: Onde estou e quando, o que há ao meu redor?
– Quando nos referimos ao sensorial, o que pode ser registado por aparelhos como, por exemplo, câmaras de vídeo, falamos da “área comportamental”. As perguntas são então: O que faço? Referimo-nos aqui à expressão corporal, tonalidade e linguagem verbal empregue. Se falarmos de uma organização fazemos menção do que é produzido por essa organização.
– Chegamos às “capacidades, competências, habilidades, qualidades, talentos”, perguntando: Como faço e do que sou capaz?
– As perguntas que nos levam ao nível dos “valores” e das “crenças” são: Porquê, porque faço o que faço, em que acredito?
– A “identidade”, definida pelo verbo Ser, tem com pergunta básica: Quem sou?
– Finalmente a “espiritualidade”, perceção dos sistemas mais alargados de que fazemos parte, tem a ver com o sistema mais abrangente que é o princípio organizador de todos os outros e que se define pela pergunta: Para quem faço o que faço? Para quê? Com que fim último?

As leis no modelo
Há leis básicas neste sistema. A função de cada nível é de sintetizar, organizar e dirigir as interações no nível imediatamente inferior. Isto tem implicações muito práticas tanto para o indivíduo como para qualquer organização. Porquê? É certo que qualquer mudança dentro de um sistema tem consequências para todo o sistema e os sistemas a que está ligado. Mas há algo aqui muito importante: Qualquer transformação que a gente faça a um nível superior tem necessariamente consequências para os níveis inferiores. E qualquer transformação num nível inferior pode influenciar o nível superior, mas não necessariamente.
Ora isto dá-nos indicações preciosas para ação tanto no campo pessoal como nas organizações.
Concretamente: a chamada espiritualidade, a visão alargada das pessoas sobre o sistema maior de que fazem parte vai influenciar o sentimento que as pessoas ou grupos têm de si e da sua missão no mundo e organizam o sistema de valores e crenças que adotam. Estes valores e estas crenças podem sustentar ou inibir as capacidades das pessoas ou grupos. As capacidades dão uma direção e concretizam as nossas ações.

Um exemplo prático
Se alguém faz uma afirmação sobre alguém, essa afirmação pode ter uma implicação diferente dependendo do aspeto da pessoa que é mencionado.
Alguém pode dizer algo mais ou menos assim:
(Meio exterior) – O meio exterior em que vives é idiota/inteligente!
(Comportamento) – A tua maneira de agir naquela situação foi muito idiota/inteligente!
(Capacidades) – Manifestaste verdadeiramente a tua capacidade idiota/inteligente!
(Crenças e valores) – Aquilo em que acreditas e aquilo que consideras importante é idiota/inteligente!
(Identidade) – Tu és idiota/inteligente!
Sinta a diferença e o impacto que estas frases podem ter.
Faz uma grande diferença dizer a alguém que é “burro” (ataque à identidade) ou que tem, numa determinada situação, um comportamento não totalmente adequado (comportamento).
É normal confundirmos os níveis com consequências altamente limitadoras. Dar feedback a alguém ao nível do comportamento ou mesmo ao nível das competências pode abrir caminhos para um crescimento e melhoria. Ataque ao nível da identidade cria resistência, conflito e reações de caráter emocional despropositadas e sem qualquer utilidade.

O aspeto neurológico
Há uma correspondência entre estes níveis comunicacionais e o sistema neurológico implicado na comunicação. Cada nível neurológico superior exige um grau de complexidade neurológica maior.
Para as pessoas interessadas nestas áreas, segue-se a correspondência entre os níveis e a nossa estrutura neurofisiológica:
– Ao nível do muno exterior jogam as sensações e os reflexos um papel que é desempenhado pelo sistema nervoso periférico.
– As ações conscientes refletidas no comportamento estão ligadas ao sistema motor (piramidal).
– As capacidades estão ligadas aos sistemas corticais que se manifestam em ações semiconscientes tais como os movimentos oculares e a nossa postura.
– As crenças e valores têm a ver com sistemas inconscientes tais como o batimento do coração, a dilatação das pupilas e a reações totalmente inconscientes. O sistema em questão é o sistema límbico e autónomo de controlo.
– A identidade tem a ver com o sistema imunitário e endócrino, funções profundas ligadas à manutenção da vida.
No nível espiritual, os sistemas nervosos individuais combinam-se para formar um sistema maior.

