José Figueira

O que nos oferece a PNL que contribua para uma sensação mais permanente de Bem-Estar e Auto Realização?

Muitas pessoas pensam que a PNL é um conjunto de ferramentas para se realizar com sucesso a vida que se quer. Isto é uma afirmação desprovida de nuances. É uma reduzida visão da PNL um pouco americanizada e aliás propagada até por um dos seus criadores, muito possivelmente tendo como primeira intenção fins publicitários e comerciais. PNL tem mais a ver com conhecimento dos nossos processos internos e realização de significados de vida.

 

As fronteiras da mente consciente

Há limites ao que podemos fazer da nossa vida? Ao que parece, e segundo dados da neurociência atual, tanto o que desejamos como as nossas decisões assim como a maioria dos nossos atos, escapam ao nosso controlo consciente. De qualquer forma, o controlo racional e consciente que temos sobre nós é muito menor do que julgávamos. Sabemos por experiência que o que pensamos e fazemos é talvez por 95% um processo automático. Parece ficção científica: um investigador em neurociência, hoje em dia, já pode detetar uma decisão no nosso cérebro antes que nós mesmos nos apercebamos dela! Podemos continuar a acreditar no que quisermos, mas felizmente que a ciência nos vai fornecendo cada vez mais bases, como sempre o fez, para fundamentar ou não as crenças que temos sobre nós, sobre o mundo e sobre os limites do nosso livre-arbítrio.
Isto tudo para dizer o quê? Que qualquer método que nos ofereça a promessa de conseguirmos tudo o que queremos soa a exagero. Teríamos de controlar o que é impossível controlar: o nosso inconsciente. A mente consciente é um produto do inconsciente e aqui vai um velho e filosófico argumento: nunca o produto poderá compreender, e muito menos controlar, o criador.

 

A luta contra o que se não quer

Qual é o sentido então da Programação NeuroLinguística? A PNL, a caminho dos seus 40 anos de desenvolvimento, parte precisamente da constatação que as competências e possibilidades da mente consciente são muito reduzidas. E mais, a compreensão que a mente consciente tem do mundo e de nós mesmos é ilusória e a relação consciente-inconsciente está perturbada. Esta perturbação é tanto maior quanto mais a gente se esforça por lutar contra o que não quer. Até fora do mundo da PNL já se começa a ter uma consciência cada vez mais generalizada que quanto mais lutamos contra o que não queremos, mais acabamos pelo receber de presente. Esta luta não só prolonga a sensação de mal-estar como prova a nossa impossibilidade de controlo consciente. Quanto mais lutamos contra o que não queremos, mais nos afiguramos derrotados. Foi a partir desta tomada de consciência que surgiu, já lá vão alguns anos, o pensamento positivo.

 

O pensamento sistémico

Então… e se a gente se dirigir àquilo que quer? A questão não fica então resolvida? Claro que não é assim tão simples. Primeiro, não é fácil descobrir o que verdadeiramente se quer e, segundo, o ser humano com as suas diversas componentes é um sistema integrado num sistema maior com a seguinte caraterística: quando uma parte de nós quer uma coisa, na maioria das vezes há outra parte de nós que quer o contrário. Assim, de forma inconsciente, isto pode dar lugar a uma luta interior e  atos de sabotagem.
Daí a importância que é dada em PNL à ecologia. Qualquer mudança pode ter consequências não desejadas para uma parte do sistema interno e externo, o que exige uma focalização altamente apurada, intuição e honestidade pessoal na procura interna de objeções e uma subtilidade enorme na formulação de objetivos. Procura-se o equilíbrio, a pessoa total.

 

A criação dos “eus”

Estas incongruências internas entre as diversas partes de nós produzem uma sensação de desconforto. O que é o Mal-Estar? É o estado emocional resultante de uma luta interna de convicções, valores e caraterísticas psicológicas antagónicas. Cada um destes elementos foi criado a partir de episódios da nossa vida com conteúdo emocional específico. Estes valores e caraterísticas pessoais desenvolveram-se a partir de interpretações de acontecimentos com base na interpretação de outros acontecimentos e outros e mais outros e tudo isto ocorre em nós de forma inconsciente. Assim nasce a identidade, ou melhor, assim vão nascendo na nossa vida as diversas identidades, diversos “eus”, para lidar com situações específicas. Todos estes “eus” foram formados a partir de interpretações de interpretações, com a respetiva distorção, omissão e generalização da informação. O que se faz em PNL? Estudam-se estes processos. É a partir do conhecimento destes processos que surgem as técnicas.

 

O papel das técnicas

Em que é que pessoalmente acreditamos nos nossos cursos? Que as técnicas em si, por mais sofisticadas que sejam, podem ser uma ratoeira. Podemos modificar as representações na nossa cabeça da maneira como nos vemos a nós e aos outros para nos facilitar a vida. Ou podemos criar ligações neurológicas tipo estímulo-reação que nos deem mais segurança, por exemplo. Podemos usar só linguagem positiva ou truques linguísticos para enganar a mente e ultrapassar limitações. Mas se isso não for acompanhado por um conhecimento mais aprofundado das implicações da mudança e não estiver em harmonia com o nosso significado de vida (aquilo de que nos orgulharemos à porta da morte), ou não funcionará, ou teremos de gritar cada vez mais alto para calar a voz interior, ou seremos então obrigados possivelmente a procurar exaustivamente novos cursos, truques e técnicas que nos possam ajudar a criar um ego que vai daqui a Tóquio. A sociedade de consumo com os seus “brinquedos” satisfaz plenamente esta necessidade.