Níveis de aprendizagem
Falamos geralmente em PNL de níveis de aprendizagem e transformação simples e generativa. Nos níveis neurológicos de comunicação estão refletidos os 4 níveis de aprendizagem definidos originalmente por Bateson.
– O nível 0 é caracterizado por uma resposta repetitiva específica num comportamento específico.
– No nível de aprendizagem 1 já há lugar para correção de “erros” dentro de um conjunto de alternativas. Aqui já pode ter lugar uma transformação gradual em etapas através da flexibilidade comportamental (comportamento e capacidades).
– No nível 2 podem ocorrer grandes transformações de planos estratégicos resultado de mudança de valores (crenças, valores).
– No nível 3 podem dar-se alterações que ultrapassam as fronteiras atuais da identidade de um individuo, de um grupo ou de uma organização. Podem ocorrer aqui mudanças de papéis sociais (missão, identidade).
– No nível 4 assistimos a transformações revolucionárias. A pessoa desperta para algo totalmente novo até agora inexplorado. Diz-se então que o indivíduo, o grupo ou organização saiu totalmente da caixa (visão, espiritualidade).
Cada uma destas transformações exige um tipo de apoio, formação ou coaching, diferente.

Caracterizando empresas
Os níveis neurológicos de comunicação dão-nos uma compreensão e orientação precisa para o trabalho com empresas.
Uma empresa que seja totalmente destituída de visão comunitária e planetária é egocêntrica, está concentrada no seu próprio benefício e ambição e o seu único foco é o controlo. Ela não tem como objetivo o direcionamento a clientes mas sim a satisfação dos seus acionistas. Está virada sobre si mesma e ao papel a jogar neste quadro (identidade), voltada para o que é ou não permitido (arreigada a valores e crenças), movida por estratégias intelectuais (capacidades), reagindo de forma automática (comportamento) e vê o mundo como ameaças e perigos (meio ambiente).
É uma empresa dominada por managers burocráticos.
Por outro lado a empresa que está conectada a um sistema comunitário e planetário sente-se como prestando um serviço à humanidade, contribuindo para um mundo melhor. É uma empresa que consideramos, em termos de PNL de 3ª geração, uma empresa “acordada” e ao serviço dos seus clientes. Possui uma visão (espiritualidade), tem uma missão (identidade), tem altos motivos (valores e crenças), age com energia e inteligência emocional (capacidades). É proativa (comportamento) e vê o mundo à sua volta como um campo de oportunidades (mundo exterior). Nestas empresas há necessidade de uma liderança carismática, quer dizer, visionária e empreendedora.

Níveis no coaching e na transformação
Os níveis neurológicos permitem-nos definir diversos tipos de apoio ao outro no que se refere a aprendizagem e transformação tanto no que diz respeito a indivíduos como a empresas.
– Quando se trata do “mundo exterior” temos necessidade de um guia que conheça o terreno, consciente do estado atual e do estado desejado que se quer obter. O guia conhece o caminho mais apropriado e ensina-nos. Oferece segurança e apoio.
– O coach propriamente dito, que tem a sua origem no desporto, ajuda o outro no “âmbito comportamental” a atingir o máximo das suas possibilidades. Contribui para uma melhoria dentro de um contexto particular.
– O professor ou o instrutor é, por excelência, aquele que ajuda no desenvolvimento das “capacidades cognitivas”. Apoia no desenvolvimento de novas estratégias de pensar e agir.
– Quando se fala da descoberta das próprias competências inconscientes, influenciar e libertar a sabedoria interior, desenvolver e ativar “crenças e valores” de forma positiva, então falamos do mentor.
– Ao nível da “identidade” temos o sponsor. Envia mensagens de reconhecimento. Menciona e apoia incondicionalmente a essência individual de cada um para o ajudar a atingir os prodigiosos recursos escondidos em cada ser humano ou num grupo.
– Em PNL de 3ª geração falamos do Coach com C maiúsculo quando o apoio ao outro ou à organização ultrapassa os níveis de guia, coach, professor e sponsor. Chamamos-lhe o “awakener” e move-se ao nível neurológico da “espiritualidade”: Ele leva as pessoas a realizarem uma conexão relacional com a sua missão no mundo e visão do seu objetivo último, partindo plenamente do contacto profundo com elas mesmas.
O ideal de realização plena, individualmente ou num grupo, é definido como congruência, ou alinhamento dos níveis neurológicos.

O desenvolvimento da PNL
A história do desenvolvimento da PNL corresponde progressivamente aos níveis neurológicos de comunicação. Para classificar este desenvolvimento progressivo, Dilts emprega uma classificação inspirada na evolução dos computadores Aple. Fala-se de gerações.
A 1ª geração, entre 1972 e 1980, corresponde aos tempos heroicos dos trabalhos conjuntos de Bandler, Grinder, Pucelik e do grupo de investigadores à sua volta, muitos dos quais têm contribuído para o que a PNL é hoje. Nesses primeiros tempos havia pressupostos, uma ferramenta descrita na “estrutura da Magia” (o modelo meta da linguagem), âncoras, objetivos, estratégias, reenquadramento… Podemos dizer que a PNL se movia à volta dos níveis neurológicos que consideramos hoje como meio ambiente, comportamentos e capacidades. A relação do especialista em PNL com o outro era de ordem terapêutica. O terapeuta tinha a ferramenta para a resolução de um problema que aplicava ao cliente e, em geral, não a ele mesmo. Foi muito possivelmente nesses tempos que surgiu a ideia da PNL como manipulação.
A partir dos anos 80 a PNL começa a estender-se para novas áreas da comunicação como o ensino, empresas, liderança, vendas, saúde. Neste período, a 2ª geração, estudam-se e desenvolvem-se novos processos relativos à personalidade. Dão entrada os meta programas, as submodalidades, as posições percetivas, reconhece-se a importância do rapport e espera-se do praticante de PNL que ele mesmo vivencie os princípios que apregoa. Sobretudo reconhece-se a importância fundamental das crenças e dos valores como motores das nossas estratégias e das nossas ações.
Dos anos 90 até aos nossos dias fala-se então da 3ª geração.

A 3ª geração
Segundo Dilts, a 1ª geração focava-se na obtenção de um objetivo particular (meio exterior, comportamento e competências). Na 2ª geração começa a perguntar-se sobre o porquê de se desejar o que se deseja (crenças e valores). Na 3ª geração a pergunta é: quem somos e com que fim (identidade e espiritualidade).
Originalmente o praticante de PNL servia de “guia” e “coach” no sentido que a palavra tinha no coaching desportivo e evolui, passando a ser uma espécie de “professor” ou instrutor. Na 2ª geração é um “mentor”, como descrevemos atrás. Na 3ª geração passa a ser um “sponsor” e “awakener”.
Na 3ª geração, sempre segundo Dilts, englobam-se 3 espíritos: acrescenta-se ao “espírito cognitivo” dos primeiros tempos, o “somático” e o “espírito de campo”. O corpo tem pensamentos e estados de consciência que o espírito cognitivo não tem. Utiliza-se a sabedoria do corpo. Dá-se uma evolução enorme quando nos habituamos a pensar com o corpo, para além da cabeça. A partir daí foi desenvolvida a sintaxe somática e todo um conjunto de ferramentas à volta do conceito “centragem”, quer dizer, estar centrado no seu corpo (“quando perdemos o nosso centro toda a espécie de sombras começam a emergir”, citando o próprio Dilts).
O “espírito de campo” refere-se à nossa conexão com sistemas maiores. É um processo de nível espiritual (família, grupo, profissão, comunidade, planeta) designando um campo relacional entre o nosso sistema nervoso e os outros, o sistema maior. Poderia formular-se esta conexão como uma espécie de sistema nervoso coletivo possível de ser vivenciado através da tomada da quarta posição percetiva que foi acrescentada às três posições clássicas (as 3 posições clássicas introduzidas por Grinder são: “eu”, o “outro” e o “espetador neutral” ou “posição meta”).
Define-se a “quarta posição percetiva” como sendo uma posição em que se está associado com todo um sistema – podemos chamar-lhe a posição “nós”, a sensação de fazermos parte de um sistema maior, uma espécie de interação que é o resultado da interação entre todas a posições no sistema.
Concluindo, não se trata unicamente de resolver problemas e realizar objetivos. Como praticante de PNL trata-se de ajudar o outro a crescer, encontrar o seu poder pessoal, os seus recursos, aceder à criatividade, ao equilíbrio, à harmonia e à beleza, conectando-se aos outros, ao sistema maior, ao “campo”. É um processo de crescimento em sabedoria e autenticidade ligando-nos à nossa profunda razão de Ser, de estar no mundo. É encontrar o grande significado último da nossa vida e realizar aquilo que sentimos como sendo a nossa missão.

José Figueira, novembro 2013

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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