 

As matrioskas

Empregamos como símbolo, para definir os nossos cursos, uma viagem pelas nossas matrioskas. Partimos do mais exterior, da estrutura das nossas construções mentais para rapidamente darmos atenção ao essencial: convicções, valores, emoções. Claro que trabalhamos as técnicas mas, sobretudo, esforçamo-nos por oferecer uma compreensão aprofundada das essências teóricas e práticas que fundamentam as técnicas. Explicitamos os pressupostos necessários de que partir para aumentar a eficácia no seu uso e a eficiência das intervenções.
Fundamental, e onde nos concentramos nos nossos cursos, de acordo com o desenvolvimento atual da PNL, é no uso das formidáveis ferramentas técnicas da PNL ao serviço dos processos pessoais de auto descoberta, mudança e auto realização. Qualquer objetivo tem como perspetiva a realização do que a pessoa vai descobrindo como sendo o seu significado de vida e como o seu trabalho, família, componente estritamente pessoal e relações se integram nesse quadro maior. É esse o grande desafio. Para isso é fundamental desenvolver as nossas faculdades introspetivas a fim de podermos reconhecer aquilo que é a “verdade” em nós por detrás das diversas “verdades” acumuladas, muitas vezes em luta umas com as outras. Há diversos conceitos em PNL que nos ajudam neste processo introspetivo e analítico: por exemplo, dissociação, modelos chunk e meta, valores e meta programas, intenção positiva e filtros.

 

O teatro do mundo

A sociedade obriga-nos a jogar papéis e para sobrevivermos criámos para nós, durante a nossa vida, todo um conjunto de regras, atitudes, significados e pseudo significados. Ficámos marcados por todo um conjunto de acontecimentos que levaram muitos de nós a criar uma armadura psíquica e até a fazer um teatro em que gastamos uma formidável quantidade de energia para podermos jogar um papel que sentimos, muitas vezes, como não sendo verdadeiramente nosso.
O fim da educação e da aprendizagem tradicional é criar seres socialmente corretos. Há geralmente uma preocupação mínima com a questão se somos verdadeiramente felizes ou não. Com a melhor das boas intenções desejamos que os nossos filhos correspondam na escola ao que é esperado como bom e até mesmo ótimo para que possam singrar na vida e evitar o sofrimento. É a inevitável socialização: um processo de aprendizagem consciente (praticamente impossível de realizar harmonicamente) que resultou no atual piloto automático inconsciente e acabou por nos escravizar. Muitas pessoas vendem o corpo e a alma a um conjunto de ideias, empresas e organizações para que possam sobreviver, elas e as suas famílias, o que em nada facilita uma sensação de Bem-Estar e inevitavelmente pode acabar por levar ao Mal-Estar e à doença psíquica e física.
Felizmente que cada vez mais pessoas descobrem um dia que não viveram e não vivem a sua própria vida. São vividas ou vivem a vida dos outros. O tema da “liberdade” continua a ser um tema atual e, no meu entender, um dos mais apaixonantes em PNL (Conversations – Freedom is everything & love is all the rest, Owen Fitzpatrick e Richard Bandler).

 

A realização do Bem-Estar

O que procuramos é o que entendemos ser o nosso significado mais profundo e, com as ferramentas da PNL que temos ao nosso dispor, deitar fora a desnecessária maquilhagem e indumentária socialmente correta e encontrar uma maior harmonia interior e sensação de Bem-Estar.
Usamos PNL e integramos, às vezes, nos nossos cursos disciplinas suplementares que nos ajudam no nosso propósito. É natural empregarmos mindfulness, ou até mesmo algo que se parece com xamanismo ou ritualismos  e que podem fazer lembrar práticas esotéricas. Mas não empregamos cosmologias abstratas. Tudo o que fazemos foi modelado segundo as técnicas da PNL e assenta nos seus princípios: são recursos poderosos resultantes de criações mentais nossas. E tudo nos nossos cursos tem por fim tornar as pessoas auto responsáveis, o mais possível independentes do coach profissional, de terapeutas, gurus ou entidades fora de nós, o que, mais uma vez no nosso entender, é o espírito deste método.

E sobre os resultados de um curso de PNL?
Muitas vezes isso resulta numa separação conjugal, um outro emprego mais adequado, um novo caminho na vida, novas relações, uma relação perturbada torna-se mais harmoniosa e fundamentada… E o que praticamente sempre acontece é que a vida se tornou mais fácil, os desejos escondidos passam a ser realizados com maior facilidade, as possibilidades para um Bem-Estar crescente aumentam.

Sobretudo é criada uma nova relação connosco. Não a ilusão que podemos controlar tudo na vida inclusivamente nós-mesmos, mas a consciência da nossa plenitude. Ganhamos, por assim dizer, um aliado: nós, com todo o nosso arsenal de potencialidade inconsciente ao serviço da realização do Bem-Estar. Até a dualidade consciente-inconsciente começa a desvanecer-se.

José Figueira (Julho 2013)

(Este artigo foi, entretanto, revisto e publicado no livro “Descobrir a PNL – um ensaio em redor dos temas da Programação NeuroLinguística e das suas aplicações”, de José Figueira, Edições Smartbook. Mais informação em:  http://pnl-portugal.com/os-meus-livros/.)

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